Watashitachi no Shiawase no Jikan – Mangá

A tênue linha entre a culpa e a inocência trabalhada de uma forma bela e trágica. Peguem os lenços e venham conhecer o manga Watashitachi no Shiawase no Jikan! Só não vale usar a desculpa do cisco no olho, hein!

Antes de começar o texto, é necessário avisar que ele pode conter alguns spoilers, mesmo não contando o desfecho da história. Os spoilers são necessários para explicar um pouco da relação entre culpa e inocência que são trabalhadas de forma bastante interessante. Sabendo disso, somos apresentados à Juri, uma ex-pianista que trabalha em uma escola dando aulas, mas que não tem o menor prazer ou satisfação nisso e muito menos em sua própria vida, sendo vítima de problemas familiares e depressão. A história começa com a terceira tentativa de suicídio da moça, que mais uma vez foi falha.

Mais tarde, no hospital, Juri é visitada pela sua tia Monica, uma freira de bom coração que realiza trabalhos voluntários junto ao presídio da cidade e, na tentativa de fazer Juri dar mais valor à sua própria vida, ela a convida para realizar visitas aos condenados no corredor da morte. Mesmo a contragosto, a mulher vai e lá conhece o prisioneiro Yuu, que já assassinou três pessoas. Em meio a algumas conversas que eles tem todas às quintas-feiras, Juri e Yuu compartilham suas vontades de morrer e suas histórias, mas juntos, acabam por começar a descobrir, em si mesmos, a vontade de viver.

Watashitachi 2

Watashitachi no Shiawase no Jikan tem um nome meio complicado, mas também pode ser chamado pelo seu nome em inglês, “Our Happy Time”. Foi publicado na revista Comic Bunch entre março e agosto de 2008 em uma minissérie de oito capítulos, totalizando um volume único. Adaptado em mangá diretamente de um livro chamado “Maundy Thursday” escrito pela famosa romancista sul-coreana Gong Ji-Young, Watashitachi teve como presente a arte belíssima de Yumeka Sumomo. Quem não está ligando o nome à pessoa, Sumomo é a mesma artista que adaptou em mangá a linda obra de Makoto Shinkai chamada Hoshi no Koe que foi publicada no Brasil pela editora Panini. Sem falar que Yumeka Sumomo é apenas um pseudônimo que a autora usa, sendo dona também dos pseudônimos Mizu Sahara para obras seinen e Keita Sahara para shoujos.

Algumas questões bastante polêmicas são abordadas na obra, como pena de morte e o suicídio. Somos apresentados ao drama de Juri, a ex-pianista que deseja morrer a todo custo pois já não aguenta mais a péssima relação com a sua mãe e o seu trauma de juventude em relação ao piano que sempre amou tocar. Após um relativo sucesso, seu sonho de encantar as pessoas através de suas notas é praticamente bloqueado e destruído por sua mãe e padrasto, deixando assim um profundo vazio em sua alma. Juri acaba isolando-se e cria uma barreira para não se apegar às pessoas que estão sempre julgando seus atos ou a sua falta de fé em Deus. Mas é exatamente através de uma freira, a sua tia Mônica, que alguns caminhos se abrem para ela conhecer Yuu, tão destruído psicologicamente quanto ela.

Watashitachi 3

Yuu sempre foi um delinquente em sua juventude, mas deixou essa vida de lado quando conheceu um garoto de rua e passou a cuidar dele como se fossem irmãos. Um sempre defendia o outro nas ruas, sendo órfãos como eram, não tinham escolha a não ser viver um dia de cada vez, até que uma vez Yuu ouviu uma moça tocando piano numa janela e aquela melodia o fez pensar que a vida poderia ser melhor. Mas como nem tudo são flores, seu irmão foi atacado por um oportunista nas ruas e no ímpeto de defendê-lo, Yuu acabou derrubando uma criança e uma senhora na linha do trem antes de estourar os miolos do agressor de seu irmão. Três mortes de uma vez e Yuu estava sendo condenado à morte apenas por sua vontade de defender quem amava, mostrando que nem sempre as penas são justas (ou injustas).

Ambos, Juri e Yuu, possuem vontade de morrer por suas atitudes. Mas o contraste está justamente aí… * Yuu acabou matando três pessoas por uma boa ação que era defender seu irmão mais novo. Ele poderia ter tomado outra atitude e assim evitado isso, sim, mas na hora da raiva, é difícil julgá-lo. Por outro lado, Juri tem muito ódio por sua mãe ter destruído seu sonho e por uma ação feita por ela durante o passado. Esse desejo de matar a própria mãe deixa a jovem com vontade de morrer por pensar dessa maneira. Nessa situação, se sequer há um culpado, quem seria mais? Aquele que matou sem querer para defender alguém, ou aquela que deseja matar por vingança, mas ainda não realizou o ato?

Watashitachi 4

Outra questão é sobre a pena de morte, algo bastante discutido, assim como a culpa e a inocência das pessoas. Esse é um assunto bastante delicado, mas lendo o mangá acabamos por ter uma visão diferente em que a história e a situação de cada pessoa faz um culpado ou um inocente, tudo dependendo do seu contexto. Realmente é algo para se pensar, afinal nem tudo nesse mundo é preto ou branco… O cinza também existe e tem suas razões para existir. Parafraseando um vigilante do presídio onde Yuu é condenado, nem todo mundo é só mal, assim como nem todo mundo é só bem. Pessoas boas podem tomar atitudes más e vice-versa, é isso torna os seres humanos tão complexos e interessantes.

Contrastando com esse drama, a arte de Yumeka Sumomo é perfeita! Seu traço leve e o trabalho com retículas deixa a obra num clima entre o bonito e o desespero. É um contraste estranho para um traço, principalmente porque geralmente histórias desse calibre possuem traços bastante finos, mas a artista cria contornos mais grossos que os habituais. As expressões dos personagens também conseguem transmitir bastante sentimento e algo interessante é o olhar de Yuu e como ele vai mudando com o passar das conversas com Juri. Seu olhar era fino e ríspido, com uma pupila bem pequena se comparado ao da garota, típicos olhos de quem não consegue enxergar nada de bom no mundo. Com o passar das conversas, seu olhar vai ficando mais redondo, sua pupila aumenta e um certo brilho aparece, como se Yuu estivesse sendo reconstruído. O mesmo pode se observar em Juri, mas o grande chamariz para esse detalhe é mesmo o olhar do prisioneiro.

Watashitachi 5

Watashitachi no Shiawase no Jikan vale muito a pena pela visão de mundo que ele apresenta e pela riqueza de sentimentos encrustados em apenas oito capítulos. É praticamente uma leitura obrigatória se você é amante de mangás, sem falar que é uma leitura rápida e pode causar efeitos colaterais como lágrimas e nariz escorrendo. Tá esperando o que para pegar a caixa de lenços de papel?

A tênue linha entre a culpa e a inocência trabalhada […]