Análise – anime The Tatami Galaxy

E mais uma vez estamos participando do projeto corrente de reviews idealizado pelo blog Anime Kenkyuukai e dessa vez vamos falar do interessante, porém complexo, anime The Tatami Galaxy (Yojōhan Shinwa Taikei).

Primeiro gostaria de agradecer o blog anime portfolio pela indicação desse que foi um dos grandes animes do ano de 2010.

Conhecendo The Tatami Galaxy

The Tatami Galaxy foi publicado originalmente como uma light novel de nome Yojōhan Shinwa Taikei (Crônicas mitológicas dos quatro tatamis e meio) pelo autor Tomihiko Morimi no ano de 2004. Alguns anos depois, em 2010, ganhou uma adaptação para anime produzida pelo estúdio Madhouse e que foi transmitida no popular bloco NoitaminA da TV Fuji.

O anime conta com 11 episódios dirigidos por Masaaki Yuasa que já tinha mostrado sua competência na direção do anime Kaiba. O design de personagens foi feito por Yūsuke Nakamura (mais conhecido por fazer as belas capas dos cds da banda Asian Kung-fu Generations), as músicas por Michiru Oshima e o roteiro ficou para Makoto Ueda.

Ainda no ano de 2010 a série foi premiada no Japan Media Arts Festival pela sua inovação visual e por transcender as limitações da TV. Foi a primeira vez que um anime para televisão ganhou esse importante prêmio japonês.

The Tatami Galaxy

Muitas histórias, um único destino

A história macro do anime acompanha a vida de um jovem universitário de Kyoto em busca de fazer algo de útil em sua vida e de encontrar um grande amor. Ele planeja ter uma vida perfeita, mas ao longo dos episódios acompanhamos suas desventuras em diversos clubes da universidade (no Japão os estudantes são obrigados a fazer partes de clubes de estudos, esses clubes podem ser ligados a esportes, cinema, músicas e etc…) e em todos esses ele sente que nada deu certo e que deseja recomeçar tudo novamente.

Além dessa história macro que perpetua ao longo de todo o anime temos a história de cada episódio que mostra o protagonista e sua relação com os outros personagens que habitam seu circulo social. Uma particularidade da trama é que independente do clube em que o personagem escolha seu circulo social não muda, ele sempre se relaciona com as mesmas pessoas e o que muda é o nível e o tipo de relacionamento que ele possui com os outros personagens.

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Devido a isso no inicio o telespectador pode se sentir incomodado e confuso com algumas repetições na história. Após os cinco primeiros episódios já é possível começar a entender melhor o que está acontecendo já que ao final de todos eles o personagem aparenta dar um “reinicio” em sua vida universitária apagando sempre os dois últimos anos de estudos e aventuras que acompanhamos a cada episódio.

Fica evidente que a cada novo episódio o personagem está tentando dar um novo rumo ao seu destino e por isso o vemos desempenhando as mais diversas atividades, mas no final ele sempre acaba deixando de lado algo importante e que é a chave central da trama.

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Poucos personagens em muitos papéis

The Tatami Galaxy fala sobre destino e o destino nesse caso é moldado pelas pessoas com a qual o personagem principal se relaciona e como ele se relaciona. Por isso os personagens secundários do anime são muito importantes e apesar de serem poucos acabam trabalhando como coringas, já que em cada episódio eles influenciam de diferentes maneiras a vida do protagonista.

Akashi é a personagem mais importante da lista de personagens secundários, ela é estudante de engenharia e possui muitas habilidades, a cada novo episódio ela exerce uma dessas habilidades, seja projetando aviões ou participando de competições de ciclismo. O que fica claro é que ela faz engenharia e é muito objetiva nas palavras, ao final do anime muitas das outras facetas dela podem ser interpretadas como uma visão supervalorizada do protagonista. Afinal quando gostamos de alguém acabamos só vendo coisas positivas nessa pessoa, as vezes até coisas que ela não possui de verdade.

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Outro personagem importante é Ozu o melhor amigo do protagonista, ele está sempre envolvido em situações que colocam em duvida seu caráter. Ele é a única constante em todas as “vidas” do protagonista, em determinados episódios nem a Akashi é citada, mas Ozu está lá sempre presente, mais como uma ideia do que como uma pessoa em si, provavelmente por isso seu rosto é mostrado como algo que não é totalmente humano.

Por ultimo também é importante falar do personagem Seitarō Higuchi que chega até ser tratado como uma divindade em algumas situações, mas que na realidade é apenas um estudante que mora no mesmo prédio do protagonista. A função de Higuchi é a de dar conselhos justamente por ser um estudante mais velho e por ter passado por mais experiências do que os outros personagens. Muitos o chamam de mestre e ele está sempre indireta ou diretamente influencia na vida do protagonista.

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Além desses personagens outras variáveis aparecem para influenciar a vida do pobre protagonista sem nome e são essas variáveis que acabam por diferenciar um episódio do outro. Enquanto em um episódio o líder do clube de cinema Masaki Jōgasaki é um amigo do protagonista por eles fazerem parte do mesmo clube em outro ele o contrata para cuidar de seu misterioso hobby por bonecas que parecem humanas. O mesmo acontece com outros personagens como Ryōko Hanuki que em certos momentos o protagonista acha estar apaixonado e em outros é visto como o par romântico de Higuchi.

Em The Tatami Galaxy as relações interpessoais são muito importantes e cada variação delas resulta em um destino totalmente diferente. É como se o personagem tivesse um destino a seguir e não quisesse ou não soubesse e ao optar por outros caminhos ele acaba por criar outras linhas temporais.

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Visual único

Os elementos visuais do anime merecem uma atenção à parte, o uso de muitas cores em alguns momentos e a falta de cor em outros ajudam a dar um contraste que fica muito bonito entre as cenas. Essas cores somadas ao belo design de personagens e aos cenários que misturam elementos ilustrados com fotografias de lugares e objetos reais fazem de The Tatami Galaxy uma das animações mais ousadas nesse quesito.

Muitas cenas no anime são bem gráficas, lembrando mais trabalhos de arte experimentalistas do que uma animação. E é importante ressaltar que esse visual ajuda muito o anime a passar uma sensação de fábula, de um mundo que até poderia ser o nosso, mas onde algumas coisas fora do comum acontecem.

É até difícil de acreditar que uma animação com um roteiro tão fora do comum e um visual tão moderno tenha conseguido espaço na televisão japonesa.

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Considerações

The Tatami Galaxy não é um anime fácil de assistir, primeiro porque o personagem principal fala muito rápido o que dificulta acompanhar as legendas (no meu caso que não sei japonês), segundo porque os episódios podem parecer repetitivos em um primeiro momento e terceiro porque a animação pouco convencional pode acabar incomodando alguns.  Mas ao mesmo tempo é justamente essas peculiaridades que tornam a obra algo acima da média, porque tudo que pode parecer um problema na realidade ajuda a compor o emaranhado de histórias que cercam o personagem.

As falas aceleradas do protagonista dão pistas do que ao final do anime fica mais evidente, que aquelas histórias podem não estar realmente acontecendo e sim serem fluxos de consciência dele, seria como se a cabeça dele estive trabalhando acelerada para tentar pensar em N possibilidades que ele teria para tentar esquecer Akashi e seguir um rumo diferente em sua vida. E apesar de evidenciarem isso não podemos dar toda a certeza que elas não ocorreram, porque antes dele ficar enclausurado em seu quarto esses acontecimentos podem ter realmente acontecido e ele pode ter presenciado tudo (não da maneira que ele nos conta, ele pode ter idealizado essas situações como se fossem com ele). Sem contar que não se pode descartar a possibilidade dele realmente ter vivido tudo isso e a cada vez que ficou insatisfeito voltou no tempo.

Para tentar elucidar melhor essa relação espaço tempo dos acontecimentos eu gostaria de relacioná-la ao caso do gato de Schrödinger (não por acaso o físico é citado em um determinado momento no anime). O gato de Schrodinger nesse caso é o protagonista e sua caixa é seu quarto, até que ele saia de seu quarto ou não, tudo que ele fala pode ser verdade ou pode ser mentira, não temos como saber.

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Na história ele estava destinado a conhecer e se envolver com a Akashi e sempre que escolheu outra possibilidade foi infeliz, talvez ele apenas tenha imaginado essas possibilidades infelizes, talvez vários protagonistas em dimensões diferentes realmente a tenham vivido essas situações, mas no final das contas acho que isso não é o mais importante, a mensagem principal é que nossas escolhas nos moldam e que muitas vezes não estamos preparados para toma-las.

Como é dito em determinado momento no anime pelo personagem Higuchi, o protagonista espera viver em um mundo cor de rosas, onde tudo dá certo e todo mundo é feliz, mas esse mundo não existe e nossas vidas possuam muitas variações de cores. A não aceitação do personagem a esse fato irrefutável é o que gera seu isolamento em seu quarto e essas diversas interpretações de sua vida.

Talvez todos nós sejamos como o protagonista desse anime e nesse exato momento e em vários outros momentos de nossas vidas estamos perdendo boas oportunidades, sendo estúpidos e deixando de correr atrás do que realmente importa até porque ainda não sabemos o que realmente importa.

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Bom essa foi a nossa contribuição para a corrente de reviews 2013, novamente recomendo que você leitor busque pelos outros textos feitos exclusivamente para o projeto.

O próximo blog a participar será o Viva Forever! que vai falar sobre o cultuado anime Furi Kuri (FLCL) do estúdio Gainax.

Sobre Wagner

Wagner é o manda chuva do Troca Equivalente. Formando em algo sem relação alguma com o universo dos animes e mangás, está sempre por aqui dando seus pitacos. Pelo nome do blog já dá para imaginar qual é o seu mangá/anime favorito.

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