Tudo passa, tudo sempre passará… até editoras!

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Aqui no Anikenkai não tem dia da mentira… mas no mundo editorial já teve muita editora enganando muita gente. Apareciam e desapareciam num  piscar de olhos deixando seus consumidores com vontade de “quero mais”. Conheça um pouco mais sobre como era o passado dos mangás no Brasil nessa nova Coluna do Fred.

JBC, Conrad, Panini… Todo mundo conhece essas editoras. Já estão no mercado faz um bom tempo, se consolidaram, decaíram  tiveram seus percalços e suas vitórias, sua época e até mesmo sua queda, no caso da Conrad, mas no fim, elas continuam aí, ainda que com vários problemas e aos trancos e barrancos. Algumas ainda estão por aí, mas não publicam títulos de apelo incontestável e preferem se focar no underground ou títulos menores, como Newpop (que atualmente até conseguiu um título de peso com K-on), Abril e editoras especializadas em livros, como a L&PM, Zarabatana, Novatec, etc.

Mas e as editoras que vieram, passaram e se foram? Tivemos vários casos, alguns bem emblemáticos, outros que não foram mais que um estalinho. O cemitério de editoras de mangá não é tão vasto, mas tem alguns moradores bem ilustres.

Editora PNC

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Essa aqui é um caso exemplar de editora que veio, lançou alguma coisa e sumiu. A editora PNC lançou em 2003 dois mangás sem nenhum alarde e com títulos que não tinham nada a ver com os originais. Combat era Pineapple Army e Bombshell era o mangá hentai Secret Plot (uma das alegrias dos fãs de hentai no começo da internet).

A edição era feita com papel off-set, leitura ocidental, onomatopeias traduzidas e tinha um tamanho grande de altura, maior que a dos mangás da época e um pouco maior que os atuais. Tinham menos de 100 páginas cada uma.

A editora PNC surgiu numa época onde a internet ainda não era tão consolidada e por isso não se tem muita notícia do que ela foi. Eu lembro que comprei Combat na banca, bastante animado pelo fato de ter sido o primeiro mangá do Naoki Urasawa lançado no Brasil, e ainda por ser algo tão desconhecido. Só muito tempo depois que veio Monster pela Conrad… Já Bombshell só comprei em um evento, só pra me decepcionar pelo fato de ser apenas uma edição em papel de Secret Plot, que era um mangá que eu nunca curti muito. Se ao menos tivessem lançado Slut Girl, que ainda era curtinho, heim…

No geral, eram bons mangás e por suas histórias serem fechadas, não tiveram problemas pelo fato de que nunca houve outra edição lançada pela PNC. Assim como ela surgiu, ela sumiu. Hoje em dia deve ser difícil achar e não vale a pena mesmo, mas naquele momento, foi um sopro de novidade, em meio a um mercado extremamente povoado por cartas marcadas.

Opera Graphica

manga-jam-as-justiceiras-aventura-comp-ed-opera-graphica_MLB-O-79356763_9387Gunnm (Editora Opera Graphica)

A Opera Graphica foi um caso diferente. Ela era uma editora que publicava alguns quadrinhos específicos, coisas mais relacionadas a gibis europeus, clássicos e underground, e, do nada, publicou dois mangás: Gunm e Jam, as justiceiras. Assim como no caso da PNC, somente uma edição foi publicada de ambas as séries e nada mais foi comentado sobre isso. Gunm, por ser um material de qualidade inquestionável, deixou muitos fãs ansiosos pela continuação… Que viria pelas mãos da JBC. Depois disso, foi descoberto que as edições da Opera foram licenciadas de forma pirata, fruto de uma figura que já foi muito famosa no meio: José Roberto Pereira, o JRP.

Isso justifica tudo, já que tanto Gunm quanto Jam eram bem baratos e tinham um formato pouco usado na época, com muitas páginas ao invés do meio tanko que dominava o mercado. Ambas as edições eram feitas com papel jornal e tamanho normal. Gunm eram as primeiras 260 páginas da série, enquanto Jam eram edições avulsas. Eu gostava muito de Jam, mas só vim a ler Gunm pela JBC mesmo, para minha sorte, que não tive que esperar (além do normal) para ter a conclusão da saga.

Depois dessa empreitada, a Opera voltou ao seu nicho e nunca mais se atreveu a tocar no ramo dos mangás. Já o JRP foi para…

Editora Escala

Mangá - Ozanari Dungeon

Até mesmo a escala, famosa por revistas de corte e costura, entrou no mundo dos mangás por algum momento. Ozanari Dungeon foi o único mangá lançado por eles, também com o selo  JRP Productions. Foram lançadas 4 edições da série e depois disso ela foi esquecida, assim como qualquer idéia de lançar um mangá pela editora. O mais inusitado era a propaganda “A série que deu origem ao vídeo e ao game”, sendo que os ovas da série nunca passaram aqui e nunca foram sequer famosos entre a comunidade fansubber em momento algum (e eu nem sei se já teve algum game da série, nunca nem ouvi falar).

A edição, ao contrário das da Opera, era em meio tanko. A capa tinha um papel muito frágil e o papel era jornal também, mas tinha uma boa impressão e não era caro, infelizmente a série era muito ruim e não valia sequer o preço.

A Escala também nunca mais tentou, agora, dizem que o JRP fez um serviço para…

Editora Mythos

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A Mythos é outra que sempre teve seu nicho. Publicava várias hqs da Marvel e DC que eram deixadas de lado pela Panini, assim como gibis italianos, os fumetti. No fins dos anos 90 isso a levou a publicar duas séries em mangá, Homem Aranha e X-men. Homem aranha era uma série muito interessante, já que em razão da Marvel temer que o público japonês não viesse a curtir o estilo americano de fazer quadrinhos, eles contrataram mangakás japoneses para difundir a marca no fim dos anos 70. Inclusive tinha desenhos do Ryoichi Ikegami em início de carreira. Eu, quando moleque, lembro que gostei demais. X-men era só uma versão mangá do desenho dos anos 90 e não tinha diferença alguma. No fim, nenhum desses mangás durou mais que duas edições. Só muitos anos depois a Mythos viria a publicar de novo séries japonesas com Superalmanaque mangá.

Assim como grande parte dos citados, Superalmanaque mangá se destacava no mercado pelo seu formato de coletânea. Foi o primeiro a usar aqui e até hoje não é muito comum. Assim como toda coletânea, tinha seus altos e baixos. A edição era papel jornal e formato usual… E se você está se perguntando, também só teve uma edição e sumiu. Dizem que o JRP teve envolvimento com essa edição, mas nada é concreto.

Tempos depois a Mythos lançou Dark Angel de Kya Asamiya. A edição foi um verdadeiro samba do crioulo doido, com mudança de formatos e preços constantes e demoras longas entre edições. No fim, aos trancos e barrancos, a série se completou e depois fizeram um encadernado contendo todas as edições como forma de reduzir o encalhe.

Dark Angel tinha capas muito legais, mas a impressão era péssima e o preço na época era bem caro, ainda mais pra um mangá com 60 a 70 páginas. A série em si é boa, mas termina sem fim, já que o Kya largou no meio e nunca voltou.

Por fim, a Mythos se envolveu em mais um mangá, a versão do Kya Asamiya de Batman. Lançaram duas mini-séries (que, assim como tudo da editora, depois foi encadernado em um pacotão pra reduzir o encalhe). Honestamente, não era a melhor história do homem-morcego, mas até valia a pena pra ver algo um pouco diferente das histórias de detetive, com algo focando mais na ficção científica e, o principal, com arte do Kya. Apesar de acho que ele não casou bem com o Batman não… A edição era em formato americano e papel jornal.

Depois disso, a Mythos também não se envolveu mais com mangás e o JRP, tendo relação ou não com algo aqui, nunca mais publicou nada relacionado a mangá.

Editora Savana

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A Savana é um caso diferente. Pra começar, enquanto grande parte dos casos acima ocorreram pra primeira parte dos anos 2000, a Savana entrou no mercado recentemente, com edições de alta qualidade, sobrecapa, papel off-set e boa impressão… A tradução não era das melhores, mas nada que não podia ser melhorado. A editora tinha até SAC para resolver problemas, infelizmente, foi mais uma editora que surgiu e não vingou. Os mangás lançados eram em edição única ou bem curtos, mas no fim, só uma edição de cada um foi lançada.

Pela Savana tivemos Toy Box (edição única), Aflame Inferno (manwha, seis edições) e unordinary life (2 edições). Eu só cheguei a ler Aflame, que era divertido e Unordinary, que era um dos piores mangás que já tive o desprazer de ler.

A Savana foi um caso triste, porque eu realmente gostava do método como eles lançaram e queria que tivessem sucesso para mostrar que sobrecapa e papel bom podiam ser padrão nos mangás lançados aqui. Infelizmente não era pra ser, sabe-se lá porquê.

Animangá

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Ok, esse deve ser o caso mais emblemático e famoso de todos merecia o fim do post. Um dos pilares iniciais do mercado de mangás, a Animangá lançou Ranma no fim dos anos 90 até o começo dos anos 2000. Hoje em dia, tem gente que nem sabe o que foi a Animangá, mas ela teve o momento onde se você pensava em mangá no Brasil, você pensava em Animangá.

Antes de ser editora, a Animangá era uma loja. Uma das maiores de São Paulo relacionada a mangás na época. Como não tinha internet, toda a informação sobre as séries vinham de revistas específicas como Animax e Anime-do, que tinham várias propagandas da Animangá, tanto para as bugigangas que vendiam quanto pelos mangás originais que tinham. Em meio a febre de Yuyu Hakusho e DBZ, eu mesmo fiz umas compras lá (era bem caro pra época). Com o crescimento da loja, eles decidiram tentar um filão pouco explorado no país no momento, que era lançar um mangá em português.

É importante lembrar que até esse momento, os únicos mangás que haviam sido lançados por essas bandas eram seinens como Lobo Solitário, Mai e Crying Freeman no começo dos anos 90. Era um investimento arriscado em um mercado onde não haviam jogadores, por outro lado, a Animangá também teria os fãs de anime só para ela.

E assim Ranma foi lançado. Lembro que eu sequer conhecia Ranma, mas comprei só pela experiência de ler um mangá em português e terminei gostando bastante e acompanhando. Era realmente algo novo na época, ao menos pra mim, que não tinha idade pra pegar os mangás lançados antes, mas que havia crescido com CDZ e outros animes. A edição era em formato de hq americano, com dois capítulos por edição, papel off-set, leitura ocidental e onomatopeias traduzidas, além de ser mensal. A qualidade do papel e a periodicidade variaram muito com a publicação, enquanto o resto continuou igual até o fim.

Ranma fez tanto sucesso que a editora até colocou uma enquete sobre que mangá eles deviam lançar em seguida (com exemplares de peso como Samurai X, Fushigi Yugi e outros). Realmente as coisas estavam indo bem, mas a entrada da Conrad com um formato mais acessível, periodicidade mensal e um planejamento mínimo demonstrou as deficiências que a Animangá tinha.

Por mais que a Animangá fizesse sucesso com Ranma, ela ainda era uma loja e não uma editora com uma infraestrutura suficiente pra competir com as editoras que viriam. Com o tempo, Ranma passou a fazer feio em meio a mangás quinzenais que a JBC e a Conrad lançavam e a periodicidade só ficava mais inconstante. Edições demoravam muitos meses pra sair e quando você tinha 200 páginas por mês, se contentar com cinquenta páginas a cada seis meses era risível. Por algum tempo isso continuou, até que Ranma parou de sair. A loja continuou por mais uns anos, mas fechou também e hoje não existe mais Animangá em nenhum tipo de forma.

A Animangá foi a primeira em apostar em um mangá shonen em um mercado ávido pelo produto, infelizmente, a falta de infraestrutura e poder econômico terminou por sucumbir o que antes fora uma ótima ideia  Hoje em dia, mesmo as editoras menores tem um aspecto melhor que a Animangá, que sobreviveu muito tempo editando um gibi quase que caseiro, com erros bizarros de português, propagandas estranhas e que saía quando saía.

Por um lado, a queda da editora foi boa, porque eles seguiam um modelo insustentável, por outro, eu fico triste como tudo ocorreu, porque se notava que a Animangá fazia o melhor produto possível mesmo tendo tantos percalços no caminho. De qualquer forma, o povo falou e ela caiu e não voltará mais, ainda assim, o ímpeto deles gerou um tiro que até hoje é sentido quando sai um mangá novo nas bancas.

Sobre Fred

I'm a very twisted person. Gosto de animes e mangás por boa parte da minha vida e comentar sobre isso é sempre um prazer... Desde que eu tenha algo útil pra falar. Afinal, Dirac já dizia: "Eu não começo uma frase sem saber como ela vai terminar". Sou também um quimicuzinho que sabe falar bobagem o suficiente pra parecer inteligente.

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