Somos todos otakus

Yo!

Solta esse seu ranço hipster, larga mão dessa pose toda que você não é Jojo! E Bora ler!

Você sabe que é. Você, que tem aquela pilha de quadrinhos japoneses. Que tem uma figure mais cara que qualquer livro da faculdade (e sabe o que é figure). Que já pensou, debruçado em suas coxas, sentado no vaso, que personagem X seria melhor na briga contra personagem Y. Que já shippou o protagonista daquela série com a menina que você acha mais legal e bonita que aquela outra. Ou com o amigo dele! Você é, vai. Admite. Eu e você, todos nós, somos otakus.

A palavra não dói tanto quanto você quer achar que dói. Ela só diz uma grande verdade. Que você gosta de animes e mangás. É isso que ela significa para quem está deste lado do globo. Para quem está no Japão, no entanto, ela é ainda mais abrangente: é o equivalente do “addicted”, aficionado, fã de algo ou alguém. E, cá entre nós, quem hoje em dia não é aficionado em qualquer coisa?

Pensando de forma abrangente, ser otaku não tem barreiras. Você pode ser velho, novo, negro, branco, pobre e rico. Até mulher é otaku, sim, com essa palavra, sem nenhuma alteração. Otaku, no mais ou no menos, pessoas que gostam muito de algo, incomuns entre a massa, mas igual entre os nossos.

Mas nós somos otakus, no sentido ocidental da coisa. Ou não estaríamos a ler (escrever) e comentar sobre mangás e animes. E com seriedade! Pois nós levamos nosso entretenimento a sério! Você não? Então queime sua figure favorita. Ou venda ela, se é dinheiro o problema. Você leva a sério o bastante para doer de forma incontrolável quando te devolvem um mangá com orelhas nas folhas. Ou para simplesmente ter qualquer coleção organizada em uma prateleira.

Não é semântica. Pouco importa a filosofia do significado das palavras, o caminho dela entre a cultura local e o valor do uso popular. Estamos tentando manter tudo simples aqui. Você gosta de mangá, então se assuma. Seja otaku, solte o ar preso no peito e alivie o esfíncter. Não, eu não tô aqui querendo te foder!

É claro, você não quer ser considerado igual a quem anda de touquinha de Pokémon na rua, nem com gordos tetudos hikikomoris, mesmo que você esteja um pouco fora de forma, com o peitoral caidinho, provavelmente por sair pouco de casa. Mas aceite, otaku é um termo abrangente, é como dizer “brasileiro” ou “palmeirense”. Não é por você ser que você concorda com todas as posturas de todo mundo que o é. Você é um otaku como só você pode ser. Os outros otakus… Tsc! Eles só estão gostando de coisas parecidas com as que você gosta, mas da forma deles. Não existe um otaku verdadeiro, nem um poser. Se você gosta de ver uns animes, você tem algo em comum comigo. E apenas isso, por enquanto.

Você pode gostar de lutas mais do que de política, de romance mais do que de super poderes. Você pode gostar mais de um personagem coadjuvante do que do protagonista que deveria ser unanimidade. Você pode ler uma obra do jeito que só você aproveita. Você pode ler por níveis de leitura que nem o autor pode ter imaginado enquanto escrevia. Você pode ir além dos limites da imaginação coletiva e encontrar a sua própria imaginação, dançando no infinito mágico composto de ideias entrelaçadas, reunidas em sua própria pista de dança, em um vai-e-vem de ritmos quebrados. Não existe regra para amar. E não existe regra para se apaixonar pelos seus animes e mangás, filmes, games, livros…

Você pode ir além dos limites da imaginação coletiva e encontrar a sua própria imaginação, dançando no infinito mágico composto de ideias entrelaçadas, reunidas em sua própria pista de dança, em um vai-e-vem de ritmos quebrados. Não existe regra para amar. E não existe regra para se apaixonar pelos seus animes e mangás, filmes, games, livros…

Não há nada que o obrigue a ser como os outros, nem mesmo o que os outros acham de você. Nem mesmo os outros fãs, os velhos fãs, os novos leitores. O que você lê, o que você gosta, não dita como você deve reagir a esse gostar. Se apaixonar pela revolução de animes de mechas não te obriga a ser um esquerdista, gostar do fascista de capa de morcego não te obriga a ser de direita e ler X-Men não precisa te ensinar nada sobre diversidade, como dizem. Não ser religioso não te proíbe de ler a Bíblia. Você não é obrigado a ler como os outros querem que você leia. Você não precisa ler profundamente, e não precisa também tratar como mero entretenimento de fila de espera. Não se sinta culpado por não atender a expectativa egoísta de outros. Leia e assista tudo como te fizer bem. Absorva o que puder. Aprenda se quiser.

E não, não se deixe levar pelos rótulos. Eles não deveriam te machucar. Pois é a ignorância dos outros que cumpre esse papel. Assumindo que você não pode mudá-los, eles sempre irão encontrar algum outro rótulo para fazer brincadeira. Não se incomode, então, com a falta de delicadeza do mundo afora. Seja otaku pra você, seja otaku para seus amigos otakus. Seja você mesmo. E seja aquele cara que lê quadrinhos invertidos, que se fantasia de personagem, seja um alienado, seja bizarro para aqueles em que você não tem mais paciência. Seja lá o que acharem. Mesmo que te considerem estranho, isso faz parte de ser um pouco diferente da massa. Então, não liga!

No final das contas, o que importa é o lado bom de tudo isso. E gostar de algo que te faz bem é muito positivo! Às vezes nós passamos dos limites, alguns até demais, como o menino que se matou ao saber da morte de seu personagem favorito, mas isso acontece até com religião, então não é uma exclusividade da bizarra cultura otaku. Vamos nos focar no lado bom!

Assumir que gosta, vestir a camisa, como literalmente fazemos, se divertir sem culpa em eventos e na passada mensal naquela comic shop onde você deixa boa parte do seu dinheiro, tudo faz parte. Levar uma vida saudável em sua otakice, sem tornar isso um trauma na vida, sem vestir uma máscara normal-fag que esconde o que você realmente quer ser.

Descomplique sua vida e seja mais feliz com o que te faz sorrir. Nós amamos nossos hobbies em um mundo onde as pessoas odeiam tudo o que fazem. Temos o privilégio!

Então, vamos todos assumir. Somos otakus, diferentes da massa, iguais entre nós, mas individualmente, somos todos especiais.