O passado e o presente dos animes

Desde a semana passada, quando tivemos a polêmica declaração de Hideaki Anno, não se fala em outra coisa a não ser o tal do “fim dos animes”. É tanta porcaria que vem sendo falado, não só pelo público geral mas como “gente grande”, que preciso postar algo sobre o assunto aqui no Anikenkai.

Quero focar, principalmente no fato de que muita gente insiste em dizer que hoje em dia só sai anime porcaria. É moe exagerado pra cá, fanservice exagerado pra lá, otakices exageradas e sem sentido pra aculá, e por aí vai. Dentre essa galera parece existir um consenso de que antigamente se fazia animes melhores do que hoje em dia.

Embora eu acredite que em números relativos a taxa de animes bons para animes ruins antigamente era maior do que hoje em dia, a coisa não é tão preto no branco assim. Afinal, antigamente também tínhamos muita porcaria sendo produzida, só que elas provavelmente não chegaram e nunca chegarão até nós.

O que acontece hoje em dia, e que de certa maneira justifica a maneira de pensar dessas pessoas, é que temos muito mais animes sendo produzidos a cada temporada e nós temos muito mais acesso a esse material, aumentando exponencialmente a chance de nos depararmos com produções que deixam a desejar.

Pensa comigo:

Antigamente, para assistirmos um anime, precisávamos esperar que ele chegasse na TV ou que algum fansubber dinossauro legendasse um VHS piratão pra gente. O que chegava na TV era o que fazia sucesso lá fora antes de fazer sucesso aqui. Dificilmente víamos coisas mais underground e desconhecidas. Elas passavam por vários filtros até chegar a nós.

Com os Fansubbers de VHS era a mesma coisa. Eles só traziam as coisas de maior sucesso e/ou que o subber gostava. Os filtros continuavam existindo. Desse modo, as chances de nós conhecermos coisas realmente ruins era bem pequena e, por incrível que pareça, elas ainda assim apareciam por aqui.

Hoje, como você bem deve saber, quase tudo que sai no Japão chega até nós. Chega por vias oficiais, como o Crunchyroll, ou por vias não-oficias, como os fansubbers. A missão de filtrar o conteúdo que assistimos saiu de terceiros e passou a nós mesmos. Isso é algo excelente, diga-se, mas que por causa disso acabamos passando por muita porcaria até achar alguma coisa realmente boa.

Alguns podem alegar que tem muita obra antiga sendo traduzida por fansubbers de hoje e que o acesso a material antigo também aumentou. Ok, concordo plenamente. No entanto, com tanta coisa nova para traduzir, quando um fansubber decide traduzir algum material antigo ele o faz porque gosta do material e ou acha que seu público vai gostar. Olha o filtro prévio aí de novo.

Ainda podemos dizer que, se temos interesse em algum material antigo e o temos disponível é porque ele, de alguma forma, sobreviveu à passagem do tempo. Se ele fosse uma completa porcaria, ninguém mais iria lembrar e ele morreria para o fandom na mesma época em que nasceu. Tal qual acaba acontecendo com muito anime porcaria recente,

Enfim, não nego que hoje em dia muita porcaria seja produzida, mas também temos coisas boas. Assim como nossos colegas japoneses lá das décadas de 70-80 tiveram que passar por muita porcaria na televisão para achar os grandes clássicos que consideramos hoje, nós, agora em nível global, temos que passar por muito anime porcaria para chegar aos que realmente valem a pena assistir.

E sabem o que é mais curioso? Que, embora existam e possamos avaliar obras em mais completas, mais bem trabalhadas, etc, no fim, o que vai determinar se algo vale ou não vale a pena ser assistido é um sentimento muito mais particular do que coletivo: nosso gosto.

De qualquer forma, eu adoraria saber o que vocês acham sobre esse assunto, então deixem suas opiniões aqui embaixo nos comentários ou me procurem no Twitter.

Sobre Diogo Prado

Tradutor, professor, host do Anikencast, apaixonado por quadrinhos, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

Desde a semana passada, quando tivemos a polêmica declaração de […]

20 thoughts on “O passado e o presente dos animes”

  1. Acho que ter animes o bastante para poder chamar de ruim já é uma grande conquista para o público otaku.E mais, tem gente que adora o moe e fan sercive e é natural que quando os autores perceberam isso eles tinham que colocar em suas obras já que trabalhar por amor não paga as costas.

  2. Acho que o que está prejudicando a industria de animação é justamente esse aumento na produção de animes enquanto as condições de trabalho dos animadores só pioram.

    1. Acho que isso é um dos pontos que o Anno destacou. Ele falou mais da indústria do que da qualidade dos animes em si. E destacou problemas da indústria japonesa. Muito da produção hoje parece estar sendo deslocada para outros países.

      1. na verdade, isso já esteve pior. lá por volta de 2007 era muito comum ver dezenas de animadores coreanos.

        1. Se você chama Evangelion de [email protected], é porque não entendeu a história, que é metalinguistica e crítica, ou seja, você tem de pensar para entender. E não, ele não é um NEET medíocre, e Evangelion não foi sua única obra de sucesso, e como um exemplo ele lançou Love & Pop que é muito interessante, crítico e bom e Naussica do Vale do Vento.

  3. Eu não acho que antigamente só se lançavam animes bons. Como voce mesmo disse, tem o fato de que não viamos todos os lançamentos de antigamente, mas tambem tem alguns fatos, como:
    -Querem comparar mais de 20 anos de lançamento(1980-2000) com uma temporada atual;
    -O fato de muitos animes antigos não serem necessariamente bons, pois as nossas pespectivas de agora se comparada com 10 anos atras são diferente.
    A respeito da industria de animes estar morrendo… Eu não sei bem como me posicionar.
    Muitas pessoas pensam que essa afirmação é com base no excesso de mais do mesmo, mas na minha opinião isso está mais ligado ao fato dos recentes fatos envolvendo os animadores e o baixo salario; alem do fato de ter poucas pessoas e empresas interessadas em desenvolver animações originais com carater mais profundos.

  4. Adorei o texto, disse tudo! A verdade é que a indústria do entretenimento não tem como sobreviver apenas de obras primas. Os chamados “animes porcaria” servem de treinamento para profissionais que algum dia, quem sabe, conseguirão fazer algo muito bom.

  5. Olha só de poder pegar meu PS3 e assistir Bleach,Punch line e Gintama na mesma hora,obivio que Bleach é o melhor , já me sinto muito satisfeito , os jovens gafanhotos que tem uns 11 ou 12 anos é que pensam”os animes vão morrer” “Os quadrinhos vão morrer” “Osgames vão morrer” isso meus amiguinhos se Chama faze ,existem boas e existem ruins, olhem os filmes de super herois, de demolidor e elecktra, fomos em menos de 8 anos há Vingadores e Guardiões da galaxia, de Steel e Mulher gato, Fomos há Cavaleiro das trevas e Man of steel , então calma jovens e esperem a faze passar, e Critiquem a porcaria e boicotem ,funciona, dc mudou radicalmente agora , esta fazendo comedias ,romances e misterios de verdade, quem sabe a marvel não escuta tambem, e quem sabe os japoneses não escutem tambem .

  6. É bem por aí mesmo. Acho que muitas pessoas interpretaram mal a estrevista do Anno.
    E tbm não tem como negar que essa analise do Omelete foi uma porcaria mesmo. Gosto do trabalho deles , mas animes e cultura pop japonesa não é a praia deles……

  7. Eu… meio que já cansei de comentar sobre esse assunto…

    Só digo que faltou um pouco de conhecimento de causa por parte daquele pessoal do Omelete, até porque o Japão, e logo tudo referente a ele, costuma ser um grande ponto fora da curva, e pra conseguir entender os fenômenos que vem de lá é preciso um aprofundamento que uma simples pesquisa no Google não consegue oferecer.

    Você tocou num ponto interessante que é essa falsa impressão de “antigamente era melhor”, o que acontece é que hoje temos acesso a toda produção e ao mesmo tempo em que é lançada, por isso é preciso atravessar uma verdadeira Shitstorn pra achar uma serie legal. Só que independente da mídia, a proporção de obras relevantes pras dispensáveis sempre vai ser cruel.

    No entanto querer comparar uma temporada com cinquenta anos de animação não é justo, descontando a subjetividade daquilo que se entende por “qualidade”. A verdade é que ninguém sabe ao certo o que está falando quanto ao passado e o presente dos animes, tão pouco ao futuro. Descontando quem estuda sobre o assunto, mas isso é outra historia.

    As pessoas que falam que o anime não é mais bom, não assistem anime. Pelo menos não assistem a tanto tempo.

    Pra mim (novamente baseado em conhecimento tirado do intestino grosso) o problema da industria é que eles ainda trabalham baseados num método que foi desenvolvido por alguém que já morreu a mais de vinte anos, e que ainda não levam em conta e ou não sabem trabalhar direito com o mercado externo.

    Referente ao que o Anno quis dizer, acho que foi: com a diminuição do numero de animadores, seja pelas condições ruins de trabalho ou pela terceirização no exterior dessa função, com o tempo o Japão vai acabar pendendo a capacidade de criar obras originais. Ou seja, por mais genial que o cara seja ele tem que começar de algum lugar, quanto menas pessoas querendo fazer animação menos talentos vão se desenvolver. Dai vai ficando cada vez mais difícil aparecer um novo Nausicaa, Neon Genesis Evangelion, Cowboy Bebop e Mahou Shoujo Madoka por exemplo. É claro que isso já é uma questão a médio e longo prazo.

    De qualquer jeito, tanto as novas tecnologias quanto a crise financeira japonesa (principalmente, até porque eles são quase completamente dependentes do mercado interno) estão batendo a porta, e não tem como fugir delas por muito mais tempo, então eventualmente as coisas vão começar a mudar. Ainda que seja impossível dizer o rumo que isso tudo vai levar.

    Enfim, resumindo toda essa ladainha, não acredito que o anime vai acabar, não acredito que o anime hoje é pior do que ele era no passado, e muito menos acredito que essa discussão toda seja realmente relevante. A gente não sabe como o negocio é de verdade nem pode prever o futuro e também não temos nenhuma influencia sobre, tudo o que podemos fazer é se divertir imaginando.

    Eu… meio que acabei fazendo um comentário enorme a respeito de novo… e ainda por cima pra repetir as mesmas bobagens… ah, não importa! Obrigado pelo convite à reflexão companheiro.

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