Coluna do Fred: Acabei de ler um dos melhores mangás da minha vida – Molester Man (Chikan Otoko)

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De vez em quando sempre entramos em contato com algo que percebemos ser especial, algo que se lê e pensa “Nossa, o que é isso que estou lendo/vendo?”, que te pega de tal forma que você não sabe como reagir além de se manter imerso naquilo até o inevitável fim.

Nesses dias, isso aconteceu comigo. Tudo que eu conseguia pensar relacionado a mangá era sobre Molester Man ou Chikan Otoko no original. Não se deixem enganar pelo nome, eu mesmo quase cometi esse erro pensando que era um mangá pervertido e só decidi ler por falta do que fazer. O material que temos aqui é extremamente bem feito, sincero e de alta qualidade, baseado em uma história real e quadrinizado pelo desenhista de Onani Master Kurosawa (o popular Fap Note) Yoko.

Mas não esperem algo como Onani, Molester Man é baseado em uma história real que foi relatada no 2channel, o popular canal japonês que gerou a história do primo mais famoso Densha Otoko. A história aqui não deixa de ter suas similaridades com a do Densha, notado inclusive pelos próprios personagens, mas também não deve nada a ela e consegue um lugar ao sol por si só. Vamos falar mais sobre o que é Molester Man.

A premissa básica da história é sobre um otaku (o que ele faria no 2channel afinal de contas, né?) que está andando na rua e vê uma garota nervosa com sua presença. Quanto mais ele se aproxima da menina, mais a deixa injuriada, o que acaba gerando uma cena com ela o acusando de ser um stalker no meio da rua. A situação acaba ficando cada vez pior e terminando em uma delegacia, para tristeza do jovem, mas tudo acaba se resolvendo. A menina então o chama para conversar e entender afinal o que se passou naquele dia e também pedir desculpas e explicar o porquê de tal reação, o que gera uma coisa nova para ele, que era praticamente um hikikomori e só saía para trabalhar e estudar. O mangá conta a história dos dois se conhecendo melhor e sobre o crescimento pessoal do personagem principal.

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A história é contada de forma mista, demonstrada tanto pelas ações dos personagens quanto pelos posts tanto do protagonista quanto pelos frequentadores do fórum onde toda a história foi contada. Por motivos de praxe, os personagens principais são todos referidos por pseudônimos. O personagem principal é chamado sempre de Chikan Otoko, ou pervertido, molestador. A menina com quem ele se encontrou é chamada de Senhorita Compreensão (por ela entender que ele não era um molestador) e suas amigas são Kansai (menina com um jeito de habitante de Kansai), Loli com peitos (menina com aspecto juvenil, mas peituda), Cara de óculos (preciso dizer por quê?), Chefe e Sachiko (a personagem mais apaixonante do mundo).

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A partir disso se tem uma noção da história. Um cara com uma vida completamente estagnada acaba entrando em outro mundo, conhecendo pessoas novas, novas amizades e tem que aprender a lidar com isso, tanto pro bem quanto pro mal. Transformar uma situação completamente surreal em algo que ele possa olhar e pensar que foi pro bem.

Okay, agora você está pensando “Isso é só um cara que quis copiar Densha Otoko inventando uma historinha com começo diferente”, quanto a isso eu só posso dizer que você não poderia estar mais enganado. Eu assisti o dorama de Densha Otoko, chorei, senti catarse, torci, vibrei, só faltei rodar a baiana… E no começo também pensei assim, só para quebrar minha cara. Hoje a minha opinião é de que Densha Otoko, apesar de ser muito, muito bom, não é algo como Chikan Otoko. Aqui as coisas que você vê acontecendo realmente parecem ser bem reais, tanto pro bem quanto pro mal. Não parece tudo estar sendo escrito com um script de forma a deixar tudo mais lindo e maravilhoso. Nem tudo dá certo, nem errado. As pessoas em molester man vivem, reagem, se desenvolvem, choram, riem. São pessoas que você olha e pensa “Eu já conheci alguém assim” ou “Eu me imagino fazendo isso”.

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E essa é a grande mística de Molester Man. É uma história que você não consegue prever o que os personagens vão fazer. Você ri com eles (principalmente com o Molester, que é um cara engraçado demais e cujos solilóquios mentais sobre o que fazer e sobre animes me deixaram com uma catarse danada), fica pensativo, torce, se emociona, fica puto… Se é uma história que o cara inventou, ele não devia postar no 2channel, devia estar fazendo mangás profissionais.

Quanto a narrativa do mangá, esse foi um dos primeiros trabalhos do Yoko e isso é visível no começo, em que o desenho ainda está muito cru, grosseiro e com uma enorme ausência de cenários (alguns quadros são só balões, inclusive), mas conforme a história segue, a qualidade geral aumenta significativamente, chegando a tal ponto que do meio ao fim, não há mais nada a reclamar tanto do esmero nos desenhos quanto na coesão dos mesmos.

A história de Molester Man apesar de ser nova pra mim é relativamente velha na terra do sol nascente. Ela data do fim de 2004 ao começo de 2005. Assim como os posts de Densha Otoko estão arquivados na internet para impedir que sumam, as centenas de posts relacionados ao Chikan Otoko também estão arquivados nesse site aqui: http://www.geocities.jp/chikan_otoko_2005/

O que é sempre um negócio legal pra se dar uma olhada e pra qualquer um que tiver uma curiosidade sobre o assunto. Tudo em japonês, obviamente, e o tradutor do google funciona terrivelmente nesse tipo de documento, mas dá até pra dar uma olhadela e ver de onde saiu a inspiração pro mangá e o que realmente foi tudo isso.

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A história do Molester Man no Japão fez tanto sucesso que além do mangá (lançado somente pela internet) acabou gerando um filme também. Infelizmente só há legendas em chinês para ele no momento, mas talvez com a história se tornando mais e mais famosa por essas bandas alguém se anime.

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Molester Man é um mangá que tem ser lido para se crer no que se tem em mãos. Posso ter dado informações muito superficiais sobre o que é aquilo, afinal, não quero estragar a diversão de nenhum leitor futuro, mas espero ter passado o porquê dele ser tão bom na minha opinião.

Há muito tempo eu não lia um mangá como esse, um mangá que eu realmente pudesse pensar “Por que ele fez isso?”, “Como assim?”. Na vida real, nunca temos muito controle sobre o que os outros vão fazer e isso as vezes deixa tudo muito mais interessante, as vezes tudo mais estressante… Ler um mangá que consegue passar isso de tal forma é algo que realmente me revigora. Desde REAL (de Takehiko Inoue) que eu não via algo assim, que eu sentia como se os personagens estivessem vivos e eu só estivesse vendo por um big brother o show da vida insana de um otaku aprendendo a viver.

Recomendo de todas as formas possíveis! Leiam! Leiam!

Sobre Fred

I'm a very twisted person. Gosto de animes e mangás por boa parte da minha vida e comentar sobre isso é sempre um prazer... Desde que eu tenha algo útil pra falar. Afinal, Dirac já dizia: "Eu não começo uma frase sem saber como ela vai terminar". Sou também um quimicuzinho que sabe falar bobagem o suficiente pra parecer inteligente.

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