Análise – anime Ping Pong

Muito tênis de mesa, protagonistas com apelidos engraçados e uma animação alucinada, se isso já não te conquistou talvez você não mereça assistir Ping Pong: The Animation.

A long time ago

Ping Pong é originalmente um mangá do autor Taiyō Matsumoto (Tekkonkinkreet), publicado no ano de 1996 pela revista Big Comic Spirits. No ano de 2002 ganhou uma adaptação live-action para os cinemas japoneses e no ano de 2014 foi adaptado novamente, agora para anime, pela produtora Tatsunoko Production e transmitido no popular bloco NoitaminA da TV Fuji.

O anime de 11 episódios foi dirigido pelo conceituado Masaaki Yuasa, que possui em seu currículo obras elogiadíssimas como Kaiba e The Tatami Galaxy. Para compor a equipe ele trouxe seus colegas de longa data: Nobutake Ito (design de personagens), Michiru Oshima (músicas), Makoto Ueda (roteiro).

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O vai e vem da vida

Na história acompanhamos quatro personagens, cada um deles com suas convicções e angustias. Peco e Smile são dois jovens colegiais muito bons no tênis de mesa que começam a testar seus limites como atletas e como amigos. Eles possuem personalidades totalmente diferentes, enquanto Peco é meio arrogante e ama o tênis de mesa, Smile é introvertido e parece não ligar tanto para o esporte. Do outro lado da balança temos os jogadores profissionais Ryūichi Kazama e Kong Wenge, cada um vivendo uma experiência contraria com o esporte. Enquanto Kazama está no auge e é o mais famoso mesa-tenista japonês, Wenge foi expulso da seleção chinesa e teve que se conformar em ir jogar no Japão, um país bem mais fraco no esporte se comparado à China.

Durante o caminhar da trama os destinos deles irão se cruzar, nas quadras e na vida, e acabarão influenciando mutuamente um ao outro. A sensação que fica ao assistir os primeiros episódios é que os personagens estão perdidos em suas escolhas, tentando buscar algo que talvez não seja o que eles querem, ou talvez não seja da maneira como eles querem. Mas o interessante de Ping Pong é que apesar de conhecermos cada um desses personagens através do esporte, o anime não é sobre o esporte em si. Podemos definir ele como um slice of life de autoconhecimento, sobre encontrar o que nos motiva de verdade.

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Hitter e Chopper

Para contar essa jornada de autoconhecimento a trama não elege um protagonista ou um antagonista, os personagens possuem nuances, em alguns momentos você vai gostar deles e em outros odiar. Outra característica marcante dos personagens é a sutileza de suas mudanças, muitas vezes apresentadas através de cenas simbólicas.

Quando é explicado o estilo de “empunhadura” (maneira de segurar a raquete) que cada mesa-tenista usa, em um primeiro momento parece apenas uma informação técnica para sabermos que o Peco é hitter (jogador agressivo, sempre atacando o adversário) e que o Smile é chopper (jogador defensivo, baseado em slices), mas depois quando vemos os dois mudando seu estilo de jogo, essa mudança tática também fica associada a uma mudança de comportamento.

Diferente de The Tatami Galaxy, por exemplo, que fala sobre como nos relacionamos com o mundo e as pessoas a nossa volta, em Ping Pong as ações são interiorizadas, os personagens estão aprendendo a lidar com eles mesmos e o tênis de mesa é a força que os empurra.

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Apuro técnico

Sem dúvida a parte técnica é o principal destaque dessa obra, abertura e encerramento memoráveis, animação competente e visual único (principalmente nos personagens). E o engraçado é que design de personagens não é bonito da maneira convencional, ao estilizar tanto a direção de arte a equipe criativa consegue deixar os traços do anime muito próximos ao do mangá e ainda assim cria algo novo e ousado.

O uso de linhas mal acabadas nos contornos de corpos e objetos lembra um esboço e ajuda muito no dinamismo das cenas de ação. Até os enquadramentos bizarros funcionam e conseguem deixar os jogos mais emocionantes e épicos. Muitas cenas de Ping Pong lembram mais trabalhos de arte experimentais do que uma animação japonesa e isso é sempre algo bem-vindo nesses tempos padronizado pelas animações 3D e os animes genéricos.

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Considerações

Yuasa merece muitos “parabéns” por conseguir se manter um diretor tão autoral em um mercado onde essa palavra parece quase não existir. Passando o incomodo inicial para os não iniciados na estética do diretor, Ping Pong: the Animation consegue entregar uma narrativa inteligente, personagens interessantes e partidas emocionantes. Esse é o diferencial de um grande diretor, ele consegue impor sua marca e cada episódio se torna uma tortura, porque você sempre quer mais e mais.

A única maneira de ter certeza que não vai perder, é não lutar

Caso tenha interesse em assistir, fique tranquilo, ao mesmo tempo em a história se apresenta muito fantasiosa e exagerada, ela mexe com temas muito próximos a nós e esse sim é o grande mérito dessa produção. Todos somos Pecos, Smiles e Wenges da vida, ao mesmo tempo em que nos esforçamos e caminhamos em busca daquilo que acreditamos, temos dúvidas e precisamos de pessoas ao nosso lado para nos incentivar e mostrar que tudo está valendo a pena.

 

Sobre Wagner

Wagner é o manda chuva do Troca Equivalente. Formando em algo sem relação alguma com o universo dos animes e mangás, está sempre por aqui dando seus pitacos. Pelo nome do blog já dá para imaginar qual é o seu mangá/anime favorito.

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