Algumas questões sobre antologias

 

Yo!

É com enorme prazer que eu venho aqui dizer que a recepção da Ação Magazine tem sido das mais calorosas, com pessoas buscando saber mais do projeto e dando seu apoio. E pra essas pessoas, eu fiz um apanhado sobre antologias e sobre os formatos japoneses para você entender mais um pouco sobre a AM.

Em duas partes.

Antologias

A capa.

Pessoas que trabalham com design editorial devem entender a briga do designer com o editorial. O design preza por um visual claro, limpo, uma paleta de cores elegante… O editorial preza por sua vez um destaque maior. Cores fortes, um logo grande que possa ser visto à distancia, chamativas e mais chamativas. Cada um tem o seu motivo. O ideal é chegar a um consenso.

Shonen Jump hoje em diaA Banana Grove Studio é a empresa de design responsável pelo design da Shonen Jump e de boa parte do material da Shueisha, bem como de material da Viz, como a Shonen Jump americana, a Shojo Beat, Animerica, e coisas como a Shonen Gangan, Margaret, Newtype. Para as revistas de mangá, ela sempre espalha bem cores, tipos e desenhos, reforçando os pedidos do editorial de ter um apelo popular.

Na hora de desenvolver, é preciso medir a importância de aparecer ou se manter um visual claro e direto. Revistas voltadas à um público jovem podem ter um pouco mais de cores e informação, mas é bom sempre pesar se isso não está passando dos limites.

Revistas informativas de mangá e anime, como a Neo Tokyo, onde eu e o Lancaster escrevemos, e a finada Herói, que sempre foram bombardeadas por críticas quanto às suas capas e o excesso de material sobre essa ou aquela série, fazem o correto, pois seu público primário é o fan de anime que curte o que está em evidência. E atende seu público ocasional com matérias sobre séries obscuras e material que só chega no país por via ilegal.

 

O conteúdo.

O termo “magazine” remete diretamente aos mercadões, onde se acha de tudo. Foi usado em revistas primeiramente por Edward Cave, editor da Gentleman’s Magazine.

Shonen Magazine, com Mizuki ShigeruEditorialmente, seria o contrário de uma revista especializada, uma revista com conteúdos diversos, atendendo a um público mais amplo. A Shonen Magazine, que tem o termo em seu nome, tem em sua missão editorial exatamente atender todos os públicos do mangá (e no seu início, além do mangá, pois era uma revista de variedade para garotos), e desde seu início, nunca se focou em um tema de sucesso, sempre mantendo a linha de “revista com uma história pra cada gosto”, com gags, fantasia, detetives, esportivos, romances… Nesse ponto, a AM é mais próxima da visão editorial da Shonen Magazine do que da Shonen Jump.

Talvez nesse modelo de controle editorial você não leia tudo que sai na revista, por questão de gosto. Mas por outro lado, é uma oportunidade de apreciar os mais variados tipos de mangás e estar aberto para novas descobertas. Talvez um assunto que você não goste muito, abordado por um autor de que você desconhece, te surpreenda sendo muito mais interessante até do que um título que você já se sente seguro para ler. Por isso que a Magazine costuma agradar mais o público mais velho.

Sendo uma revista para massas, uma antologia de mangá precisa se preparar para um público maior em sua área de interesse. No Brasil, ler mangás no sentido oriental se tornou comum, mas ler no sentido oriental não é e talvez nunca seja um padrão nacional. O sentido de leitura deve seguir o de seu público primário, assim como sua abordagem, os assuntos, toda a linha editorial precisa ser focada primeiro em seus principais leitores dentro de sua filosofia. Os leitores ocasionais devem receber sua atenção, desde que não desvirtue a revista para seu público principal.

 

 

A distribuição

Distribuição eficaz e grande quantidadeLá no Japão, o sistema de distribuição é muito bom, dinâmico e com um sistema impecável, alimentado por vias de trem interestaduais e estradas bem cuidadas, em um país de proporções bem mais modestas. Revistas semanais chegam nas lojas em no máximo, dois dias. A Shonen Jump sai toda segunda feira, sem erro. Mas a distribuição mesmo começa no sábado, e alguns lugares, como pontos de estrada, vendem a revista antes do dia estipulado. Quando é feriado, a edição anterior tem o número dobrado, as chamadas “gappeigou”, no caso de revistas semanais.

Infelizmente, o Brasil é um país muito maior e precário em seus sistemas de transporte. Temos estradas mal cuidadas por todo lado, quase nenhuma malha de trem e toda a distribuição é feita por caminhões. Temos roubo de carga. Alguns setores do país simplesmente são distantes demais da matriz da distribuidora e levar de caminhão implica em vários contratempos. Mesmo em dias bons, caminhões demandam dias para chegar a algumas áreas.

E ai, vem a questão da distribuição setorizada. É sabido que a maior parte das revistas vende apenas no eixo Rio-São Paulo e nos Estados vizinhos. O custo de transportar um número reduzido de revistas para certas regiões é desmotivante.

Para atender esse público, existem alternativas, como assinar a revista, coisa que muitas vezes a editora não oferece. Outra é comprar via internet. Mas ainda é preciso repensar para chegar a soluções melhores para atender a comodidade dos leitores.

E uma coisa que muitos leitores ignora é o fato de que a única grande distribuidora atualmente é a Treelog, criada da fusão da Dinap com a Fernando Chinaglia, e pertencente à Editora Abril. Isso torna a editora responsável pela distribuição até mesmo de suas rivais.

Não é só. A Abril ainda tem na Associação de Editores, principal inimigo de um monopólio da distribuição, um empregado na presidência. E ligação dentro até do orgão antitruste que julgou o caso da Treelog. Gostaria de comentar o que isso significaria para as bancas de todo o país, mas isso seria expeculativo. Pergunte ao dono de sua banca favorita.

 

O custo

Uma revista custa caro pra ser feita, ainda mais uma de conteúdo exclusivo. Comprar licenças e arquivos digitais de produtos de outros países barateia muito, mas os acordos necessários para fazer uma antologia desse material seria um caos e ainda assim, não seriam garantias de venda. Todos sabemos que alguns grandes sucessos japoneses não fazem o mesmo aqui no Brasil.

Shonen Jump americanaContratar os artistas é um processo complicado, porque não é apenas o talento que você demanda, mas de um comportamento profissional e um padrão de qualidade.

Para exigir isso de um artista você precisa lhe garantir pelo menos o básico para ele viver em função disso. Os quadrinhos pagam pouco no país e ainda são um mercado instável, onde você pode ficar sem trabalho por meses. Isso acaba fazendo os autores não poderem se dedicar completamente, ou mesmo abandonarem a carreira para poderem ter um padrão de vida mais humano.

Ainda, para ter uma revista de qualidade, você precisa de uma equipe que cuide não só de questões editoriais, mas também de um administrativo, comercial e marketing competente para manter a revista no mercado, sem complicações. E isso é extremamente difícil de se ter, mesmo em grandes empresas.

Mas a situação engrossa mesmo nas etapas finais. O custo que chega ao leitor.

Infelizmente, no Brasil, o custo da distribuição é extremamente caro. Eles pedem em média 50% do preço de capa. Resta somente a metade para pagar tudo e dar algum lucro. Por isso, vendas em eventos ou de forma direta são sempre mais lucrativos para as editoras, que embolsam 50% a mais, podendo até dar descontos nessas ocasiões.

Medalhões de vendaEm uma revista que custe 10 reais, somente 5 são para pagar os artistas, custos de impressão e administrativos, mais os impostos. Publicar, no Brasil, não é fácil. Leve a isso o fato de que o mercado impresso encolheu nos últimos anos e que poucas são as revistas que alcançam 100 mil cópias vendidas hoje em dia. Nos quadrinhos, o número é ainda menor. Muito menor. Quadrinhos, dificilmente chega a 50 mil cópias, edições caras, para livraria, tem tiragens pífias, de até 5 mil cópias. Só fazer as contas.

No Brasil, o consumidor exige, com razão, um preço mais baixo, e as empresas rebolam para conseguir isso. Não existe como fugir dos impostos e da taxa de distribuição. Sobra fazer acordos com gráficas, cortar custos e, claro, diminuir o custo de produção, pagar menos ou não contratar artistas. E isso se torna o ciclo que mata o mercado interno de quadrinhos.

Então, entenda, uma revista barata precisa vender muito, e isso significa atender um público maior. Produtos de menor destaque precisam ser caros mesmo que somente pra pagar os seus custos.

 

Shojo Club, antiga antologia femininaAgora, pra explicar como o formato de antologias de quadrinhos se firmou no Japão, temos que ver como essas revistas se formaram lá.

Como em muitas partes do mundo, o mercado editorial japonês na metade do século passado, era feito basicamente de revistas de assuntos gerais para públicos específicos. As revistas falavam de esporte, moda, atualidade, tinham contos, tirinhas, etc.

Os quadrinhos eram parte desse conteúdo. Seu sucesso foi tomando revistas, como a Shonen Sunday e Shonen Magazine, nascidas como revistas de variedade para garotos. Naquela época, era impensável abrir espaço para concursos e novatos, somente artistas com alguma experiência ou indicação conseguia a vaga. Aos jovens, restava chorar uma chance, batendo a cara em portas de editoras. Já dentro, os artistas trabalhavam como escritores e jornalistas freelancers, vendendo conteúdo para as revistas, e as editoras também encomendavam material ocasionalmente.

Nihon Shonen, do inicio do século passadoDessa forma, muitos mangás clássicos foram criados não por vontade do autor, mas por pedido da editora. Por isso que os artistas do início das antologias faziam de tudo, de quadrinhos de esporte aos sempre populares quadrinhos de aventura. O oficio dos mangás era uma coisa nova e os poucos que sabiam fazer tinham que alimentar o mercado e produzir todo o material da demanda. Artistas como Osamu Tezuka faziam mais de cinco séries ao mesmo tempo, para revistas diferentes. Para atender a demanda, eles contratavam assistentes, que depois de treinados, eram muitas vezes indicados para os editores, criando o ciclo de renovação da classe profissional dos quadrinhos japoneses.

A seguir, um pouco da história das principais antologias japonesas.