Sobre animação e os imperdoáveis quadros secundários

Como a internet gosta de sensacionalizar as coisas, né? O mais recente exemplo, e que me motivou a escrever esse post, envolveu um artigo do Kotaku comentando a suposta “péssima animação” que Dragon Ball Super apresentou em seu mais recente episódio. O autor me pega imagens estáticas de quadros secundários do episódio e me usa como argumento para dizer que a animação – que não é estática e contém milhares de quadros por episódio – estava uma droga. Claramente esse cara ou não entende nada de animação ou só estava querendo polemizar… e eu tendo a achar que se trata do segundo. De qualquer modo, acho que este é um momento oportuno para comentarmos um pouco sobre os imperdoáveis quadros secundários.

Exemplo de animação com quadros principais

De forma bem geral, um episódio de anime é dividido em diversas cenas, que, por sua vez, são divididas em diversos cortes, que por sua vez são divididos entre quadros principais (ou quadros-chave) e quadros secundários. Os quadros principais, como o próprio nome já indica, são usados nos momentos mais importantes de uma cena, que requerem um maior detalhamento de movimento e que, normalmente são desenhados pelos melhores animadores de um estúdio. Os quadros secundários são, em sua maioria, os quadros que preenchem o espaço entre os quadros principais e os conectam.

Cada quadro é uma imagem estática que, quando colocadas em sequência, dão a ideia de movimento. Um corte que seja mais importante ou impactante apresenta uma maior quantidade de quadros principais e possuem também uma uma maior taxa de quadros por segundo, deixando a animação mais fluida, mais detalhada e, no geral, mais bonita. Cortes mais secundários acabam ficando com um menor número de quadros principais e um maior número de quadros secundários, por serem, no geral, de menor importância para a cena, e tendem a ter uma taxa menor de quadros por segundo, o que normalmente resulta em imagens mais estáticas e menos detalhadas. Quando ocorre de ter uma cena com muito movimento em quadros secundários, estes tendem a ser bem mais rústicos e travados do que nos com mais quadros principais.

TOPO: Quadros principais; MEIO: Animação limpa e preenchida com secundários; EMBAIXO: Animação finalizada.

Em obras de longa duração, como é o caso dessa nova série de Dragon Ball, o orçamento por episódio tende a ser menor do que para séries mais curtas e o tempo de produção deles também tende a ser bem mais acelerado. Desse modo, inevitavelmente, alguns episódios terão mais ou menos quadros principais dependendo da exigência do que está acontecendo em cena. Consequentemente, com menos quadros principais, teremos mais quadros secundários para fazer a conexão entre eles, resultando assim, num episódio mais “mal animado” do que outros. Esse tipo de alternância faz parte do status quo da animação japonesa e foi um dos maiores motivos dela ter conseguido expandir tanto e ter um custo tão mais baixo do que animações ocidentais, por exemplo.

Quando alguém pega apenas um quadro estático, ainda mais um quadro secundário, para usar como exemplo de que a animação de uma série está ruim, essa pessoa está forçando muito a barra para provar seu ponto. Ponto esse que, muitas vezes, nem é, de fato, verídico. Claro que quanto mais quadros principais existem em uma série e quanto mais cuidado é colocado nesses quadros principais, e também nos secundários que os conectam, melhor vai ser uma animação. Isso é fato. Então se um episódio de Dragon Ball tá recheado de quadros secundários e quadros principais não tão bem feitos, ele tá sim, mal animado. Porém, para vermos isso, precisamos analisar o movimento, não um quadro estático que aparece na tela por alguns segundos ou até por uma fração de segundo.

Um exemplo de quadro secundário tosco

Infelizmente, o que vemos por aí é muita gente condenando séries inteiras por uma meia dúzia de quadros secundários mal feitos. Algo mais normal do que provavelmente essas pessoas acham que é.

Porém, percebam bem que, apesar de ser normal animes apresentarem momentos não tão bem animados quanto outros, isso não é desculpa para reclamarmos ou condenarmos séries que abusam descaradamente disso. Se Dragon Ball começar a ficar desleixado como Saint Seya: Soul of Gold ou Sailor Moon Crystal – ambas obras do mesmo estúdio – é claro que a gente deve criticar. Porém, esse tipo de coisa não se vê em um quadro secundário estático, mas sim no conjunto da obra. Não quer dizer que esse episódio 5 tenha sido um primor de animação, não foi… mas era algo a se esperar. Se virar uma constante, como nos casos acima, podemos começar a nos preocupar.

Felizmente, diversos estúdios estão conseguindo aplicar novas técnicas e práticas para melhorar a qualidade geral de suas adaptações de mangás muito longos. Uma delas, e que tem me deixado muito satisfeito, tem sido dividir a série em diversas temporadas. Com essa simples decisão, o tempo de produção das séries aumenta, você evita ter que fazer fillers para tapar buraco enquanto a obra original não avança, e ainda possibilita uma maior consistência de qualidade pelos episódios. Podemos ver esse tipo de técnica nas recentes adaptações de Bakuman, Kuroko no Basket, Haikyuu… todas séries longas que foram adaptadas no esquema de temporadas e que mantém uma boa consistência no decorrer de seus episódios. Especialmente Haikyuu, que me impressionou bastante por sua qualidade – tanto na animação quanto no conteúdo.

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Enfim, espero ter mostrado para vocês, ainda que de maneira bem geral, um pouco de como um anime funciona para que possamos ter um pensamento um pouco mais crítico quando lemos notícias exageradas como a da abertura desse post ou para ter mais base para falarmos mal de algo. Quadros secundários mal feitos não são legais, claro, mas também não são tão imperdoáveis assim. Desse modo, gostaria de saber a opinião de vocês quanto a esse assunto. Comentem!

ATUALIZAÇÃO (10/08/2015 – 20:50): O leitor Guilherme Guimarães postou no grupo do Genkidama um link para o reddit de Dragon Ball onde comentam o fato de que além de todos os problemas citados aqui nesse post, ainda parece que a Toei careceu de animadores principais para animar boa parte das cenas desse episódio e por isso a inconsistência.

Sobre Diogo Prado

Tradutor, professor, host do Anikencast, apaixonado por quadrinhos, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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