Hayao Miyazaki, otaku e mal-entendidos

Yo!

“Não, filho da puta, só falei que peidei, não tem nenhum sentido além disso”. Bora ver!

A polêmica da semana. “Diretor Hayao Miyazaki diz que o problema da indústria é ela ser cheia de otakus”. Oh! Mas esse velhinho, mesmo depois de aposentado não fecha a matraca! Quem ele pensa que é pra falar mal de quem lhe idolatra? Quem ele pensa que é? Hayao Miyazaki?!

A notícia foi alardeada no Rocket News 24, replicada de forma menos eloquente pelo Anime News Network, mas saiu originalmente de um post monossilábico de um blog japonês chamado Golden News. Mas foi um equívoco de tradução que causou toda a polêmica (que aliás, é bem tardia).

Na referida, telas capturadas de um vídeo mostravam Miyazaki no trabalho, animando uma cena e comentando em tempo real. Como no Japão é costume colocar legenda, principalmente quando o som é capturado de microfone ambiente, só as imagens já bastavam pra saber o que ele dizia.

E ele começa falando que quando faz uma sequência de animação, ele toma certos cuidados. Miyazaki diz:

“Nisso aqui, o que conta é se você consegue puxar de memória as nuances de uma criança. Você não consegue desenhar isso sem observar pessoas. Pessoas que não fazem isso… que não observam… Só sabem se gabar ou se expor. Vivem esse cotidiano”

(PERGUNTA DO REPÓRTER, CORTADA NA NOTÍCIA TRADUZIDA) “E isso se conecta com o fato de gostar ou não de pessoas?”

“Sabe, a animação japonesa não se baseia na observação das pessoas, praticamente. Está sendo feito quase que apenas por pessoas que não gostam de ver pessoas. É por isso que vira um ninho de otakus”.

-Otaku, aqui, pelos termos de compreensão japoneses, que não se refere apenas à fãs de animação, mas à todo bitolado, fanático.

O vídeo em questão parece ser um dos vários documentários de produção que a Nihon TV, parceira da Ghibli, faz sempre que Miyazaki se envolve em uma nova produção. Alguns viraram DVD, outros somente passaram na TV japonesa, mas muitos deles estão pelo Youtube e outros sites de compartilhamento de vídeo. Como não foi especificado, eu acho que seja da época de Ponyo, pelos designs de personagens colados na mesa. Ou seja, lá se foram uns bons seis anos, sete ou mais se levarmos em conta que quando ele foi gravado, ainda estava no meio da criação. Por que só agora, né?

Miyazaki sempre foi rabugento! Na época de Nausicaa, quando ele foi alardeado como diretor de Cagliostro no Shiro, o único filme de Lupin Sansei que é mais conhecido pelo subtítulo, Miyazaki foi o primeiro diretor queridinho dos otakus, que acabavam de ser criados. O fenômeno de fãs ardorosos de animação e mangá começou com Yamato (Patrulha Estelar), Cagliostro no Shiro e Gundam, quando o anime passou a ser uma religião, e por isso, o diretor recebe o cargo de pai dos otakus. Gostando ou não disso, até onde eu sei, ele nunca negou e até já comentou o assunto.

 

Mas a verdade é que o que o blog japonês viu como uma espécie de meme engraçadinho sobre os animes de hoje em dia (o autor parece ter essa inclinação, pelos posts), o RN24 transformou em um tablóide e o ANN transformou o da RN24 em uma notícia genérica, sabiamente tirando toda a gordura do texto. Não sei se é e nem quero ver isso como de má fé do Rocket News, mas a tradução muito livre e a omissão de um quadro transformou tudo aquilo em outra coisa.

Pelo contexto, eu leio aquilo como uma crítica aberta ao que se tornou o mercado de animes no Japão, uma indústria parasitada por um grupo de fãs, em um círculo fechado e finito. O que não é mentira, todo mundo sabe que as empresas de anime estão se rendendo às tendências do mercado de nicho e cada vez menos se produz animações para um público amplo. Para o velho Miyazaki, o motivo disso são criadores, que não se interessam por pessoas e, por isso, afastam as pessoas e aproximam somente outros como eles. Você já viu (ou está em) um grupo introvertido de otakus, não? Eles têm dificuldade de criar empatia com outras pessoas e por isso se fecham entre pessoas parecidas com eles. No mercado, isso está acontecendo na relação entre criadores e público.

Acho que o grande problema aqui foi de compreensão (apesar de o fato de cortar um quadro chave não ter descido muito bem…).

Se quiser, considera que acabou aqui.

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(vai ser longo, PRE-PA-RA)

Eu gosto muito do Miyazaki porque ele é um diretor detalhista e cuidadoso. Ele cria uma arquitetura natural pros seus roteiros, pra cada cena, cada fala… e, como animador, para cada movimento. É como um teatro Kabuki, com movimentos mínimos, como o de dedos, coreografados à perfeição. Esse zelo extremo por minúcias é que torna o trabalho dele tão acessível e apaixonante. Porque os cuidados que ele tem são no sentido de tornar as coisas cada vez mais naturais, mais próximas do que realmente aconteceriam no nosso mundo. E assim, mais próximas das pessoas.

Existe uma regra pra criadores que é a do desprendimento da realidade. Você que vai criar algo fantástico, precisa entender que existe um nível de tolerância para cada público, um nível que define, inconscientemente, até onde as pessoas vão relevar a falta de regras. É aquilo de você aceitar que um homem pode voar na história, mas não aceitar que um homem pode voar porque ele tem asinhas nos calcanhares (acontece).

Namor_O_Principe_Submarino

As crianças têm um nível de tolerância alto, porque ainda desconhecem muito da realidade. Você não precisa explicar pra uma criança por que o Luffy se estica, ela ainda não faz ideia que os seres humanos não poderiam fazer isso! Ela aceita mais fácil. Um jovem não. Um jovem aprende a perguntar “por quê?” e começa a fazer associações mais complexas. Por isso, para jovens, o Luffy comeu uma fruta mágica que lhe deu os poderes. Existe um motivo. Mas não para um adulto. Um adulto é chato e diz que essa fruta não existe e não é cientificamente possível que o Luffy sopre seu dedo como um balão. Então, os adultos enxergam alegorias à sociedade e uma luta contra a desigualdade escondidas em uma aventura fantasiosa, em um engenhoso plano de subleitura. Esse é o brilhantismo de One Piece, poder ser lido por várias idades porque seu desprendimento da realidade funciona em níveis.

Existe uma outra categoria, que seria um desvio entre o jovem e o adulto. O adulto transformou os questionamentos do jovem em relação às referências de seu próprio cotidiano. Por isso, filmes, mangás, livros para adultos costumam ter pessoas normais fazendo coisas aceitáveis, como espiões, politicagem, romance, etc. Muitas vezes, usamos até uma espécie de “adultômetro” que distancia James Bond de Jason Bourne e de Edgar Hoover. Inconscientemente, fica cada vez mais difícil aceitar as mentiras bonitas da fantasia, mesmo quando queremos. E é isso que criou a crise do mangá (e dos comics, por coincidência) na década de setenta. Épocas com proporção menor de crianças e ainda em períodos de contestação, costumam dar menos atenção à histórias fantasiosas.

No mangá, isso gerou o gekigá, que tinha como filosofia cortar as asas da fantasia e deixar o quadrinho japonês mais sério e realista. Nos EUA, isso alterou diretamente os heróis, que passaram a lidar com problemas reais e a terem poderes e motivações mais bem explicadas. Não bastava o herói querer fazer o que é certo, agora ele tinha que ter uma motivação pessoal. Porque as referências de vida de um leitor adulto não aceita que uma pessoa possa arriscar sua vida por desconhecidos a troco de nada.

E é essa referência de vida que cria a nova categoria. Ela é feita de pessoas que foram da juventude para um caminho diferente. Não viveram uma vida adulta plena e não tiveram realizações de vida de um adulto comum. Não se frustraram no trabalho ou se apaixonaram pela mulher errada. De certa forma, ainda vivem sua juventude, mas de forma distorcida. Suas referências não são de vida, mas tiradas de mangás, livros, games e filmes.

Mas se esse referencial existe no entretenimento, qual o problema de receber através dele e não do convívio? É exatamente o filtro fantástico. Seus exemplos passam a ser a interpretação de alguém para a realidade e seu discurso passa a ser o resumo do discurso alheio. Ou seja, a realidade desse tipo de pessoa é insossa. E ainda pode estar cheia de equívocos, pois depende da interpretação da pessoa e da capacidade de se expressar da primeira. É ter como referência de vida as páginas de um livro qualquer. É ser otaku, pelo sentido mais pejorativo possível.

Agora imagine o que faz esse tipo de pessoa quando cria algo… Suas histórias são baseadas em outras histórias. Ele não tem o que contar porque ele não viveu, não viu, não sentiu. Mesmo que ele tenha a intenção de fazer uma história realista, o máximo que ele poderá fazer é uma história baseada no que ele considera ser a realidade, algo como narrar um jogo de futebol através do que você ouviu pelo rádio. E a tolerância de desprendimento do público em geral não bate com o nível das pessoas, mesmo em níveis mais baixos de um público adulto. E levando em conta que estamos em uma era de baixa natalidade, o público infantil e juvenil não vai manter um mercado como no passado.

É por isso que muitos editores pedem que autoras de mangá de romance vivam romances. Porque o público, mesmo que não entenda por quê, vai negar uma história que não pareça ser possível, vai fazer associações com experiências pessoais e com histórias de amigos. E se lhe parecer estranho, o público vai cortar, sem dúvidas.

UFA!

Agora volta à o que o Miyazaki disse.

Ao ser perguntado sobre como ele faz seu trabalho, ele explica que sua animação causa uma impressão diferente por causa de seus cuidados, observando nuances das pessoas reais e memorizando seus movimentos. Não sei o que eles conversaram antes, mas logo depois, o diretor faz um desabafo bem discreto. “As pessoas não fazem isso. Elas me perguntam como eu faço, mas elas não querem fazer o que eu faço”.

A pergunta do repórter dá a entender que eles já estavam conversando sobre algo, ou ele tentou forçar uma situação e conseguiu. A declaração dele sobre o mercado de anime, ao mesmo tempo que é um complemento ao desabafo anterior, é uma resposta ao repórter, falando sobre “pessoas que não gostam de pessoas”. A temática de Miyazaki, de pessoas que se conectam com pessoas, está em todos os seus filmes. É tema central de Sen to Chihiro no Kamikakushi (A Viagem de Chihiro), que de acordo com o diretor, é para as crianças de hoje em dia, que não sabem falar com outras pessoas e não sabem se portar em sociedade, dependentes de pais preguiçosos como porcos gordos. O próprio Kaonashi, o fantasma preto de máscara, é uma alegoria ao otaku, uma versão ainda mais preocupante de criança introvertida. Aliás, fica indefinido se o Kaonashi é realmente uma criança ou um adulto que não cresceu.

Mas para mim, a resposta do Miyazaki, assim como a resolução de Sen to Chihiro, é a de um pai preocupado, não a de um crítico ácido. Nas imagens, ele foca seu olhar em seu trabalho e fala sobre o que ele mesmo criou, com a desaprovação que vem do amor pela profissão a qual ele devotou sua vida, como um pai prestes a se aposentar que chega do trabalho e encontra o filho quarentão lendo mangá de cueca, deitado no sofá, com um prato sujo do almoço deixado por horas em cima da mesa. Os animes estão assim, fechados dentro de casa, mimados e que quando querem fazer algo significativo, acabam se voltando ao passado. E no final das contas, ainda estão sendo sustentados por gerações passadas.

A resposta ele já deu. Mas a indústria realmente quer mudar?