Mangas Undergrounds #6 – Vinland Saga

Vinland Saga é a obra máxima do mangaka Makoto Yukimura, mesmo autor de Planetes. Possui 11 volumes sendo que ainda está em publicação. O mangá começou a ser lançado em 2005 na segunda maior revista shounen do Japão, a Weekly Shounen Magazine, lugar onde ficou durante mais ou menos sete meses. No entanto, por decisões editoriais, o mangá mudou para a revista Afternoon, onde é publicado até hoje.

Sendo curto e grosso Vinland Saga é um mangá sobre vikings, e, sinceramente, como algo assim poderia dar errado? Histórias sobre homens violentos e sanguinários, cortando e matando tudo o que conseguem ver enquanto invadem terras estrangeiras. Morte, carne seca, mulheres, lutas e bebida, essa combinação faz renascer o espírito viking presente em cada um de nós. É algo simples, já feito em uma quantidade interminável de seinens, mas que é trabalhado muito bem neste mangá, a ponto de fazer nossas almas de terras geladas começarem a aparecer novamente.

Mas calma, o enredo deste mangá vai muito além de porradaria gratuita.  A história ambientada no século XI é centrada na vida e no louco desejo de vingança do jovem guerreiro Thorfinn. O garoto faz parte de um grupo de dinamarqueses que vivem saqueando e invadindo terras inglesas (que era o contexto Viking nessa época mesmo). O líder deste grupo se chama Askeladd, um homem sagaz e que baseia todas as suas vitórias em conceitos estratégicos muito bem planejados e divertidos de se observar durante a obra.

O problema é que, por razões desconhecidos para o leitor, o único motivo para que Thorfinn estar dentro deste grupo de Vikings é para poder matar Askeladd. Durante as invasões o garoto recebe ordens do comandante, mas assim que chegam em suas terras novamente, Thorfinn desafia Askeladd para um confronto mortal, perdendo toda vez.

Além do núcleo voltado para a vingança, Vinland Saga também conta uma dramatização da história de acensão e conquistas do Rei Cnut, herdeiro do trono da Dinamarca que chegou a unificar Ingleses e Dinamarqueses em pleno conflito viking. Aliás, muitos personagens do mangá são baseados em figuras históricas verídicas. Quem possui algum tipo de aprofundamento neste setor da história europeia logo reconhecerá nomes como o próprio Rei Cnut, Thorkell, The Tall e o próprio protagonista Thorffin, baseado no explorador Thorfinn Karlsefni, mas mesmo quem conhece tais figuras, após a leitura certamente irá correr para suas respectivas páginas da Wikipédia com o objetivo de conhecer mais. Uma espécie de aprendizado tangencial que em nenhum momento fica parecendo forçada na trama. Um “extra” para os leitores que vão levar a obra além.

Onde Vinland Saga brilha mesmo é no desenvolvimento quase imperceptível de seus personagens e nas batalhas. Os confrontos entre personagens é o ponto onde é pedido a nós a maior quantidade de suspensão de descrença; não há poderes luminosos, nem magias ou inimigos sendo cortados ao meio que nem vemos em Berserk, por exemplo, mas alguns personagens são simplesmente irreais. Em uma das cenas por exemplo, Thorkwell the Tall literalmente soca um cavalo que estava vindo em sua direção, fazendo a pessoa que estava cavalgando o animal voar longe.

Todos esses exageros no entanto, são aceitos com braços abertos pelo leitor, o próprio Thorkwell é um dos personagens mais divertido de todo o mangá. As irrealidades são aceitas, primeiramente porque entendemos que elas são feitas com o objetivo de intensificar o enredo, sendo simplesmente divertidas de se ler e observar, mas principalmente porque temos todo um cenário de emoções e relações humanas muito real por trás de tudo aquilo.

Apesar de parecerem um pouco rasos em uma primeira vista, principalmente por esse caráter fantasioso nas lutas, os personagens principais são muito bem trabalhados pelo autor. Tanto em desenvolvimento interno quanto entre as interligações dos personagens, também em plot-twists que subvertam as expectativas para cada pessoa, tudo é trabalhado com maestria. Não vou negar que temos alguns personagens que acabam ficando ao vento, sem explicação de como são e porque são, o próprio Cnut é uma figura que poucos conseguem criar alguma simpatia. Acho que a questão é que, na grande maioria dos casos, os personagens que  ganham atenção especial do autor acabam se tornando figuras memoráveis na obra.

Atenção especial para o protagonista Thorfinn que possui um desenvolvimento tão lento e tão bem trabalhado que não via desde Slam Dunk e Hikaru no Go. Durante a obra e durante o flash-back que conta seu passado, temos várias transformações de enredo que fazem com que o personagem se transforme em uma pessoa completamente diferente, sem nunca parecer forçado. Thorffin é um dos mais incríveis casos de desenvolvimento de personagem a longo prazo.

Sobre a arte em Vinland Saga, temos um caso bem curioso. O mangá que em seu início era publicado na revista semanal Shonen Magazine, tinha uma arte interessante, mas que certamente faltava do detalhismo e aprofundamento que a obra, no estilo que o autor estava planejando, necessitava. Foi então que o mangá mudou de endereço e começou a ser publicada na revista seinen mensal, Afternoon. Esta foi, sem nem sombra de dúvida, a melhor coisa que aconteceu com Vinland Saga. Em sua nova casa o autor teve a liberdade de desenvolver a sua história da forma que quisesse e o tempo o bastante para desenhar como achasse necessário. Exemplo de antes e depois:

Por isso, não fique intimidado pela arte, ela melhora muito durante a obra. Alias, melhora não só porque o autor passou a ter mais tempo para desenhar, pois mesmo depois de consolidado na Afternoon, Makoto Yukimura melhorou a sua arte a cada capítulo que passava, chegando a um nível de alta qualidade nos capítulos atuais, tanto em detalhismo, quanto em técnica, sendo possível até uma comparação com grandes autores como Kentaro Miura.

O cenário político por trás do mangá também é um detalhe bem interessante. Todos os conflitos e conexões que envolvem as conquistas de territórios são sempre muito bem planejadas e realmente surpreendem o leitor, mesmo que de vez em quando acontecem alguns pequenos conflitos que novamente parecem irreais, ou algumas incoerências históricas, nada disso chega a incomodar. Mergulhamos felizes na suspensão de descrença e nos deixamos ser afogados por esse mar de batalhas, política, arte surpreendente e personagens memoráveis.

Pra finalizar, é valido de dizer que Vinland Saga sofre muitas comparações com o clássico mangá de Kentaro Miura, Berserk. Em alguns aspectos essa comparação é um pouco precipitada, a arte no mangá de Vikings tem uma proposta muito diferente, já o mangá de espadas gigantes tem um ar muito mais fantasioso, além da estrutura de enredo ser completamente distinta. No entanto, no que diz respeito ao desenvolvimento de personagens, qualidade de traço e planejamento de enredo, ambos são de fato obras de altíssimas qualidade, e é por isso que…

Eu recomendo: Vinland Saga.

Vinland Saga é a obra máxima do mangaka Makoto Yukimura, […]