Entrevista com Beth Kodama – Editora da versão brasileira de One Piece

Estamos cada vez mais próximos da volta do manga mais vendido de todos os tempos às bancas brasileiras pela editora Panini – 15 de Fevereiro será o grande dia! A promoção feita para as assinaturas foi prorrogada e agora aceita pagamento por boleto bancário, algo que muitos pediam. Não perca essa chance!

E continuando com o canal de comunicação aberto entre o blog Gyabbo! e a editora Panini, publico hoje uma entrevista com a editora Beth Kodama, responsável por One Piece (além das participações de Débora Kamogawa, editora de Dragon Ball, e de Catharine Campos Paulossi, responsável pela área de marketing e produtos da área de mangás da editora).

Gyabbo! – Como editora responsável por One Piece, nos conte o que você sente por estar encarregada de trazer de volta ao Brasil o manga mais vendido de todos os tempos depois dele não ter dado certo no Brasil por diversos fatores.

Beth Kodama – (Eu costumo falar pelos cotovelos, tá?) Com friozinho na barriga… mas feliz, pois One Piece sempre foi um dos meus mangás favoritos. Por esta razão, não gostaria que passasse nenhum errinho (é impossível!!!) e publicar do jeito que o leitor gosta e que pudesse agradar novos leitores também. Acho que estou sendo injusta com muitos outros mangás, já que estou dando muita atenção a este título (por exemplo, tive de desistir da editoria de Black Bird, passando a bola pra Débora Kamogawa).

Isso até parece ser uma coisa boa, né? Mas creio que quanto maior for a dedicação a um determinado trabalho maior será o receio de fracassar e decepcionar a todos e a si mesmo. Por isso, o friozinho na barriga…

Gyabbo! – Como foram as negociações para obter One Piece – com certeza um título disputado por todas as editoras -, as dificuldades no contato com os japoneses e as expectativas?

Catharine Paulossi – Depois muitos pedidos dos fãs pela reedição do mangá, optamos por elaborar algumas propostas para o licenciante, visando além da republicação, trazer de volta o mangá de onde parou, para que os leitores que foram prejudicados no passado com a interrupção da série pudessem completar a série hoje. As negociações foram bem tranqüilas com o licenciante, pois a Panini se comprometeu em assumir um risco de republicar uma série longa, já lançada no Brasil, com sua curva de vendas estabilizada. Isso é algo inédito, pois poucas editoras assumiriam este risco.

Hoje estamos realizando um trabalho diferenciado no mercado, investindo em ações de marketing, internet, eventos e estreitando o relacionamento com os leitores e fãs. Estamos muito lisonjeados por ter o melhor título de mangá do Brasil; “Naruto”; e maior título do Japão; “One Piece”.

Temos grande expectativa para One Piece e esperamos trazer grandes títulos ainda este ano.

Beth Kodama – Como eu não cuido dessa parte, acabei fazendo a função de “consultora”. Eu tenho um contato bastante restrito com os licenciantes e não tenho nenhum contato com o autor. Basicamente mando o material pra aprovação da agenciadora e ela manda pro pessoal da Viz que por sua vez manda pros agenciadores no Japão ou pro próprio autor aprovar. As minhas expectativas? Espero que os leitores gostem, claro! Estamos fazendo isso pra eles!

Gyabbo! – Sobre tradução e adaptação, que cuidados a Panini tomou para torná-las o mais fiel possível ao original sem perder a fluidez do texto em português? Quais as principais diferenças da tradução/adaptação da época da Conrad para a versão da Panini?

Beth Kodama – A Drik está fazendo um trabalho excelente, como de praxe. Porém, decidimos adotar um método diferente dos demais mangás do Planet Mangá em relação à adaptação. Ok… concordo que isto aqui é a parte que citei como “mimos” antes. É um título bem mimado…

Basicamente, o método da adaptação de One Piece é mais minuscioso. A Drik me manda a tradução, eu faço o copydesk “comentado”, mando de volta pra ela, ela me manda de volta com novos comentários dela e assim por diante até chegarmos num acordo. Isso quer dizer que estamos comentando com muito detalhismo FALA POR FALA. E isso é antes de ser letreirado, lógico. Antes de mais nada, decidimos adotar várias padronizações, que como toda regra, tem exceções também.

Gyabbo! – Em Março devemos ter a volta também de outro clássico e colosso dos mangas shounen, Dragon Ball. Sendo uma editora mulher, você acredita que quadrinho no Brasil que vende muito é apenas aquele voltado para o público masculino (ainda que muitas garotas leiam e gostem de One Piece e Dragon Ball)?

Débora Kamogawa (a editora de DB) – Creio que os mangás shounen vendem mais não por serem voltados ao público masculino, mesmo porque aqui no Brasil muitas garotas leem shounen, assim como garotos leem shoujo. Acho que esses títulos vendem mais por serem mais conhecidos pelo público brasileiro, graças ao animê (como é o caso de Naruto e Dragon Ball) ou por fazerem muito sucesso no exterior. Mas existem mangás shoujo que estão fazendo sucesso aqui no Brasil, como o Kimi ni Todoke.

Beth Kodama – Sei lá… não tenho “números” pra dizer pra você o que vende e o que não vende e os motivos de algo vender e outro tão bom quanto, não. Mas existe uma “predominância masculina”. Mas o mundo gira e as coisas mudam… também tenho visto muitos homens, hoje, assumirem seus lados românticos, dizerem com orgulho e sem medo que gostam de coisas românticas. Acho que mangá no Brasil virou uma coisa meio “unissex”. Olha o Kekkaishi, por exemplo. É shonen, mas com sutilezas românticas (o herói da história é um romântico por natureza). As histórias são excelentes… até chorei num capítulo!!! Na Alemanha vende pra caramba! Já aqui não é a mesma coisa…

Gyabbo! – Muito se falou após o anúncio das capas de One Piece sobre as questões estéticas das mesmas, alguns gostando, outros nem tanto. Em comentários no Facebook você disse que muitas versões foram tentadas até que a atual fosse aprovada pelos licenciadores. Como eram suas ideias iniciais, porquê o veto dos japoneses e qual é a ideia do novo fundo já que não puderam ser incluídos os mapas?

Beth Kodama – Então, vocês já sabem… Fomos proibidos de usar qualquer tipo de mapa no fundo. Primeiramente, notei que não haviam enviados os arquivos do mapa. Cheguei a encontrar qual mapa era e em que biblioteca estava (coincidentemente, está no Brasil, no Rio de Janeiro) caso precisássemos comprar o uso de imagem. Mas queria mesmo é usar um mapa do One Piece, na contra-capa do artbook (o Color Walk 1, no caso). Ambas as ideias foram vetadas.

Bom… o motivo de ser vetada eu não sei. No fim, por causa da pressão dos prazos, acabamos aceitando a ideia dos “raios” – que surgiu de um brainstorm simples baseado em “amanhecer” (essa palavra é muito importante em One Piece), [spoiler] “thousand sunny”, “o raiar de um novo dia”. Outra ideia era “vazar” as imagens de capa, mas foi vetada. Temos que usar as imagens na mesma posição, com o mesmo requadro, com as mesmas cores nas logomarcas ou cores próximas, casos sejam cores especiais, etc. Vida de designer não é fácil, não.

Gyabbo! – A ideia de lançar One Piece em duas frentes, uma desde o início e outra desde onde a Conrad parou foi ideia da editora Panini, veio dos japoneses? Nos conte um pouco desse processo de escolha.

Catharine Paulossi – Lançar One Piece em duas frentes era uma idéia bem vaga no começo das negociações. Porém, devido a muitos pedidos dos fãs e considerando uma oportunidade dentro do mercado, resolvemos seguir em frente. Eu sugeri a idéia para os editores, diretoria e todos acharam a idéia ótima. Vamos torcer para que seja um sucesso e quem sabe, aplicar a mesma estratégia para outros título já lançados no mercado.

Beth Kodama – Não sei quem decidiu, mas não fui eu, porque eu não decido nada dessas coisas. No máximo, dou palpite. Eu acho a ideia boa… provavelmente muitos não leram até o volume #70 da Conrad, mas a série paralisou num momento crítico!!! Fiquei estarrecida na época (com as páginas duplicadas também).

Gyabbo! – One Piece veio uma vez ao país e não deu certo. Deixe uma mensagem aos leitores do porquê eles devem comprar One Piece da editora Panini.

Beth Kodama – Acho que precisamos pensar nas razões que levaram a não dar certo daquela vez. Percebe nenhuma dessas razões está presente hoje? Por isso, estou otimista, acho que desta vez, vai dar certo! O que eu posso dizer é que, estamos trabalhando com muita dedicação para satisfazer os leitores. Será uma versão muito diferente da versão da Conrad, pois até a tradutora, muitos anos mais experiente agora, está tendo a chance de fazer tudo de novo sob um novo olhar! Creio que, por isso, podem comprar sem medo.

Catharine Paulossi – Ressaltando o que nossa editora disse, estamos trabalhando com muita dedicação neste segmento, para trazer títulos novos, melhorar ainda mais a qualidade editorial, gráfica e portfólio, atendendo a todos os tipos de público. A Panini não tem mais intenção no cancelamento dos títulos, mesmo que o mesmo estiver dando prejuízo. Alguns podem até ser postergados para amenizar a situação, mas cancelamento é a menor das hipóteses.  Espero que gostem de One Piece 2012! Vamos torcer para o sucesso!

Estamos cada vez mais próximos da volta do manga mais […]