O mangá hoje é mais shoujo do que nunca

Yo!

Estavam com saudades? Não, é? Hmpf! E-eu também não, viu! Bora ver <3

Há alguns dias (muitos, eu sei. Demorei pra postar), Eiichiro Oda deu uma entrevista onde ele comentava novamente sobre sua postura de se manter shonen a todo custo. Vamos falar dela antes pra ilustrar.

Perguntado sobre o anime, Oda disse que se sentia abençoado por ter uma equipe de animação que entende o shonen e que não se rende ao “moe”. Ele diz “quero estar bem no meio do que se pode dizer mangá shonen” e completa: o mercado de mangás hoje em dia está se rendendo à opinião feminina.

Aqui fica a linha do “nem li nem lerei” que vai ser compartilhado no Facebook com um “Oda machista, não comprem One Piece misógino”, “tão falando mal de shojo de novo, malditas editoras brasileiras”, “o que é XIL?”. Obrigado à todos!

Agora, que tal a gente esmiuçar o que foi dito e conversar um pouco sobre o mangá ser shonen ou ser shoujo? Vem comigo!

Lendo direitinho a entrevista e principalmente, acessando entrevistas anteriores de Oda (não tem muitas, ele prefere fazer mangá do que falar sobre eles – o contrário de mim, procrastinador do caralho!!), você percebe que o principal na afirmação não é uma birra por uma suposta ascensão do gênero shoujo no mercado de mangás. Mas se volta à postura burra de editoras e produtoras de anime que se deitam preguiçosamente em pesquisas e fazem material para garotos, mas com um pouco de apelo para garotas e um fator de moe para os otakus. Tudo para maximizar as vendas e aumentar a receita.

É verdade que hoje, mais da metade do público de quadrinhos no Japão é de mulheres. Saber que a população japonesa também é em sua maioria de mulheres, como é em praticamente todo o mundo, é irrelevante, já que não importa o motivo, mas sim saber que o mercado é alimentado por uma grande quantidade de garotas que consomem não só revistas shoujo, mas principalmente revistas shonen.

A Shonen Jump tem uma parcela estimada de público feminino beirando os 70%. Em algum ponto, a revista foi se abrindo tanto para as garotas que hoje a publicação é a revista de mangás mais lida pelas mulheres, até em detrimento à revistas voltadas especificamente para elas. Não é difícil encontrar garotas que adoram Naruto, GIntama e tantos outros mangás da revista, mais ainda do que sucessos voltados para elas, como Ao Haru Ride e Chihayafuru.

A Shonen Jump tem uma parcela estimada de público feminino beirando os 70%.

Não só isso. O público feminino é mais participativo. Quando uma garota gosta de um mangá, ela manda carta aos autores. Ela faz fanclube, compra itens, coleciona bichinhos. A maior parte dos garotos sequer manda a enquete de popularidade! E olha que ela premia com um PS4 e outras coisas bacanas!! Talvez seja algo com a forma com a qual o cérebro lida com essas coisas, não sei, mas é certo de que garotas fazem mais barulho pelo que gostam do que os garotos.

Por isso, uma coisa que Oda aponta é que é muito fácil se deixar levar pelas cartas das fãs e mudar a história para agradar elas. Só que ele diz que prefere trair as garotas a trair a criança dentro dele, que diz que isso é divertido e aquilo não. O resultado é que as poucas cartas de garotos que ele recebe também não o traem: eles gostam de um golpe, acham legal um personagem… garotos sempre gostaram disso!

Como artista de uma revista SHONEN – ou seja, voltada para garotos – ele tem um compromisso, que é o de agradar os garotos que o leem. Não os trair por causa de popularidade ou para vender uma figure a mais. O papel da classificação, seja shonen, shoujo, seinen, yonen, é o de dizer “se você pertence à esta categoria, você vai possivelmente gostar desta história” e não o de dizer “se você não pertence à esta categoria, você deveria ler outra coisa. Vá pra casa lavar roupa, sua menininha!”. Não é uma catraca que bloqueia a passagem, mas uma garantia de que se você se encaixa nessa classificação, isso foi feito pensando em você.

Sempre que se muda sua história para se adaptar aos novos tempos, você trai um público que gostava de seu trabalho. Você trai, principalmente, o que VOCÊ era quando criou sua história e se torna escravo de tendências, escravo do momento.

Se você quer romance, você sempre vai poder ler em algum shoujo.

Na década de 70, um grande movimento mudou o mercado de mangás por causa do crescimento dos filhos do baby boom. Aqueles que antes alimentaram o mercado de mangás passaram a repudiar e achar ele infantil demais. O público cresceu e os mangás continuavam infantis. Para atender essa demanda, o mangá passou a tratar de temas mais pertinentes aos jovens adultos, com uma profusão de revistas seinen. E as revistas shonen, perdendo público, passaram a mudar seu foco, investindo na tendência – seinen, e principalmente, o Gekigá, que nascia como uma resposta adulta e contestadora ao mangá.

A Shonen Magazine, uma revista que, por definição editorial, se alinha às tendências do momento e entrega o que seu público quiser, logo mudou sua postura para se adaptar, mas a Shonen Sunday, que sempre carregou o lema de ser “a revista do domingo, o único dia de folga dos garotos” preferiu perder suas vendas mas não trair seus leitores. Até que a Shonen Jump surgiu como a revista que misturou o Gekigá com o mangá para garotos e fez séries divertidas e fantasiosas com um traço mais maduro e temas mais polêmicos. Era uma revista antenada com o momento e ao mesmo tempo, respeitosa com o “shonen” em seu título. Mas a areia correu na ampulheta.

Da mesma forma que o Gekigá e o mangá adulto desvirtuaram o mercado de mangá para garotos uma vez, o otakismo e a presença forte das mulheres têm mudado o shonen mangá de hoje, cada vez menos um lugar para fertilizar a imaginação para as seções de luta de espada e golpes especiais em cima da cama. E, não me entendam mal. As garotas são bem-vindas para entrar nesse clube do Bolinha. Mas só não vale mudar a decoração! Na Shonen Jump atual, vemos que, apesar de tentar se manter “shonen”, ela se rende em vários momentos, por vontade/necessidade do autor ou da editora, não importa. O que importa é que cada vez menos se faz mangás puramente “para garotos”.

Por isso, acredito eu que é louvável que Oda, o bastião que carrega as vendas e a popularidade do mangá, tome uma posição de ser fiel ao seu público original, à sua proposta inicial e principalmente, à sua vontade, independente de agradar ou não uma possível maioria que quer romance em One Piece. “Se você quer romance, você sempre vai poder ler em algum shoujo”, diz. Aqui não!

E você? O que acha? As mulheres realmente mudaram a forma como se faz mangá para garotos? Comente e discuta, faça a alegria do povo!

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É isso, pessoal! Aos poucos eu volto :)