Paradise Kiss – J-Movie

OBS: Esse post contém spoilers.

Vocês pediram, eu prometi e estou voltando a analisar filmes asiáticos aqui no blog. Como já havia comentado no post do terceiro aniversário do blog, pretendo analisar pelo menos um filme mensalmente a partir de agora. Assim, aproveitando que hoje saiu um Video Quest novo (que vocês podem assistir logo abaixo) sobre o manga de Paradise Kiss, venho comentar sobre sua adaptação em live-action que assisti no começo desse ano.

Baseado na obra da mangaka Ai Yazawa (também conhecida pelo imenso sucesso, Nana) de mesmo nome que foi publicada de 1999 ao ano de 2003 na revista josei Zipper para posteriormente ser compilada em cinco volumes tonkohon que chegaram a ser publicados no Brasil (e em ótima qualidade!) pela editora Conrad e transformados em um anime de 12 episódios pelo estúdio Madhouse, Paradise Kiss é um filme lançado em Junho de 2011 do diretor Takehiko Shinjo e distribuição da Warner Bros.

A história é sobre a jovem Yukari Hayasaka, uma estudante padrão japonesa, que para atingir as expectativas da mãe (e da sociedade japonesa de uma maneira geral) não faz nada na sua vida além de estudar. Estudar muito. Um dia Yukari é abordada por um grupo de estudantes da Yazawa Geijyutsu Gakuen, uma escola especializada em de artes e moda, que juntos formam o ateliê “Paradise Kiss”. Ao final de sua graduação, eles devem apresentar-se em um desfile e para isso buscam uma modelo perfeita para desfilar a obra máxima de Jouji “George” Koizumi, um gênio do fashion design.

Paradise Kiss – ou simplesmente Parakiss – me remete muito a outra obra com uma ideia semelhante, mas dessa vez um shounen. Beck e Parakiss são meus exemplos favoritos de que mesmo sendo títulos particularmente sobre a sociedade japonesa e sua paranóia com um padrão de sucesso social que deve ser buscado atingido por todos, ainda consegue ressoar facilmente em outros países pela questão universal do real objetivo de nossas vidas, especialmente quando estamos saindo da escola para entrar ou no mercado de trabalho ou no ensino superior.

Se Beck se utiliza da música e do underground japonês para mostrar ao seu protagonista que existe infinitas possibilidades na vida além da retidão dos salaryman, em Parakiss Ai Yazawa utiliza da moda para marcar essa posição, mas por se tratar de um título originalmente voltado para mulheres, vai além, questionando valores e crenças fixadas  senso comum.

É fácil percebermos isso em Paradise Kiss pelo contraste presente entre o mundo “lá fora” e o ateliê em um espaço subterrâneo. Yazawa, e o filme consegue passar isso com certa efiência em seus poucos minutos já que a história precisa correr, é enfática nessa distinção do que seria considerado normal e o que seria desprezado como anormal. É dentro dessa caminhada para retirar a personagem Yukari do seu mundo preto e branco, colocando cores (literalmente) nele, que está o primeiro grande pilar de Paradise Kiss.

Desta forma, a primeira meia hora de filme procura e consegue desconstruir bem essa ideia. De uma garota completamente alienada e sem motivações próprias, Yukari começa a questionar sua vida e a forma como vem levando-a. O problema é que o filme deixa um pouco de lado a capacidade dela em fazer essas mudanças. Na passagem que rompe de vez com a antiga personalidade da garota, George, um rapaz cínico, frio e charmoso, leva Yukari a um motel e tenta agarrá-la à força. É lógico que essa não era a verdadeira intensão dele, quando na verdade ele queria mostrar a ela como ela vem deixando sua vida ser comandada pelos outros e que ela precisa aprender a ser protagonista dela mesma.

Ao contrário da ideia central por trás da obra, temos aqui uma protagonista aparentemente forte e capaz de mudar, questionando sua mãe controladora e abrindo a sua visão antes cerceada, mas o problema é que no filme ela não muda exatamente por si, ela muda em resposta às necessidades de George, transformando o filme de quase duas horas em um paradoxo completo.

Tecnicamente o filme é muito bem feito, com um nível de produção e financeiro que não é tão frequentes nos cinemas japoneses. Ainda que questionemos algumas escolhas da direção de Takehiko Shijo, o filme flui muito bem com um romance misturado a um raso questionamento social. A escolha dos atores foi muito bem feita, principalmente com Osamu Mukai  no papel de um George mais leve. Mesmo que Keigo Kitagawa não seja a melhor atriz do mundo e repita em metade dos filmes as mesmas caras e bocas, ainda sim foi uma boa escolha e consegue passar bem a atmosfera da personagem. Os outros personagens, que no filme perdem grande parte de sua importância (Miwako, Arashi e Isabella), também estão bem representados para uma adaptação que busca ser um tanto quanto mais realista do que o manga e o anime foram.

Mas algo que não consegui engolir foi a escolha de Yusuke Yamamoto para o papel da primeira paixonite de Yukari, o centrado Hiroyuki Tokumori. Se na adaptação para dorama de Ouran High School Host Club eu já não conseguia entender a escolha desse ator para o papel de um personagem bonito, pelo menos lá ele se justificava por conseguir incorporar bem os trejeitos exagerados e cômicos do riquinho Tamaki Suou. Mas aqui ele não só não funciona como rival para George, já que o filme esvazia sua importância nas mudanças da vida de Yukari, como também destoa completamente em cena por ser feio. Sério, era bizarro ver um monte de garotas se derretendo por um cara feio como o Yamamoto.

Como disse bem Leo Kitsune, Paradise Kiss é um conto de fadas que vai além do “felizes para sempre”. Infelizmente não houve coragem para os produtores do filme manterem o maior trunfo dessa obra que é o seu final. Como eu comentei anteriormente, ainda que a personagem Yukari faça sim uma mudança radical em sua vida, a imagem que fica é que pouco disso tem a ver com ela própria e o final do filme só termina por confirmar essa ideia.

No manga e no anime Yukari vira uma modelo famosa e as pessoas seguem sua vida, não existe um “final feliz” de romance. Não, ela não fica com George, mesmo depois de tudo. Yazawa consegue assim trazer o espectador para a realidade que é sempre mais dura que a ficção idealizada. Estamos falando de um josei, lembrem-se. Entretanto, o filme resolve mudar isso para transformar a carreira de sucesso de Yukari em um grande vazio que ela só conseguirá completar se tiver seu príncipe encantado do lado. E esse príncipe encantado tem que ser o George. Vocês conseguem imaginar como o filme termina, não? É um pouco revoltante um manga tão brilhante ter seu segundo grande pilar modificado para um romance besta. Destrói a proposta da obra, destrói ambos os personagens. Mas fica um filme redondo para perpetuar o romance idealizado. Se em Tada, Kimi wa Ai Shiteru, outro filme do mesmo diretor que eu comentei aqui no blog ainda em 2009, houve coragem para um final mais interessante, em Paradise Kiss a escolha feita foi pelo mais comercial.

Isso significa que o filme não tem seu valor? Claro que tem. Mas é preciso um grande esforço de abstração por parte daqueles que leram o manga e gostaram a ideia da autora. É claro, para muitos servirá como o final que eles queriam tanto e não receberam. Para quem não teve acesso ao original, será um bom romance. Para mim as coisas se misturam, com um gosto agridoce na boca ao seu final.

 PS: Vocês perceberam que eu mal comentei dos outros personagens, certo? Isso porque o filme meio que os ignora, sendo a maior perda a história de Isabella e George. Por mais que no próprio manga ela seja rápida, aquele ponto é um dos mais importantes para Paradise Kiss por afirmar que ninguém nasce mulher pronta, você cresce mulher. Ser mulher não é aceitar passivamente os estereótipos sociais impostos, mas se reafirmar como do seu gênero. Isabella não é um travesti ou simplesmente homossexual. Isabella é uma mulher.

Trailer:

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