Rurouni Kenshin: O Filme – Avaliando a adaptação de Samurai X

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Desde que foi confirmado, no meio de 2011, que Samurai X iria ganhar uma adaptação em live-action, eu não esperava a hora para assisti-lo. A estreia ocorreu em Agosto do ano passado lá no Japão e as críticas que se seguiram foram positivas o suficiente para me deixar com ainda mais vontade. Em meio a supostas possibilidades de lançamento do filme por aqui o blu-ray japonês saiu (em Dezembro) e eu não consegui esperar mais. Peguei o filme, botei na maior televisão aqui de casa, liguei o som no máximo, peguei a melhor poltrona que tinha, botei colada na tela e me preparei para curtir as pouco mais de 2 horas de filme que tinha pela frente. Será que o resultado final da adaptação do meu anime favorito foi, de fato, boa?

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A História

Período Bakumatsu, a guerra entre o Shogunato de Tokugawa e os revolucionários a favor do imperador Meiji. Nessa época, Kenshin Himura lutava ao lado dos revolucionários. A ele foi dado o título de Battousai, O Retalhador, por sua incrível habilidade com a espada. Ao final da guerra e a instauração da Era Meiji, Kenshin decidiu parar de matar e viver sua vida como um andarilho, desgastado por uma adolescência desperdiçada no campo de batalha. Dez anos depois, agora num Japão crescendo rapidamente rumo à modernidade, mais pacífico e ocidentalizado, Kenshin encontra com Kaoru Kamiya, cujo dojo estava sendo hostilizado após um assassino, que se denominava o próprio Battousai, decidiu dizer que tinha sido treinado lá. Ao mesmo tempo, Kanryuu Takeda, chefe de uma organização criminosa, tem planos para criar um novo império baseado na venda de ópio. Kenshin irá se ver no meio disso tudo, enquanto fantasmas de seu passado na Guerra começam a ressurgir.

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A Adaptação

Como fã que sou, não tenho como não perceber primeiramente como a adaptação da história do anime/mangá foi feita para a telona. Nesse quesito eu tenho um misto de sentimentos pois ao mesmo tempo que eu entendo haver a necessidade de se condensar a história para a nova mídia, certas decisões me incomodaram um pouco.

Os roteiristas pegaram basicamente três sagas do original e uniram em uma só. Até aí achei muito competente o trabalho e as conexões feitas para a junção. Colocar Jin-e como o falso Battousai foi bem acertado e criou o principal vilão do filme, inseri-lo como servo de Kiryuu também deu a ele um pouco mais de base ao invés de colocá-lo sozinho. Até aí tudo bem. Sua presença forte, no entanto, fez com que tivessem que retirar o Aoshi da história. Ele é que deveria ter seu grupo contratado como guarda-costas de Kanryuu. E a coisa só piorou com o acréscimo de um personagem que deveria ser o Han’nya com um pouco do visual do Aoshi, aquele mascarado. Acontece que o resultado final foi péssimo e resultou na pior luta do filme (comentarei mais abaixo).

Um outro aspecto que alguns consideraram como problemático, mas para mim não incomodaram, foi terem colocado certos personagens para mero coadjuvantes sem muita participação geral no filme. Seriam eles o Saitou, o Sanozuke e o Yahiko. Quanto ao Yahiko, é fácil de entender. O personagem tem um desenvolvimento lento na série e fica “atrás da cortina” por muito tempo até ter, de fato, um rumo dado a ele. Num filme, ele seu destaque seria quase nulo… e foi. Sanozuke está no filme simplesmente para agradar aos fãs. Colocar um flashback no filme para mostrar seu passado seria colocar mais informação num filme que já está transbordando dela. Ele acabou sendo só mais um valentão que quer testar suas habilidades enfrentando o Kenshin. Saitou é algo mais sério pra mim pois sempre foi meu personagem favorito no original e não há dúvida de que ele ficou sub-aproveitado nesse filme. Ele é o que tem maior participação dos três, mas devido à sua importância, deveria aparecer mais e, pelo menos, colaborar no plot do Jin-e, o que não acontece. Ele participa do plot do Kanryuu mas de forma bem superficial e servindo apenas como escada para o Kenshin. Uma pena.

No entanto, é válido entendermos que estes personagens estão nesse filme como fanservice, uma espécie de agrado aos fãs, que ficariam bem mais incomodado de não vê-los no filme do que vê-los da maneira como foram apresentados. E que fique claro também que o elenco fez um trabalho incrível mesmo tendo pouca participação. Destaque para o ator que faz o Kenshin, o cara convence nos momentos de inocência e nos momentos de porradaria intensa.

Detalhes a parte, o filme fez um excelente trabalho com um material tão delicado de se trabalhar e com uma base de fãs tão grande. Eu fiquei bem satisfeito como fã.

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O Roteiro

O filme é dividido em duas partes quase de mesma duração. A primeira é dedicada à apresentação dos personagens e da situação em que eles estão. A segunda é a resolução dessa situação. Roteiro simples mas bem eficiente, eu diria. Já vi gente que discordava, mas achei o roteiro bem fechadinho. Encerrou todos os plots. Mas não posso dizer que fez tudo de maneira 100% acertada.

Eu tenho um conhecimento considerável sobre a história do Japão e principalmente sobre o período retratado em Samurai X, desse modo certas coisas que para alguns passou como “mal-explicada”, para mim passou sem problemas. Tal qual as implicâncias das ações do Kanryuu, como ele representava o lado ruim do que aquela nova Era, tão dura para ser conquistada, trouxe. A falta de honra, de dignidade. O que importava agora era o dinheiro, independente de como se conseguia e para que o usava. Kanryuu é a síntese de tudo isso.

Talvez por eu compreender bem todas essas motivações, esse plot tenha sido bem tranquilo para eu absorver e, acredito, para o público-alvo do filme (os japoneses) também.

Sendo assim, o que me incomodou foi o plot do Jin-e. Adorei a ideia de terem colocado ele como o falso Battousai e sua “origem”, pegando a espada que Kenshin havia largado no campo de batalha, foi bem pensada. No entanto, sua resolução foi fraca. Me pareceu que os roteiristas desenvolveram o plot Kanryuu e quando viram tinham pouco tempo pra concluir o Jin-e, que, para mim, era muito mais importante.

Achei a luta final entre os dois sensacional, mas não posso dizer que fiquei satisfeito com seu desenvolvimento. Dava para haver muito mais questionamento à decisão do Kenshin de parar de matar, etc. Uma pena, mesmo, pois achei que tinha tudo para dar certo aqui.

Assim como a adaptação, esses detalhes não me incomodaram a ponto de condenar o filme. Achei inclusive que colocar a cena de como o Kenshin conseguiu a primeira cicatriz foi algo MUITO acertado, ainda que rápida, atendeu ao seu propósito de representar a catarse que o motivou a enfrentar Kanryuu. Para mim, no ponto do roteiro, o filme também faz bem, mas não é perfeito.

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As Cenas de Batalha

O meu maior medo nessa adaptação eram as lutas. No anime elas eram sensacionais e empolgantes, mas as animações permitem “liberdades” que podem ficar estranhas na mudança para a nova mídia. No entanto, o trabalho dos coreógrafos e do diretor em conduzir tais cenas foi primoroso. São, sem dúvida, a melhor parte do filme.

Para começar, ao mesmo tempo que você consegue acompanhar o que está acontecendo, você vê as habilidades do Kenshin (e dos outros personagens) se destacar. Dá pra ver quão rápido e certeiro ele é. Você fica vidrado no que está acontecendo e com adrenalina nas alturas. Sem dúvida um trabalho de mestre nesse quesito.

Não há problemas quanto à violência aqui. Ela existe… e muito. Tem muito sangue, perfuração, gente morrendo, etc. E é assim que tinha que ser se o filme queria passar alguma credibilidade.

Destaque para a luta no mano a mano na cozinha da mansão de Kanryuu, muito divertida. Destaque negativo para a luta de Kenshin e aquele protótipo de Han’nya (citado mais acima no post), luta forçada e inimigo ruim.

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Concluindo

Sim, Rurouni Kenshin tem suas falhas como adaptação e como filme, mas o resultado final funciona de maneira que eu não poderia esperar melhor. Achei sensacional como tudo foi feito e os defeitos foram compensados pelas várias qualidades. Como fã fiquei muito satisfeito e não vejo a hora de uma continuação sair. Uma bela homenagem a essa série tão querida por mim e por vários outros. Não há contra-indicações para esse filme. Assista e se divirta.

Sobre Diogo Prado

Tradutor, professor, host do Anikencast, apaixonado por quadrinhos, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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