Vidas ao Vento – Kaze Tachinu – REVIEW

Yo!

Tentarei ser spoiler free, mas hype no máximo. Bora ver!

Na sexta, dia 28, mais um anime estreou na grade de cinemas brasileiros. Vidas ao Vento, o último longa metragem da carreira de Hayao Miyazaki, um dos pilares da Ghibli, um dos mais respeitados estúdios de animação do mundo.  O filme não levou o Oscar no último domingo, mas isso não tira o brilhantismo do material, que é um dos filmes mais singulares da carreira de Miyazaki.

Cover do tema do filme, pelo Goose House. Liga e continua lendo.

Quem acompanha o diretor sabe que da época em que ele era empregado de outros estúdios, seu estilo já se despontava e é fácil descobrir quando Hayao Miyazaki coloca ou não suas mãos. Quando ele fez Nausicaa, viabilizando com o mangá e se esforçando para provar que poderia fazer um longa metragem épico, a gente passou a descobrir a visão fantástica das histórias do autor Miyazaki. Os temas de Nausicaa cresceram em Mononoke Hime. Em Porco Rosso, ele fez sua história da era romântica dos aviões. E depois de se tornar pai e então avô, suas histórias passaram a falar com as crianças de hoje. E em seus últimos passos, Kaze Tachinu (título original do longa) parece remontar sua própria história.

Apesar de ser um diretor prolífico e que nunca tirava férias,  Miyazaki nunca havia feito um filme biográfico. Também não tinha feito nenhuma história que seja de fato sobre amor. E também é a primeira vez que faz uma história com um adulto comum como protagonista, sem magia, sem maldições, sem fantasias.

A história de Vidas ao Vento é real, baseada em Jiro Horikoshi, projetista da Mitsubishi que criou o famoso Zero-sen, os aviões japoneses de ponta que eram a vanguarda de sua época, na Segunda Guerra Mundial. Mas o filme não é um filme de guerra e poucas vezes realmente se toca no assunto. Por mais paradoxal que isso possa parecer, o filme é até pacifista, falando a toda hora que os aviões deveriam levar pessoas e não armas.

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O Japão enfrenta uma de suas maiores crises econômicas e ainda desastres geológicos, como o terremoto que derrubou Tóquio na época. Além disso, o Japão era um país atrasado em vários sentidos. A tecnologia era muito ultrapassada, o ensino era muito baixo, a sociedade em si também tinha muitos problemas ainda. E ainda assim, os políticos queriam entrar em guerra.

Nesse cenário, Jiro segue seu sonho de se tornar engenheiro de aviões (na versão brasileira, a palavra “designer” é usada, não sei se é o certo, mas eu sempre ouvi engenheiro quando se refere a esse ofício) e se aproveita do interesse do governo japonês na guerra aérea para financiar seus próprios interesses.

Mas a história não é sobre um homem que faz aviões. É sobre um homem sonhador que conhece e se apaixona por uma garota frágil, e sobre um romance doce, com um fundo amargo.

Acompanhando a vida de Jiro desde a infância, vemos um garoto que vive dentro de seus sonhos, onde suas fantasias ganham vida. Talvez eu esteja errado, mas eu pude ver aí um paralelo com a própria carreira de Miyazaki, sonhador, cheio de fantasia. Depois, considerado um gênio, ele começa a trabalhar, transformando cada vez mais seu sonho em resultados para a empresa. Mas ao mesmo tempo, ele continua criando para si mesmo.  Da mesma forma que Jiro é mandado para conhecer o mundo e trazer a experiência para o trabalho, Miyazaki viajou também na época em que saia da Toei e entrava na nova A-Prodution.

Se traçarmos paralelos entre a carreira de Miyazaki e de Jiro Horikoshi do filme (que toma algumas liberdades), parece que Vidas ao Vento é uma verdadeira despedida. Com Miyazaki relembrando sua vida, chegando ao ponto mais alto que poderia almejar e finalmente realizando seu sonho e se derramando em lágrimas no fim.

Para quem chega hoje ao aeroporto de Miyazaki, o filme ainda consegue ser encantador em todos os sentidos. Animação primorosa, de movimentos delicados, remetendo muito mais ao Miyazaki de antes de Mononoke Hime do que ao diretor do premiado Viagem de Chihiro ou Ponyo. História sensível, sem precisar apelar para pieguices ou cenas românticas clássicas, com um romance cheio de uma certa timidez do diretor em falar de amor, que afinal de contas, é mesmo complicado se levarmos em conta o próprio cenário do filme.

Se você já viu, tente se lembrar. Se não, vai uma dica. Repare no vento do filme. A todo momento, o vento nos mostra o que as palavras não dizem. Em todas as cenas principais, vemos o ar se mover com os sentimentos, repentino e forte no primeiro encontro, carregado de fogo enquanto a paixão cresce, sinuoso e imprevisível quando o amor se conecta, levando um avião de papel, e mais rápido e forte que o poder de seu Zero-sen, mas sempre sereno quando os dois estão juntos. O vento é o recurso, singelo, que Miyazaki usa para representar as coisas de forma menos literal. Não é a toa que o filme tem isso em seu nome. O filme, no original se chama Kaze Tachinu. O vento não sopra mais.

Vá assistir o filme com atenção, como se visse um quadro no museu, e não como se assistisse TV. Aposto que vai aproveitar muito.

KazeTachinu

Nota rápida. Quando fomos assistir o filme no Espaço Itaú da Rua Augusta, em São Paulo, tivemos problemas com a exibição. Ao que parece, ela rolava em um notebook (da Dell), com dual monitor, para passar a imagem no projetor. Só que o notebook travou e deixou o filme passando sem imagem. Levou cerca de meia hora até voltar, foi preciso dar boot no computador. Sei que estamos na era das cópias digitais de filmes, mas… Em WMV?