O papel do papel nos mangás

Yo!

O problema dos papéis. Vou dar meus dois dedinhos no assunto.

O público dos mangás vem reclamando muito da qualidade do papel. Como sempre houve, os problemas físicos das edições brasileiras incomodam. E a situação atual nos leva a pensar que existe uma verdadeira crise de fornecimento de papel.

Em relação a outras épocas, nossas edições estão ficando mais caprichadas em alguns detalhes. Capas mais caprichadas, páginas coloridas, conteúdo melhor e uma padronização cada vez maior do off-set, um papel muito mais durável e nobre do que o velho papel jornal ou pisa-brite, que era popular.

O papel

Para entender a diferença, principalmente no miolo das revistas, que é o foco do post, temos que entender as qualidades do papel.

  • O papel jornal ou pisa-brite é o papel mais simples. Feito apenas de pasta prensada e fibras, ele é um papel cru, com boa aderência de tinta, mas consequentemente, vulnerável a umidade e a ação do tempo. Ele também rasga fácil e solta pó no processo, que cria sujeira extra na impressão. Portanto, um papel temporário, descartável. É muito barato. Tem diversas gramaturas, mas é mais usado com 56 g/m².
  • O papel off-set recebe esse nome por ser o papel mais indicado para o método de impressão por offset, usando chapas de impressão. Na prática, é o papel que conhecemos como sulfite, escolar, papel de impressora, etc. É o papel mais popular do mundo e por isso, o mais fabricado. Por ser poroso, ele aceita a tinta com facilidade e também é macio o suficiente para ser agradável para a escrita. Ele também é feito apenas por fibras e pasta prensadas, mas muitas vezes, recebe tratamento para aumentar sua alvura, ou seja, ficar mais branco. Também recebe tratamentos que impedem a ação do tempo e da umidade (não em todos, algumas linhas recebem esse tratamento), o que faz dele um dos melhores papéis para documentos. É bem barato. Tem praticamente qualquer gramatura, do 30 ao 300g/m². O mais comum em impressos é o 56, mais o que é vendido em blocos para uso comum é o de 75.
  • Chamois é um papel mais moderno, bem branco, mas com baixa reflexão de luz. É o mais indicado para leitura, por descansar a vista e ser agradável ao olho. É muito usado para livros, impressos colecionáveis e obras de arte. A gramatura começa no 67.
  • Couché é um papel feito para ser mais resistente, usando pasta branqueada com um revestimento brilhante. É mais usado em revistas e em materiais especiais. Como tem qualidade muito variável, pode ser tão ruim quanto o de revistas periódicas quanto nobres como em um convite, um cartão de visitas, etc.
  • O papel usado para imprimir mangás (tankohon) no Japão é uma base de pasta de celulose prensada, como o papel jornal, sem tratamento. Eles chamam de Manga Shi ou Comic Shi (papel de quadrinhos). No entanto, é sabido que as grandes editoras, Kodansha e Shogakukan, talvez Shueisha, usam fórmulas de pasta exclusivas, feitas sob encomenda.

Ainda existem vários outros papéis e variantes destes papéis com algum processo ou tratamento diferente. Basicamente, estes são os papéis usados para imprimir grandes volumes como os de mangá e livros.

Sou muito fã de Zetman e Ultraman, dois mangás recentes da JBC, sendo que o último está na discussão recente sobre a qualidade material final. Eu, particularmente, não comprei Zetman pois tenho em japonês e só pretendia ter em português por valor de colecionador e a edição não me apetece. Ultraman comprei realmente para ver sua qualidade.

Mas vamos entrar no assunto de uma vez: O papel dos mangás está ficando transparente?

A resposta é evidente. Sim, estão. Os papéis que estão sendo testados em publicações mais recentes estão cada vez mais finos, com gramaturas baixas.

A gramatura é a relação de peso do papel por seu metro quadrado. Portanto, quanto menor a gramatura, mais poroso ou fino o papel é. Significa que, ou o papel está igual a um Sufflair, que parece um puta chocolatão, mas na verdade tá cheio de vento, ou está simplesmente mais fino. A diferença entre os dois processos é pequena, mas significativa. Pra fazer papel mais fino, você estica a pasta mais uma vez. Pra fazer um papel “aerado”, você precisa de um processo a mais na pasta, que encareceria o processo. Em geral, um papel com essas propriedades seria vendido como um papel mais nobre.

Então, se a ordem é corte de custos, qual o método de baixar a gramatura foi usado? (aliás, até onde eu sei, não existe método de deixar o papel mais aerado, mas existem papéis mais leves, sim.)

Peguei três mangás de grossuras parecidas (todos com menos de um centimetro de diferença): Ultraman, Tokyo Ghoul e Madoka Magica:DS.

Dos três, o único que eu pude encontrar a gramatura do papel é o de Madoka: 90 g/m². Tokyo Ghoul, por chute (pensando em padrão), deve ser 56. A diferença da gramatura no volume de papel é claro. Apesar de todos os três terem mais ou menos a mesma grossura, Madoka é um pouco mais fino, mas tem apenas 160 páginas.Tokyo Ghoul tem 224. Ultraman, com a mesma grossura do anterior, tem 240. O que me leva a acreditar em uma gramatura de 50, 45…

É pouca coisa, mas levando em conta a linha fina em que estamos mantendo orçamentos e tentando viabilizar publicações, cada passo para baixo deve ser feito com cautela.

Os problemas do mercado

Existem alguns tabus no mercado, quanto a alguns gêneros, como o terror mais hardcore (aqueles que em geral são com arte menos pop), super heróis japas, mechas  :( , shoujo, light novels, etc. Porque alguém já tentou antes e deu muito errado ou até porque nada indique algum interesse do público. Aos poucos, se tenta quebrar alguns paradigmas, às vezes com sucesso, outras, nem tanto. O importante é não quebrar de vez para poder continuar tentando.

A JBC arriscou alguns títulos, provavelmente para tentar criar novos nichos de venda, coisa visível na estratégia deles este ano. Mas não dá pra arriscar com esses materiais duvidosos. Todo cuidado é pouco e se preparar para tomar o menor tombo possível não é cautela, é sobrevivência.

O preço de capa de um mangá tem vários fatores embutidos, mas pode ser dividido em duas categorias claras.

  • Custos fixos. Os custos da editora, dos funcionários, dos freelancers (tradutor precisa comer), custo de licenciamento do título e custo unitário da gráfica (as gráficas geram o custo total e o custo por unidade no orçamento).
  • Custos flutuantes. São aqueles que usam como base o preço de capa, sob porcentagem. Distribuidora e revendedora comem aí de 50 a 65 porcento. Autor leva mais 10%, em média.

Pra fechar o valor de capa, você precisa calcular o preço fixo para poder calcular o preço flutuante. Se algum valor fixo subir, vira uma bola de neve nos preços flutuantes. Então, se o papel subir 10%, não é só esse valor (que daria alguns centavos por unidade) que sobe, mas o valor de toda a rede que recebe porcentagem. No final, os trocados que subiram no valor do papel viram dois ou três reais.

O encolhimento do mercado de impressos afetou muito as vendas nos últimos anos. Mas a crise do dólar trouxe outros patamares. Comprar a licença dos japoneses envolve duas transações (real/dólar e dólar/iene). O papel, em geral importado (nós fabricamos a pasta de celulose, mas importamos o papel… É…), teve diversos aumentos que não foram repassados nos últimos anos, mas a alta do dólar tornou as coisas impossíveis. Trocar por marcas nacionais, em geral de qualidade mais flutuante, passou a ser considerado. Comparar o valor de um mangá de hoje com um do começo do ano, por exemplo, já não é válido porque o cenário mudou, os custos mudaram.

A maior parte do público cai mais pelo valor final do que pela qualidade final (fato). Aumentar cinco reais seria proibitivo. Existe um limite imaginário flutuante de quanto um leitor está disposto a pagar por quadrinhos, independente de qualidade, quantidade, tudo mais… No momento, é de uns 20 reais. 15 se for algo que o leitor mesmo vai se arriscar. Qualquer editora vai pensar em manter essa meta.

Acima disso, seria pensar em focar em um público colecionador mais restrito, usando material de maior qualidade, mas por preços condizentes e com menores periodicidades. Isso já aconteceu no nosso mercado, e pessoalmente, não foi muito saudável.

O que fazer?

Então, voltando ao caso: hipotéticamente falando (eu não sei de nada dos fatos em questão), você tem um valor de capa como meta, um valor unitário alto, uma tiragem limitada e o fator de risco mais alto do que em um Fairy Tail ou Cavaleiros… E precisa achar um meio de viabilizar… As opções são mínimas.

Lançar edições baratas e mais acessíveis se torna necessário simplesmente porque mais caro que isso tira o acesso de muita gente. Mas ao mesmo tempo, precisa pensar em equilibrar com o perfil do leitor brasileiro, que em geral coleciona, não compra só para ler.

Voltar à era dos meio tankos eu acho que seria ainda pior, a tendência tem sido pegar coisas com menos volumes e acabar logo as coleções, e não aumentar elas e o tempo de venda. A escolha por títulos mais curtos é sinal, mas coisas como a edição dupla de Eden e a pesquisa da Nova Sampa sobre volumes duplos mostram isso.

“Então melhor não lançar”. Nunca. Como leitor, esse é o pior cenário. Arrisco dizer que é tão ruim quanto o cenário que leva editoras a cancelar títulos. Deixar de lançar para não lançar em formatos mais baratos é manter as trevas, deixar de conhecer o potencial de um título, de um nicho, de um interesse do público leitor.

Aí entra o papel da tabela de relação de preço. Tiragens maiores diluem melhor os custos fixos, tipo licença, produção, além de diminuir o custo unitário. Isso possibilita preços de capa menores em títulos com mais demanda. No caso de tiragens menores, o custo unitário de gráfica aumenta, então precisa reduzir no único lugar onde isso é possível neste caso. No material. O off-set é o papel que dá melhor custo benefício em gramaturas tão baixas, e por ser popular, já é barato por volume.

É claro que a qualidade cai mudando o material e isso elimina uma parte do público que pode se sentir lesada por isso. Mas a grande parte do público leitor não se incomoda ou até percebe, mas não vê problema nisso. O negócio é a empresa conseguir ver o limite em que isso começa a incomodar demais.

Para manter o papel com um nível de gramatura acima, provavelmente o preço de capa teria que subir. Mas como preço de capa é bola de neve, não é só repassar os custos de papel, mas recalcular tudo, aprovar valores (japas decidem se aceitam o preço, em alguns casos) e creio aí que pode colocar uns 5 reais a mais no preço. Complicado, é preciso muita magia negra e sacrifícios de virgens (não-otakus) para conseguir isso.

A resposta da JBC a este momento de mercado não é a mais simpática e você tem todo o direito de não gostar e até de deixar de comprar, mostrando sua indignação.Mas não duvide, quem mais está a coçar a cabeça são as editoras. Se o buraco é fundo, quem está com as galochas afundadas são elas.

Nos próximos meses, é capaz de muitas outras tentativas por todas as editoras apareçam, porque é momento de viabilizar um novo modelo de mercado pros mangás poderem continuar a serem publicados. Isso pode afastar alguns leitores, mas ainda é necessário. O importante é que nós possamos sair disso tudo para outra fase mais farta sem sequelas no mercado.

 

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