Our Alliance – A Lasting Partnership: Os militares americanos e o moe

Ou, como as Forças Armadas dos Estados Unidos apelaram para o manga Our Alliance – A Lasting Partnership para se explicarem aos japoneses.

Um belo dia Arai Anzu, uma menina japonesa comum, dá de cara com um garotinho americano que usa um capuz com enormes orelhas de coelho. Ele anuncia que vai morar com Anzu para protegê-la porque ela é a “sua preciosa aliada e amiga”.

Parece a sinopse de um manga ou anime genérico, desses que aparecem aos montes em livrarias e na televisão japonesa, só que não é.

personagens

Os protagonistas. Arai Anzu é a pronúncia japonesa da palavra “Alliance”. Usa-kun é um trocadilho com a palavra “usagi”, que é coelho em japonês.

O manga Our Alliance – A Lasting Partnership (わたしたちの同盟 — 永続的パートナーシップ), foi criado em 2010 por Yukio Hirai, um especialista em “mili-moe” (garotas militares moe), por encomenda das Forças Armadas dos Estados Unidos. O objetivo explícito era comemorar os 50 anos do Tratado de Cooperação Mútua e Segurança entre Estados Unidos e Japão. Entretanto, a missão dos personagens Arai Anzu e Usa-kun ia muito além disso: Eles deveriam ajudar a conquistar uma maior aceitação e apoio dos japoneses à presença de bases militares norte americanas em seu território.

Se você não fugiu das aulas de História deve saber que os Estados Unidos mantêm bases militares no Japão há muito tempo, e que parte da população local, principalmente quem mora perto dessas bases, não gosta nada disso. Mais até do que questões de soberania, o que realmente incomoda os japoneses é a poluição ambiental e sonora causada pelos exercícios de combate, e principalmente crimes envolvendo militares. Numa tentativa de melhorar essa situação, o Departamento de Relações Públicas das Forças Armadas decidiu lançar um manga. A ideia era atrair o interesse e a simpatia dos japoneses mais jovens usando uma mídia popular para comunicar-se com eles.

usa-kun

Usa-kun é o americano que os japoneses aceitam melhor

Usar filmes, quadrinhos e mangas para fins educativos ou de propaganda política/ideológica não é nenhuma novidade. O que desperta curiosidade no caso de Our Alliance é a grande liberdade artística que o autor teve. Os militares realmente queriam que fosse uma obra feita por japoneses para japoneses. Assim, embora todos os tópicos que pudessem gerar controvérsia fossem cuidadosamente censurados pelo Pentágono, não houve interferência na parte artística. O personagem Usa-kun, que representa os Estados Unidos, não é o herói alto e forte como os americanos gostam de se ver, e sim um garoto pequenino e fofinho, do tipo que os japoneses aceitariam muito mais facilmente. Em lugar do discurso mais explícito e agressivo, do tipo “se não estivermos por perto o inimigo vai destruir vocês!”, o manga transforma os inimigos em baratas e faz Usa-kun dizer, “Vamos matar baratas juntos!”. E é claro que a Anzu, enojada com o inseto, responde “Não, não, você mata elas!”.

Por se tratar da obra de um especialista em moe, algumas pessoas chegaram a perguntar se Our Alliance não seria um manga de harém, já que no primeiro volume aparecem várias personagens femininas em volta do único personagem masculino, o Usa-kun. O relações públicas dos militares à época do lançamento da obra, Major Fisher, respondeu “(…) Nós precisamos manter a nossa sensibilidade ocidental fora disso. De qualquer forma, o volume dedicado aos Fuzileiros Navais terá mais personagens masculinos”.

fofinhos

Personagens fofinhos enfeitando um texto explicativo

Se por um lado houve bastante liberdade artística, por outro o manga se manteve rigorosamente focado em seu objetivo principal: fazer propaganda. Começa com um fiapinho de história para apresentar os personagens e divertir um pouco, depois entram as páginas mais didáticas, falando sobre democracia, igualdade etc. Como era de se esperar de uma obra com tal finalidade, não há questionamentos nem conflitos, apenas dois personagens bonitinhos servindo de “orelhas” para apresentar informações e de vez em quando fazendo uma gracinha para tornar a coisa toda menos chata.

Our Alliance – A Lasting Partnership é um exemplo bastante curioso do uso do manga como instrumento de propaganda. Se os fofinhos e amáveis Arai Anzu e Usa-kun conseguiram cumprir sua missão, não dá para saber com certeza. Mas os acessos ao site das Forças Armadas Norte Americanas no Japão comprovadamente aumentaram muito logo depois do lançamento do manga.

FONTES:

The Telegraph (inglês)

Artigo de Sabine Fruhstuck, para o The Asia-Pacific Journal (inglês)

Sobre liviasuguihara

Instrutora de inglês, "arteira", amante de animes e mangás. Você também me encontra no Twitter (@lks46), no Deviantart (https://liviaks.deviantart.com/), e no Instagram (liviasuguihara).

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4 thoughts on “Our Alliance – A Lasting Partnership: Os militares americanos e o moe”

  1. Tipo, não vamos limpar o lixo militar, nem fazer menos barulho, nem parar de cometer crimes (Tenho medo de saber do que se trata), vamos convencer eles de que isso é bom! Não desmerecendo o autor nem nada, mas a ideia toda por trás disso cheira mal.

    1. Houve alguns crimes bem pesados mesmo. A razão maior para os japoneses se sujeitarem (além de questões referentes à Segunda Guerra) é provavelmente o receio de um ataque da Coréia do Norte.

      Valeu por comentar! ^^

  2. Propaganda dos EUA pura e simples, pra minar qualquer resquício de patriotismo do japoneses. Não ficaria admirado se soubesse que o autor recebeu algum patrocínio do governo dos EUA ou pra ser menos descarado, de alguma multinacional americana.

    1. Se o autor recebeu algo além do pagamento pelo serviço eu não sei, mas com certeza escolheram ele a dedo. Afinal, o homem é especialista em moe…

      Obrigada por comentar! ^^

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