Mangás e novas tendências: Super-heróis profissionais

Olá, leitores do Troca Equivalente! Sou eu aqui novamente! Antes de tudo, gostaria de agradecer aos leitores pelos feedbacks positivos. Confesso a minha surpresa com o tanto de pessoas que gostaram da matéria Renascendo e Virando OP.

Isso me deixou empolgado, pois para montar uma matéria daquelas, acabo gastando certo tempo escrevendo e pesquisando no meu tempo livre. Em função disso, tentarei trazer com maior frequência matérias desse naipe para os leitores.

Originalmente, eu lançaria em Janeiro como prometido, mas o texto ficou longo fugindo do planejado. Espero que compreendam meu atraso.

Dos quadrinhos para o cinema e das telonas para o papel

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Quero, antes de tudo, pedir licença para a equipe do blog, pois, para contextualizar o assunto, sairei do escopo de animes e mangás para escrever um pouco sobre HQs americanas, mas prometo que irá fazer sentido adiante no texto.

Para não causar confusão aos leitores, quero definir o tipo de super-herói a qual estou me referindo. Estou falando dos super-heróis com as seguintes características:

  • Fantasias cafonas e coloridas;
  • Roupas com collant;
  • Heróis vigilantes;
  • Uso de máscaras;
  • Identidades secretas;
  • Símbolos associados aos heróis;
  • etc

Em outras palavras, estou me referindo ao estilo do super-herói americano. Incluirei os tokusatsus nessa categoria também.

Embora existam muitos mangás com heróis, poucos realmente têm a temática de super-herói. Só estou fazendo essa distinção para que não apareça nos comentários exemplos como Dragon Ball, Naruto, Bleach e etc. Estou me referindo a um universo particular de heróis e estilo de quadrinhos.

Com isso esclarecido, vamos lá!

Creio que nenhum leitor, hoje em dia, negaria que estamos tendo um “boom” de filmes de super-heróis. De 2008 para 2015, tivemos várias séries e filmes lançados. É fácil perceber a influência dos quadrinhos e dos jogos no cinema.

Agora existe outra questão:  será que o contrário também acontece?

Com tantos filmes, fica difícil de acreditar que a moda de super-heróis não tenha influenciado os quadrinhos. Talvez a obra ilustrativa desse fenômeno seja Kick-Ass, ao mostrar um adolescente querendo ser um super-herói na vida real. Não costumo acompanhar HQs com frequência, então não sei se surgiram outras obras nesse estilo. Se alguém conhecer outros quadrinhos desse tipo, dê um toque nos comentários.

img2(Kick-ass é uma obra interessante, mas lembre-se, o Troca ainda é um blog de animes e mangás)

E os mangás e animes?

Óbvio que os japoneses não poderiam ficar de fora. Ainda mais quando eles têm seus próprios super-heróis. Tivemos o lançamento de Ultraman que chegou ao Brasil pela editora JBC. Fiquei impressionado com a repaginada dada a um super-herói das antigas.

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(Ultraman robótico)

Tivemos também obras originais como Hero Mask e Lady Justice. São obras bem peculiares em minha opinião. Ambas ocorrem em ambiente escolar e tratam do assunto super-herói de um modo bem humano. As duas obras, similarmente, possuem um personagem sem poder que ajuda o super-herói e assim vai indo a narrativa.

A história, em Hero Mask, tem como o protagonista o estudante Shibuya, que certo dia, depara-se com uma máscara. O item concede uma força extraordinária ao usuário, mas o protagonista está longe de ser um super-herói corajoso – muito embora goste de super-heróis no fundo. Por trapalhadas e desventuras, ele acaba em um clube escolar de super-heróis em que a presidente do clube sai mascarada enfrentando arruaceiros e criminosos.

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(Hero Mask, na esquerda Shibuya e na direita a presidente do clube)

Já Lady Justice fala sobre o estudante Maruji Enta que descobre a identidade secreta da heroína Lady Justice. A super-heroína não é nada menos do que a colega de classe dele. Por causa disso, ele passa a ajudá-la como se uma fosse uma espécie de gerente.

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(Lady Justice em seu traje de super-herói)

As duas obras são bem simples e não acho que acrescentam muito ao universo dos mangás em termos de roteiro.

Em termos de animação, tivemos alguns exemplos como Samurai Flamenco e Yoru no Yatterman.

Samurai Flamenco lembra bastante Kick-Ass. A história fala sobre Hazama, que sonha em ser um super-herói, enquanto sua gerente força-o a cair na real e a levar com maior seriedade o trabalho de modelo. Por causa desse sonho, ele sai fantasiado combatendo o crime. O anime é bem interessante, mas, diferente de Kick-Ass, não chega a ter uma história coesa. A animação faz muitas homenagens aos tokusatsus e sentais no geral, o que é um ponto positivo para a série.

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(As fantasias de Hazama ao decorrer da trama)

Em Yoru no Yatterman, temos a história da garotinha Leopard, descendente da Doronjo, uma antiga líder de uma organização do mal. Essa organização, chamada Doronbo, é inimiga de longa data dos Yatterman. Os Yatterman são os heróis desse mundo, mas por algum motivo se corromperam no poder e oprimem as pessoas. Leopard, depois de perder sua mãe por egoísmo dos Yatterman, desconfia que a história esteja mal contada. Então ela sai em uma jornada buscando justiça e a verdade por trás dos Yatterman, enquanto vai descobrindo a origem dos Doronbo.

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(Leopard e sua gangue do mal)

Os leitores mais velhos perceberão que esse anime é uma homenagem ao antigo desenho dos Yatterman. Essa animação foi feita para comemorar o 40º aniversário da série Time Bokan feita pelo estúdio Tatsunoko. Vocês notarão várias referências de séries antigas feitas pelo estúdio, como o carro Mach 5 da série Speed Racer vista em um dos episódios.

Percebe-se que: de um lado, temos animes que homenageiam os super-heróis japoneses; no meio do caminho, alguns que sofreram alguma reforma para ficarem atuais; e, do outro, o lançamento de obras originais.

Embora várias obras de super-heróis tenham surgido nos últimos tempos, quase nenhuma delas foi muito expressiva em termos de conteúdo ou apresentam uma trama mais elaborada.

Eu nunca achei que os japoneses soubessem criar histórias com super-heróis, com exceção talvez de Zetman e outros “gatos pingados”, mas, de uns tempos pra cá, surgiram obras muito interessantes e bem sólidas.

E é sobre essas obras que eu quero falar a seguir. Mas antes, vamos falar de quadrinhos americanos.

Os super-heróis devem ser registrados ou não? Eis a questão!

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Eu tiro o chapéu para os roteiristas de HQs americanas. Não é fácil criar novas histórias, ainda mais, quando você deve trabalhar com o mesmo personagem várias vezes. Basta ver as obras de Dragon Ball Super/GT e Cavaleiros do Zodíaco Omega/Soul of Gold. Embora algumas pessoas tenham gostado, é notório o enredo fraco em relação às temporadas anteriores. Não foi nenhuma surpresa ao ver muitos fãs de longa data chiando. Isso apenas mostra o cuidado que devemos ter ao dar um reboot numa série ou quando criamos uma continuação. Talvez o único salvo nessa onda de reboots e continuações foi Digimon Tri.

Como todos sabem, em Abril desse ano, teremos o filme da Guerra Civil do Capitão América. O longa mostra o conflito entre super-heróis que apoiam o registro e os que condenam. É uma história bem interessante, pois isso vai de encontro a tudo que representa um super-herói americano. Expor a identidade secreta de todos os super-heróis não é uma coisa que se vê todo dia, ainda mais quando o próprio governo apoia isso.

Pessoalmente, acho genial esse tipo de trama. Essa narrativa com vários personagens de histórias diferentes é de causar inveja em qualquer pessoa que prefira mangás ao invés quadrinhos americanos. É difícil encontrar uma obra japonesa juntando vários personagens de histórias diferentes de maneira coesa.

Enfim, onde eu quero chegar?

Bom, roteiristas de HQs sempre souberam criar dilemas para super-heróis. Note, por exemplo, o Homem Aranha, que tem dificuldades para cuidar da vida pessoal e para ser um super-herói ao mesmo tempo simultaneamente. Os X-Men também possuem o mesmo problema. Eles ajudam as pessoas ao mesmo tempo em que a sociedade condena os mutantes. O uso do impasse sempre foi bem explorado nos quadrinhos de super-heróis que fica difícil de imaginar o que aconteceria com super-heróis registrados.

Esse arquétipo de super-herói é tão forte entre os roteiristas, que sair desse modelo causa certo desconforto. Só que os quadrinhos asiáticos começaram a dar pistas de como seria o contrário.

Como isso em mente, podemos fazer uma série de questões.

Faria sentido a existência de super-heróis se fosse aprovado o registro?

Os super-heróis seriam registrados como qualquer outra profissão?

Será que a sociedade aceitaria os mutantes se fossem catalogados?

Os super-heróis virariam uma força tarefa policial como qualquer outra?

A iniciativa privada iria atuar com super-heróis?

Talvez a resposta mais próxima disso esteja nos quadrinhos do Watchmen. Quem assistiu ao filme, notou a existência de super-heróis trabalhando para o governo, como o Comediante e outros como o Rorschach operando à margem da lei. Temos como resultado uma obra sombria e adulta.

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(Comediante que trabalha para o Governo e Rorschach à margem da lei)

Eu não conheço outras obras que exploram esse tema nas HQs. Aliás, o leitor que conhecer pode me recomendar nos comentários.

Nos últimos tempos, notei que algumas obras da Ásia acabam respondendo as perguntas acima. Talvez você já tenha visto alguma delas. Quem viu One Punch Man ou Tiger and Bunny vai entender do que estou falando. Em ambas as obras, temos super-heróis registrados e sociedades convivendo com atos heroicos como se fossem uma atividade profissional do dia a dia.

O tema está tão na moda que teremos outro anime sobre o mesmo assunto nesse ano. Não sabe qual? Estou falando de Boku no Hero Academia que irá lançar em Abril com Guerra Civil. Vou colocar os PVs abaixo.

O leitor pode estar achando repentino o aparecimento dessas obras, mas quero mostrar que não é bem assim. Já havia uma tendência para se explorar esse tema e quero trazer algumas obras que foram pavimentando esse caminho. Isso não chega a ser exclusividade dos japoneses, pois encontrei em alguns coreanos também.

Vou colocar algumas obras abaixo e falar um pouco sobre elas.

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Todas as obras mostradas no quadro acima apresentam super-heróis como uma profissão qualquer, no entanto, isso não ajuda a ilustrar a riqueza dessas obras. Aqui mostrarei semelhanças e algumas diferenças entre elas. One Punch Man, Tiger and Bunny e Boku no Hero Academia são os animes/mangás que não vou entrar em muitos detalhes. Não tenho nada contra eles, mas a maioria dos blogs já comentou muito o assunto e boa parte da galera otaku já assistiu. Comentarei sobre outros menos conhecidos.

Ratman é a obra mais antiga que eu conheço desse gênero, mas, diferente das demais, o protagonista não é um herói no universo da obra. Nela temos Shuto Katsuragi, um garoto que sonha ser super-herói igual ao seu ídolo, o Shiningman, mas, por ironia do destino, acaba sendo recrutado, de um modo até bastante cômico, por uma organização do mal chamado Jackal. Por causa disso, Shuto acaba virando um super-vilão conhecido como Ratman. A história é bem engraçada, pois Ratman acaba sendo mal interpretado muitas vezes enquanto tenta ajudar as pessoas. Frequentemente, ele acaba entrando em confusão com super-heróis.

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(Combatentes Jacky, afinal uma organização do mal precisa de capangas)

Eu não sei da existência de mangás ou manhwas mais antigos do que Ratman, mas ela já traz os principais elementos observados em obras como One-Punch Man e Tiger and Bunny. Por exemplo, em Ratman temos o sistema de ranking de heróis. Quem chegou a assistir esses animes deve lembrar-se da classe S de heróis especiais de One Punch Man ou as pontuações da Hero TV em Tiger and Bunny.

img12 (Ratman, herói ou vilão?)

Sidekicks é a obra mais peculiar desse gênero. A história foca nos parceiros de heróis como o próprio título já diz. Antes de virar super-herói, os aspirantes dessa profissão devem passar por uma espécie de estágio em parceria com heróis já consolidados. As relações de trabalho costumam ser abusivas nesse manhwa. Como o sucesso profissional depende muito da aprovação do herói veterano, os parceiros acabam virando quase escravos e fazem tarefas que não são correlatas ao heroísmo só para agrado dos chefes.

img13 (Dream Girl é obrigada a fazer as tarefas domésticas de Dark Slug)

Antes de virarem parceiros, existe até uma faculdade para heróis em Sidekicks. Isso lembra bastante a escola de heróis em Boku no Hero Academia ou a Hero Academy de Tiger and Bunny.

No universo de Hero. Co. LTD, temos pessoas que podem nascer com superpoderes, assim como os NEXT de Tiger and Bunny. Mas um ponto de diferença é que a sociedade não aceita bem pessoas com superpoderes que não sejam heróis. Isso lembra bastante os X-Men. Até o protagonista tem poderes de magnetismo como o Magneto.

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(Mutantes e heróis não sem bem vistos pela sociedade)

Associação de heróis e organizações

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Em um mundo de super-heróis profissionais e em que o ato de salvar pessoas não seja diferente de um ganha-pão, nada mais justo do que o surgimento de associações para regular essa atividade econômica.

Esta é uma característica bem comum e aparece em todas as obras mencionadas acima. As associações surgem em diferentes níveis nos mangás e apresentam diferentes patamares de importância para a condução da narrativa. Algumas obras não mostram associações, mas chegam a ter escolas ou até mesmo faculdade de super-heróis. Então, acho que não seria justo deixar de comentar isso.

A associação mais marcante talvez esteja em One Punch Man. Ela acaba tendo um papel maior do que uma entidade regulatória. Existem várias atividades realizadas por ela além de registrar e classificar heróis, como avisar de perigos que afetam sociedade e também alocar heróis adequados para cada tipo desastre que assola a sociedade. A importância do grupo é tão grande que, após a destruição da cidade, uma das cenas é a novo prédio da associação reconstruída.

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(A nova cara da associação de heróis depois da invasão alien)

Outra associação de heróis em destaque está em Sidekicks. Além de um comitê que fiscaliza as atividades de heroísmo, temos a Under Corps, composta por ex-candidatos a super-heróis que falharam em se tornar um. Essa organização aparece, constantemente, dando apoio tático aos heróis.

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(Under Corps lembra muito um exército)

Organizações e grupos aparecem em todas as obras. São muitas que até recomendaria ao leitor dar uma conferida nelas. Eu poderia ficar descrevendo todas, mas não acho que lançaria esse texto tão cedo.

Luzes, holofotes e fama!

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Sendo o heroísmo uma atividade econômica qualquer, não poderiam faltar os patrocinadores. Talvez isso seja um dos aspectos melhor explorados nessas obras. Existem diversas formas e vou comentar um pouco de cada uma.

Em Hero Co. LTD. não fica claro se temos a existência de várias empresas. A série, pelo que aparenta, denota ter apenas uma que presta todo o serviço. O ponto é que chega a ser pitoresca a forma como é apresentada a atividade. Super-heróis carregam uma espécie de maquininha para cartões de crédito e saem pela rua procurando serviço. As atividades não se resumem a combater o crime apenas, já que em algumas cenas temos o protagonista salvando gatinhos da árvore ou ajudando a empurrar carros.

img20 (Super-herói ao resgate pela quantia certa)

Não poderíamos nos esquecer das propagandas que aparecem nas roupas. Afinal, propaganda é a alma do negócio! Em alguns mangás, elas aparecem com um grau de importância bem alto e, em outros, nem tanto.

img21 (Propagandas nas roupas em Hero. Co. LTD)

Em Sidekicks, não é permitido propagandas nas roupas de super-heróis, mas isso não impediu o chefe da Dream Girl de colocar uma na fantasia dela. Isso foi uma represália por ela ter detonado o carro dele durante o confronto com um vilão. Relações abusivas entre empregador e empregado são bem comuns nessa obra. A busca pelo estrelato chega a ser tão extrema nesse manhwa que chegamos a questionar se eles ainda podem ser considerados heróis. Heróis veteranos costumam ser demasiadamente arrogantes e chegam até a discutir entre eles para ver quem vai pegar o criminoso.

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(Dream Girl é forçada a colocar propaganda na roupa para pagar os consertos do carro)

Ratman, assim como Tiger and Bunny possui empresas patrocinadoras de super-heróis. Só que um ponto de diferença é não precisar ser uma empresa de grande porte. Microempresas e até negócios familiares acabam criando heróis para a promoção estabelecimentos comerciais. Destaco o Fatman, que é dono de uma pizzaria chamada Pizza Fat.

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(Anzu, irmã de Fatman, trabalha na pizzaria para ajudar os negócios da família)

Mas com certeza o campeão de propagandas é o Tiger and Bunny. A série conseguiu levar isso para outro patamar. Todas as logomarcas que aparecem no anime são empresas de verdade, como Bandai, SoftBank e etc.

Só que eu gostaria de destacar o caso da Blue Rose que, no anime, ela é uma super-heroína e cantora ao mesmo tempo. Antes dos intervalos comerciais, ela aparece fazendo propaganda do Pepsi NEX.

Para quem não sabe, Pepsi NEX foi um refrigerante sem açúcar tipo a Coca Cola Zero. Foi lançado no Japão e na Coreia do Sul. A cena em questão se trata de uma paródia de vários cantores que fizeram propaganda para esse refrigerante.

O simbolismo do super-herói

Dificilmente uma história de super-heróis sobreviveria, hoje em dia, se fosse falar sobre a luta entre o bem e o mal. Os leitores jovens estão mais antenados do que antigamente. Então, como esse tipo de obra sobrevive?

A resposta é bem simples. O que torna esse tipo de obra atual são os conflitos de ideais nesse tipo de quadrinho. Ao invés de ficar conceituando e explicando em várias palavras, vou colocar dois exemplos abaixo encontrados em HQs.

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(Divergências de opiniões sempre foram exploradas nas HQs)

O trecho acima é um diálogo sobre pena de morte entre Superman e Mulher Maravilha. Note que o Superman representa um conjunto de valores como julgamento justo, confiança e presunção da inocência. Por outro lado, a Mulher Maravilha acaba sendo mais pragmática ao lidar com inimigos, pois é mediante o uso do laço da verdade que consegue arrancar uma confissão. Percebemos que ambos são super-heróis, mas que existe uma linha tênue entre justiça e valores. Esse tipo de diálogo acaba sendo rico nas histórias de HQs. Você, meu caro leitor, provavelmente já teve alguma discussão parecida com algum amigo ou parente sobre esse assunto.

Agora, olhem esse exemplo abaixo.

Eu vou explicar o vídeo, pois não sei se todos os leitores conseguem ouvir bem em inglês e alguns leitores não acompanham quadrinhos americanos. Para quem não sabe, o cara de vermelho é o Capitão Marvel. Diferentemente dos outros heróis, ele não é um adulto, mas sim uma criança que vira um quando repete a palavra “Shazam”. A cena em questão discute se o Capitão Marvel deveria ser ainda um membro da Liga da Justiça. Como o fato de ser criança foi omitido, os outros membros questionam a maturidade do herói. Batman é o único que sabia da verdade, por isso o defende. Mas logo em seguida a Mulher Maravilha questiona o julgamento do Batman sabendo que ele deixou uma criança virar o Robin.

Os dois exemplos são amostras do que encontramos nas histórias de super-heróis. Veja que a união dos protagonistas é frágil e que, ao mesmo tempo, revela um conflito de ideais no que eles representam muitas vezes. Esse é um belo exemplo de como roteiristas usam a própria construção do personagem para narrativa.

Aonde eu quero chegar com isso?

Sinceramente, não estava esperando esse nível de detalhamento nos mangás e manhwas que encontrei. Tinha um risco muito grande das histórias irem para o lado da comédia ao invés de narrarem uma trama mais profunda. Já vi isso acontecer várias vezes em filmes. Fico feliz que tenha me enganado.

Enfim, boas obras acabam explorando, de um modo geral, as divergências sobre o significado de ser um herói. E é sobre esse ponto que vou comentar agora de como os mangás têm abordado.

Tiger and Bunny, em minha opinião, tem de longe os melhores diálogos que mostram esse conflito de ideais. O anime traz, constantemente, a divergência entre Kotetsu e Barnaby. Kotetsu, por ser um herói da velha guarda, ainda acredita na importância de detalhes como identidade secreta e certos valores para super-heróis, enquanto Barnaby, no primeiro episódio, chega revelando a própria identidade ao vivo na televisão. Mas veja que não se resume a apenas isso, pois em vários momentos Kotetsu age sem pensar ao priorizar as pessoas, mas Barnaby acaba sendo calculista para subir de pontuação nos ranking da Hero TV.

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Esse diálogo é muito simbólico, pois mostra a dissociação em relação às práticas antigas por parte de Barnaby. É como se dissesse que o velho heroísmo não funciona nos dias de hoje. Embora sejam parceiros de trabalho no anime, os dois divergem na metodologia, o que dificulta a confiança de um no outro. Uma das coisas bem feitas na trama é a confiança que vai sendo construída aos poucos entre os dois por meio de situações conflitantes.

Agora outra cena.

One Punch Man foi um anime muito comentado por suas cenas incríveis de ação, mas a minha cena favorita não é de luta. Vou colocar abaixo para vocês darem uma checada.

Gosto dessa cena por inúmeras razões. Ela mostra que o significado do heroísmo morreu numa sociedade que trata isso como uma mera profissão. O sacrifício dos heróis não tem valor nenhum. Nada mais do que uma obrigação para a população. Saitama, apesar de ter derrotado o vilão, prefere assumir a fama de trapaceiro para que as pessoas não desmereçam outros heróis. Essa é uma bela cena, pois mostra o grande sacrifício que ele fez por outros. Saitama não salvou apenas as pessoas, como também salvou o significado de ser um super-herói.

Nem sempre as pessoas acabam percebendo os heróis ao seu redor e é isso que torna gratificante a leitura.

Boku No Hero Academia não é o meu mangá favorito do mesmo autor. Também não acho que ele tem a história bem trabalhada, mas ele tem cenas muito boas. Uma das melhores cenas é quando Midoriya sai correndo para salvar Bakugou, colega de classe, das mãos de um vilão que o fez de refém. A cena não teria destaque se não fosse o fato dele não ter superpoderes e ter uma multidão de super-heróis ao redor que não fizeram nada. A cena mostra como heroísmo não é uma questão de ter superpoderes, mas sim de atitude.

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(Midoriya não hesita em ir salvar o colega de classe)

Eu poderia ficar escrevendo sobre várias cenas assim nos outros mangás, mas acho que nunca terminaria o meu texto. Vou deixar para vocês lerem o resto! ^_^

Outras obras interessantes

Nessa parte, pretendo comentar outras obras que não seguem os moldes comentados no texto. Elas também entram no contexto de super-heróis comerciais, mas por serem bem singulares resolvi dar uma atenção separada para elas. Não vou entrar em muitos detalhes nelas e só vou mencionar para vocês darem uma conferida depois.

SHADOW – SUPER HUMAN ASSISTANCE DEPARTMENT OFFICE WORKER é um manhwa que me chamou atenção, não só pelo título mega gigante como também pela abordagem da história. Embora a trama envolva pessoas com superpoderes, os protagonistas não são heróis exatamente.

A narrativa gira em torno de um escritório composto por pessoas que reconstroem as cidades destruídas nos confrontos entre heróis e vilões. Os personagens agem nas sombras e usam seus poderes para consertar coisas e até apagar memórias caso necessários. Nesse aspecto me lembrou do pessoal da MIB com o raio neuralizador. A obra não chega a ser original, pois lembra o Damage Control da Marvel.

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(SHADOW é interessante, pois nem todo superpoder é para combate o crime)

Agora se você está cansado de empresas criando super-heróis, temos Hero Waltz para os nossos leitores. Não temos empresas patrocinando heróis, mas dessa vez temos governos realizando experiências genéticas para criar pessoas com poderes extraordinários.

Super-heróis são a nova arma de países e a Coreia do Sul também está se envolvendo nessa corrida armamentista. Tae Sung é um herói artificial que tenta esconder esse fato ao mesmo tempo em que busca levar uma vida escolar normal.

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(Hero Waltz lembra muito mais um romance)

A vida de um super-herói não é fácil. Imagine então administrar vários deles. É com essa proposta que temos Chaos Atack. DoAh Lee acaba sendo chantageado para virar um gerente de um time de heróis preguiçosos conhecidos como Chaos Men. Dividindo a vida escolar com o trabalho, Lee acaba virando quase uma babá desse grupo de arruaceiros.

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(Chaos Attack tem heróis que lembram mais um grupo de k-pop)

Considerações Finais

Temos um universo bastante amplo para a temática de super-heróis como devem ter notado. Existe muito espaço para a criação de novas histórias e acho que estamos na ponta do iceberg dos fatos que virão.

Até quando isso vai durar?

Isso é difícil de dizer, pois da mesma maneira que filmes de super-heróis ainda estão surgindo, creio que a indústria de quadrinhos asiática vai trazer mais mangás, manhwas e etc.

Só para constar aos leitores, não cheguei a comentar de todas as obras de super-heróis que eu encontrei. Aqui só coloquei as que eu julguei mais relevantes.

Se você estiver começando a ler obras desse gênero, recomendo os mangás primeiro. Em termos de arte e trama, os japoneses têm as histórias mais sólidas. Por outro lado, os coreanos acabam sendo mais ousados, mas perdem em termos de arte por serem webtoons principalmente.

Ficam aí as dicas de leitura! Até a próxima!

Sobre Wesley Chen

Wesley é um tinker por emoção, programador sem noção e escritor de coração. Amante da cultura nerd, geek e otaku; está sempre buscando alguma história nova ou desconhecida.

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