Morte ao moe! Abaixo o ecchi! A democracia do fã.

Yo!

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Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-lo

-Voltaire (só que não. Na verdade, Evelyn Beatrice Hall, para biografia do filósofo.)

A capacidade criativa do mangá como mídia cultural é ilimitada. Nas páginas preto e branco de papel jornal mal impresso das antologias japonesas, você pode ler histórias sobre praticamente qualquer coisa que você imaginar. Impressionante, ainda, saber que existem até mais de um sobre assuntos tão exclusivos, como degustação de vinho, apreciação de quadros e air guitar. Um conjunto de variáveis do mercado japonês possibilita essa variedade única de histórias e assuntos, que você não encontra em nenhum outro mercado ou momento da história no mundo.

Uma dessas variáveis é o respeito japonês. A abertura de opinião do Japão de hoje em dia é tão grande e ímpar que as pessoas são abertas para agir da forma que bem entenderem. Claro que os japoneses também protestam e são contra muitas coisas, existindo até mesmo grupos de extrema direita anti-estrangeiros fazendo anúncios com megafone nas ruas e o PTA (Associação de Pais e Mestres) do Japão que é muito chato. Mas ainda assim, o geral, a regra que define as coisas, é favorável a um ambiente aberto. Não é à toa que a lei que proíbe a exploração da imagem infantil de forma sensual fica flutuando sem ser aprovada. Isso não é sinal de que o Japão aprova a pedofilia, mas que o país tem um medo enorme de abrir jurisprudência para a censura.

Claro que em nosso ódio emotivo, isso tudo parece um absurdo dito em juristês, mas o incentivo ao abuso infantil já é crime no Japão, seja na forma de penas duras contra o ato em si, seja na forma da lei contra apologia ao crime. Leis específicas podem acalmar ânimos exaltados em vista de casos específicos, mas a bem da verdade, japoneses detestam emendar seu livro de leis, que já é bem grandinho sem revisões. E se está funcionando, não existe motivo, que não seja o político. Afinal, agitar e acalmar sempre dá votos nas eleições.

Dessa forma, o Japão acaba sendo um dos poucos países onde a censura é feita no balcão. É cortado e defenestrado somente o que os leitores não querem comprar. Todo o resto tem espaço nas enormes prateleiras japonesas, abastecidas toda semana com mais mangás e livros do que você conseguiria ler. Se alguém quer contar e alguém quer ler, essa história existirá, doa a quem doer.

Isso gera peculiaridades da cultura japonesa que nós, em nossa tradição hipócrita e monoculturista, vemos com curiosidade. É impressionante como o japonês pode externar suas tendências ao bizarro, sem vergonha nenhuma. Como podem fazer histórias sobre gays voltadas para meninas que gostam de gays? Como podem fazer histórias de romance para garotos que não querem viver romances? Não dá pra acreditar em uma história de sexo que não envolve um encanador e uma menina descuidada. Como crer que os japoneses são tão criativos em suas fantasias?

Mas será que os eles não ficam ultrajados com isso? Onde está a vigilância do bom costume para tirar de circulação essas historinhas de morte, demônios, sexo e perversão? Ela está exatamente onde está a nossa. Tentando forçar a retirada desse material. A diferença é que isso raramente afeta de alguma forma efetiva a circulação de um mangá. Será isso o poder do mercado milionário das páginas em preto e branco? Ou a política que se faz no Japão não é séria?

A verdade é que em um país relativamente seguro como o Japão, é difícil alarmar as pessoas bradando que o mangá incentiva um comportamento violento ou a prática de crimes. Porque, mesmo que isso seja verdade, a política de segurança preventiva se mostra eficiente e mesmo quando casos absurdos de assassinato, estupro e maltrato acontecem, fazem parte do que impede o país de ser uma utopia da segurança pública e comprovam que o ser humano simplesmente pode ser perverso às vezes.

Mas sob os binóculos de nossa ignorância, vemos toda essa loucura vinda do oriente como sinais de preconceito e de pensamentos impuros, de quem deseja espalhar uma cultura imunda. Presos que somos, em nossas barreiras mentais, livres em tese, amordaçados pelo “bom senso” em nossa voz interna, não conseguimos ver a liberdade de expressão como uma forma de olhar o mundo pelos olhos de outros, mas enxergamos nela uma nova bitola, que vai nos impedir de ver o que deveríamos ver. A opinião alheia, aquela que difere da nossa, dói em cada centímetro de nossa falta de capacidade de debater, e então proibimos, felizes celebrando nossa própria ditadura enquanto nos enganamos dizendo que venceu a democracia.

Não acho, em minha inocente opinião, que a censura proteja nossas crianças (e nossos adultos iletrados) da influência negativa do que quer que seja, muito pelo contrário. Quanto menos as pessoas souberem, quanto menos opiniões se chocarem com as delas, mais elas estarão em perigo. Só o conhecimento pode armar alguém contra a influência externa e somente o debate pode derrotar de vez o monstro da ignorância. São escudo e espada do nosso caráter.

A tolerância, como qualquer outra virtude que valha, não existe em um ambiente estéril e monossilábico. Ela é como a luz, você só vai entender quando estiver no escuro. Você não tolera quem concorda com você. Tolera aquele que discorda de pés juntos e que não muda e nem mudará sua opinião. Para exercitar sua tolerância, você precisa se deparar com aquilo que você mais abomina e, se dentro dos direitos dele, esse seu inimigo estiver apenas exercendo uma opinião sem cometer nenhum crime, deverá aceitar que isso existe e, estando certo, errado ou apenas diferente, você vai precisar lhe dar o direito de existir. Fazer acender uma luz na escuridão da ignorância.

Dentro desse pano de visão, a repórter que teve sua opinião amputada por ameaça estatal não foi uma vitória, muito pelo contrário. Perdeu muito, a incompreendida democracia. Porque sempre que calamos uma opinião, ainda mais a de um jornalista, abrimos terreno para que a democracia, aquela dos direitos igualitários, seja ferida, desnuda e presa a um poste. E nós achamos isso justo, aplaudindo a barbárie desse nosso circo de horrores, como justiceiros do sofá.

A bem da verdade, esse tipo de situação e suas consequências só destacam o quanto somos covardes ao lidar com nossos problemas. Sempre buscamos um elo fraco para ser atacado, um ponto mais fácil de partir do que a raiz de nosso problema. Porque já aceitamos que não iremos resolver nada no âmbito político. Se um assassinato foi cometido? Proíba o RPG! Um estupro? Culpa das roupas curtas! Atacar esses elos fracos é fácil, gera resultados mais imediatos e isso cria a catarse que precisamos para nos sentir mais justos e honestos. Pessoas de Deus.

Mas, sinto informar, isso vai continuar a acontecer. Sem RPG, será o Heavy Metal, o mangá. De burca, iremos presenciar estupros ainda mais violentos, como no Oriente Médio. Mesmo o machismo, racismo, homofobia, tudo isso só irá caminhar para uma solução quando pensarmos seriamente sobre política, cobrando mais educação e mais condições de vida justas. E não o absurdo de pedir para nos tirarem o direito da liberdade de expressão. Eu posso não concordar com você, mas sempre irei lutar para que possa falar suas besteiras para que eu discuta com você.

Se não concorda com a visão de um autor, não o compre. Se não concorda com a ideologia de uma empresa, boicote. Se não quer ler moe, leia outra coisa. Se acha que o ecchi deve morrer, viva o que lhe satisfaz. Mas dê o direito a outras pessoas para que desfrutem da variedade que você não deseja, das opções que você não concorda. Discorde, com todas as suas forças. Mas se alguém decidir que deve acabar com elas de forma arbitrária, impeça. Porque, em uma democracia falida, amanhã pode ser você na mordaça.

E você? Está lutando por seus direitos ou para que lhe tirem ele?