“5 centímetros por segundo” (Byousoku 5 senchimeetoru, 2007)

— Eles dizem que é cinco centímetros por segundo.
— Do que você está falando?
— A velocidade com que uma flor de cerejeira cai… cinco centímetros por segundo. 

Tomei primeiro contato com o diretor Makoto Shinkai com o OVA The voices of a distant star (Hoshi no Koe, 2002) e logo virei fã de seu estilo. Na época, tinha acabado de sair o blu-ray de 5 centímetros por segundo, 2º filme escolhido para esse Anikenkai Movie Week. Obviamente tratei logo de assistir. Meu primeiro longa do diretor. Estava empolgado.

A História

5 centimetros por segundo conta, em três partes, acontecimentos da vida de Toono Takaki. Na primeira parte, Oukashou (Flor de Cerejeira, em japonês), Takaki, então com 13 anos, está indo visitar sua amiga, Shinohara Akari, que se mudou no ano anterior, para avisar que ele é quem estaria se mudando agora, para uma cidade bem longe. Descobrimos que além de muito amigos, eles sentem algo a mais um pelo outro. Ao se despedirem, o voto de nunca se esquecerem um do outro é feito. Na segunda parte, Kosumonauto (Cosmonauta, em japonês), Takaki agora já está com uns 18 anos e há muito adaptado à nova escola. Acompanhamos então a jornada de Sumida Kanae, uma colega de classe que está apaixonada por ele, rumo à arranjar forças para se confessar. Acaba que ela percebe que Takagi não está interessado nela… ele está sempre “olhando para algo além dela” e, mesmo ainda apaixonada, decide não se confessar. Na terceira e última parte, Byousoku 5 senchimeetoru (5 centímetros por segundo, em japonês), Takaki, já um adulto formado, programador em Tóquio, ainda luta contra sua busca por Akari. Sua vida já foi muito prejudicada por isso, ele já largou outras meninas, está frustrado em seu trabalho. Acaba que em um relance na rua, ele passa por Akari ao atravessar os trilhos de um trem que está quase a passar. Ao se virar para ver se era realmente ela, o trem passa e mesmo ele tendo esperado, Akari seguiu em frente.

A Simplicidade

Esse filme tem praticamente três personagens: Takaki, Akari e Kanae. Sua trama segue uma linha cronológica simples. Sua narrativa é aparentemente muito direta. Os, já poucos, personagens não são tão desenvolvidos quanto estamos acostumados para filmes do gênero. Durante os 60min de filme, o espectador acompanha o personagem principal) sem muito se questionar. Esse próprio tempo de duração é mais um aspecto da simplicidade de 5 centímetros por segundo.

Porém, não se engane. Essa aparente simplicidade faz parte de todo o sentido metafórico que o autor quer nos passar.

A Complexidade

É engraçado pois você só começa a pensar sobre o que viu algum tempo depois dos créditos finais subirem. Parece que Makoto Shinkai consegue brincar diretamente com a nossa cabeça. A aparente simplicidade aumenta a ideia de efemeridade da vida. Tudo é passageiro… e avida é curta.

Takaki serve como avatar para muitas pessoas que passam pelas mesmas coisas que ele passou: incerteza do futuro, amor, despedida, sofrer pelo outro…

Akari serve como avatar para o desejo que muitos de nós buscamos, muitas vezes inconscientemente ou de forma obcecada, mas que na maioria das vezes é praticamente inalcançável.

Kanae serve como avatar para as oportunidades que perdemos em nossa vida por estarmos cegos perseguindo um objetivo morto que, muito provavelmente, não nos fará tão felizes como nós achamos que nos fará.

Não sei se você já se apaixonou por uma pessoa e achou que ela era tudo em sua vida. Achou que vocês foram feitos um para o outro e que permaneceriam juntos por toda a eternidade. Mas esse tipo de paixão é algo perigoso. Ela cega. Deixa você iludido de que a pessoa é perfeita e que a relação de vocês é algo que foi planejado pelo destino. Quando finalmente vocês ficam juntos, quando o objetivo é alcançado, você pode acabar percebendo que ela não é tão boa assim, que você não era tão apaixonado assim por ela. Você era apaixonado pela ideia que você tinha dela em sua cabeça não por ela mesmo. Quantas oportunidades você deixou passar por causa disso? No filme sabemos que Takaki perdeu duas, mas deve ter perdido muitas outras.

E é engraçado ver como o filme deixa claro que Takaki fez a escolha errada. A metáfora dele esperando o trem passar para reencontrar com Akari e quando o trem passa ela não está mais lá pois ela seguiu em frente é certeira. Ela bota o dedo na ferida.

Akari não nega sua paixão por Takaki, mas a coloca como algo do passado, como algo utópico, que na vida real não pode mais acontecer. Ela guarda só as partes boas em sua memória e se sente feliz por isso. Enquanto que Takaki, ao ruminar aquilo por tanto tempo, acaba por se tornar amargo, torna sua vida amarga. Duas metades de uma paixão inocente que a desenvolveram de maneiras tão distintas.

Comentários Finais

Toda essa bagagem é ainda mais engrandecida pela preciosidade técnica da produção. Destaque, visualmente perceptível, para os belíssimos cenários! Obra de arte atrás de obra de arte. Um estilo visual a ser admirado durante toda a duração do filme. A animação também está muito bem feita. Ela não exige muito, mas nem por isso fica desleixada.

5 centímetros por segundo é um filme aparente simples, mas que esconde uma complexidade profunda e que trata de questões básicas do ser humano. É capaz de você assistir a esse filme e não captar nada do que eu acabei de falar aqui. Tive conhecidos que vieram a mim e disseram que esse filme não passava de mais um slice of life que vai do nada a lugar nenhum. Mas eu discordo. Recomendo que assistam essa obra de Makoto Shinkai, um dos diretores mais aclamados da nova geração no Japão. Comparado, ainda que exageradamente, mas ainda assim comparado, ao mestre Hayao Miyazaki.

Sobre Diogo Prado

Tradutor, podcaster, jornalista, amante de cinema, apreciador de jogos eletrônicos e precoce entendedor de animação japonesa.

Você pode me achar no twitter em @didcart.

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