Togashi está certo. Todos os outros é que estão errados!

Yo!

Polemizar, porque sim, né? Bora ver! A cada retorno de Hunter x Hunter, os fãs já esperam pelo próximo hiato. É uma relação de amor e ódio por uma obra que é única, apesar de outras obras que sofrem do mesmo mal, como Berserk, Vagabond e Bastard!!.

Yoshihiro Togashi, o autor da aventura de Gon atrás de seu pai (e com um monte de coisa no meio) já fez seu nome no mercado e tem uma base de vendas boa o bastante para não precisar seguir regras estabelecidas e ainda ser bajulado pelos editores e até pelos donos da empresa. Não é fácil gostar de Hunter x Hunter.

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A série, que começou em 1998, tem praticamente o mesmo tempo de vida de One Piece, que é praticamente um ano mais velho apenas, mas tem 74 volumes enquanto a série de Gon tem apenas 32. Os 42 volumes de diferença mostram claramente o tempo perdido.

Com média de 4,3 volumes anuais, One Piece é um exemplo de periodicidade, com pouquíssimos casos de atrasos em seus 17 anos de serialização semanal e o melhor exemplo do mundo para mostrar como poderia ser uma publicação semanal de sucesso. Já Hunter x Hunter tem a média exata de 2 volumes por ano nesses últimos 16 anos. Uma média abaixo da metade do que One Piece faz, mesmo que o sucesso de ambas as séries seja equiparável.

No entanto, apesar de ser um nível ridículo para a Shonen Jump, a média de Hunter x Hunter ainda é superior a qualquer mangá mensal, que solta apenas um volume por ano. Berserk, apesar dos lendários atrasos, estaria na média, com 1,3 volumes por ano, 37 em 25 anos, não fosse a periodicidade da Young Animal, bimensal (saindo duas vezes ao mês). Poderia ter 2 ou 3 volumes por ano.

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Mas qual é o grande problema nesses atrasos? Cada autor tem seus motivos. Para Togashi, a experiência de serialização semanal na Shonen Jump foi quase traumática. Quando ele saiu da revista, decidiu se dedicar à sua carreira amadora e viver do rendimento de YuYu Hakusho. Os anos que passou na série (que nem é tão longa assim) lhe trouxeram problemas de saúde e stress. Se ele fosse voltar a fazer mangá, seria em uma revista mais tranquila, em um ritmo mais desacelerado.

Quem mudou seus planos foi Kazuhiko Torishima. O lendário editor da Shonen Jump voltava à revista para uma revitalização após a crise que derrubou a revista na década de 90. Em seus planos, estava o retorno de medalhões da casa, como Masakazu Katsura, Akira Toriyama, Masanori Morita e ele, Yoshihiro Togashi. Com o retorno, cada um fez suas exigências. Séries mais curtas, um pouco mais de liberdade para criar…

Togashi foi além. Em seu retorno, ele publicou Level E (publicado no Brasil pela JBC), com uma exigência muito diferente. Ele publicou sua série mensalmente na revista, que é semanal! Dessa forma, ele também diminuiu drasticamente a quantidade de assistentes (praticamente trabalhando sozinho).

Na época da estreia de Hunter x Hunter, Togashi voltou a publicar semanalmente, mas isso veio acompanhado de uma outra exigência: ele poderia parar e voltar quando quisesse. Claro que o sucesso da série influenciou muito para que a exigência fosse mantida até hoje, e Togashi pode gozar de uma posição invejável: ele publica livremente dentro da maior revista de mangás do planeta e vende mais mangás do que todos que se reviram entre as posições do ranking semanal da Shonen Jump.

Mas como ficam os leitores? E o direito que temos de ter nossas histórias periodicamente?

A verdade é que nós não temos esse direito. Você não pode exigir que as histórias sejam feitas e entregues. O que acontece é que as editoras se comprometem a isso, em certo nível, para que você tenha uma segurança para acompanhar o material. Não é um dever, mas um compromisso firmado entre a editora e os leitores. Se você não quiser mais, pode parar de ler e esperar a editora correr atrás de você.

Pode parecer rude, mas é a verdade. Os autores não são seus escravos e nem todo o dinheiro do mundo obriga ele a fazer sua história e entregar a todo custo. Da mesma forma que ninguém lhe obriga a estar no trabalho todos os dias. O que acontece é um compromisso mútuo, de que você vai ao trabalho todos os dias e vai efetuar o seu papel na empresa para poder receber. Mas esse compromisso muda, de pessoa para pessoa.

Togashi conquistou seu lugar ao sol com Yu Yu Hakusho e provou que pode manter seu público com o início de Hunter x Hunter. Em seus primeiros hiatos, seja proposital ou não (oficialmente, ele teria problemas de saúde, boatos dizem que sua saúde se chamava Dragon Quest), o público leitor de Hunter x Hunter não só se manteve mas cresceu. Com o tempo, os leitores da Shonen Jump até se acostumaram com a forma especial que a série era publicada e hoje, quase 16 anos depois, ninguém contesta isso, simplesmente aceita.

O compromisso que Togashi e os seus leitores firmaram com o tempo é de que ele vai fazer histórias quando ele quiser. E nós vamos comprar se quisermos. Ora, somos vermes, vamos comprar mesmo com meses de atraso e descaso total em explicar o por quê!

Mas será que sua posição é realmente mesquinha e ele devia mesmo é tomar vergonha na cara e trabalhar?

O trabalho de mangaká é um dos mais estressantes do Japão. Um autor de mangá passa seis dias da semana imerso em seu trabalho praticamente 20 horas por dia, um volume de horas desumano em qualquer situação. A cobrança por parte de público e editora é grande, o que agrava a pressão que é exercida contra o autor, que ainda é dono de uma empresa, seu estúdio, e precisa pagar impostos, funcionários (os assistentes, gerente, etc), manter a ordem como qualquer dono de negócio. Não é um trabalho dos sonhos, mas é exatamente que quem está ali precisa amar o que faz.

Nem mesmo todo o dinheiro do mundo (que alguns poucos artistas ganham) vale a pena, pois você em geral é privado até de chances de usar seu dinheiro, já que muitas revistas proíbem seus artistas de tomar avião e viajar de férias para fora do país. Algumas proíbem até o uso de internet, para que o autor não receba críticas diretas. O dinheiro vira números em uma caderneta. Não é à toa que o Togashi comprava Ferrari todo ano. O que mais ele poderia comprar?

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Verdade seja dita, o mercado japonês faz os artistas se portarem como ela precisa que eles se portem.

Nesse cenário, a revolução que Togashi exerceu na maior revista do mundo foi silenciosa e gigantesca. Não teve faixas, não teve black bloc protestando na frente da sede da Shueisha… Togashi conquistou sua posição de publicar de forma humanamente suportável, viver sua vida fazendo o que gosta, seja sair com sua esposa ou até, por que não, passar dias jogando videogame. Além disso, ele tomou as rédeas de seu trabalho, se negando a ter assistentes, uma medida que o mercado criou para manter prazos, e ainda decidiu que publicaria de acordo com sua produção, ao invés de produzir de acordo com a publicação da Shonen Jump. Não é como se ele um dia chegasse emburrado na editoria da Jump e esperneasse  como uma criança mimada. Ele conquistou seu espaço, ele provou que seu público é fiel, ele fez o que se espera de um autor de histórias, e se afastou do que o mercado, as editoras e os leitores acham que ele deve ser.

Nem mesmo o poderoso mercado dos animes e produtos relacionados o pressionou a mudar. Pelo contrário, o primeiro anime de Hunter x Hunter precisou se adequar ao autor, saindo da TV e indo para OVA. E isso não impediu a série de virar um novo anime, que também deve sofrer do mesmo mal em breve, quando alcançar o mangá.

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Enquanto nós, malditos viciados, sofremos de abstinência, ele se mantém firme e forte. Hunter x Hunter se reinventa a cada arco e surpreende os leitores, se mantendo atual mesmo sendo mais velho que boa parte do seu público. Togashi venceu o mercado e pode gozar de sua posição, que está além de ser o mais vendido. Está acima de ser o mais popular do ano. E é mais amplo do que ser um clássico instantâneo.

Togashi faz de Hunter x Hunter um trabalho prazeiroso, altamente lucrativo, que faz os outros felizes e ao mesmo tempo, revoluciona, de várias formas, a própria indústria. E isso o coloca ao lado de outras pessoas muito mais respeitadas, como Katsuhiro Otomo, Hayao Miyazaki, Masamune Shirow… gente que faz quando quer, como quer e se quiser. Gente que pode.

Então, se acostume. Togashi vai publicar quando ele quiser e você vai, sim, continuar acompanhando. Porque sua jogada foi tão boa que até nós, seus leitores, entramos nela sem perceber.

PS: Queria citar em algum lugar e não consegui, então jogo o link do texto de Neil Gaiman sobre o dever de George R. R. Martin em publicar logo o final de Game of Thrones (ou Crônicas de Fogo e Gelo, pros puristas).

George R.R. Martin is not your bitch.