Vagabond – Editora Panini – Vol. 1

Enfim Miyamoto Musashi, 99% samurai – mas aquele 1% vagabundo -, volta às bancas e livrarias brasileiras em Vagabond!

Há 15 anos atrás existia uma editora chamada Conrad. Ela era a maior editora de mangas do país, tendo em seu catálogo vários títulos de peso, entre eles os dois arrasa-quarteirões Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball. Só com as vendas destes dois títulos a casa de publicação nadava em lucros e resolveu arriscar alguns mais “desconhecidos” nos anos seguintes.

Em novembro de 2001 a editora lançou em bancas o primeiro volume do recém-lançado no Japão Vagabond, de Takehiko Inoue. Ele seguia o mesmo esquema de todos os mangás lançados na época: metade de um volume japonês (meio-tanko), publicação no sentido oriental, seção de cartas e curiosidades publicadas no final da história. Como novidade, possuía páginas coloridas internas, um detalhe que justificava o seu preço “elevado”: R$ 5,50.

A lendária edição da Conrad ao lado da nova edição da Panini

A lendária edição da Conrad ao lado da nova edição da Panini

A história narrava a vida do mais famoso samurai do Japão: Miyamoto Musashi. Homem controverso, ele desprezava a etiqueta dos samurais e sempre se trajava de forma andrajosa (daí a fama de vagabundo). Porém, desenvolveu técnicas de esgrima mortíferas, fazendo uso de duas espadas ao mesmo tempo, e escreveu o Livro dos Cinco Anéis, um engenhoso tratado filosófico sobre o caminho do guerreiro.

O autor, Takehiko Inoue, usa como base o livro “Musashi”, escrito por Eiji Yoshikawa, para narrar a história do samurai (que possui poucos registros históricos), porém não se prende a ele: faz suas próprias interpretações, algumas vezes um tanto polêmicas (como retratar o maior rival de Musashi, Kojiro, como um surdo). O título foi lançado no Japão em 1999 e segue até hoje.

Num mercado que estava apenas dando seus primeiros passos, aquele título chamou a atenção. Tratava-se de uma história séria, com uma qualidade artística primorosa. Não era como os outros títulos que estavam em bancas. Muitas pessoas estranharam, alguns chegaram até a dizer, na época, que Vagabond não era manga porque “o desenho era realista demais”. Sim, não se sabia muito sobre a arte japonesa de quadrinhos naqueles tempos – embora cagadores de regras já existissem desde muito antes.

vagabond_by_stingray245-d3d616xO título, apesar de não possuir nenhuma publicidade prévia com animes na televisão brasileira (requisito básico para a maioria dos mangas chegarem aqui em seus primórdios), rapidamente se tornou um sucesso, atraindo a atenção até das pessoas que desprezavam o manga – atraídos pelo roteiro maduro e arte belíssima. Vagabond seguiu como um titulo de alta vendagem até sua edição 40 (correspondente ao vigésimo volume japonês). Nesta época o autor, Inoue, precisou fazer uma longa pausa para colocar a cabeça no lugar e repensar a série. Um golpe duro tanto nos fãs quanto na editora: a Conrad acabava de perder um título rentável.

Uma forma de tentar contornar o problema do hiato foi o lançamento da chamada “Edição Definitiva”. Um manga de luxo, com capa dupla, formato maior, primor gráfico e cujo preço… bem… era realmente exorbitante para a época: R$25 nos primeiros oito números e R$27.90 nas demais, ainda que merecido pela alta qualidade. Com o fim do hiato, o manga pode retornar em suas versão meio-tanko até a edição 44. Porém uma nova pausa ocorreu e, desta vez, não foi culpa do Inoue, mas dos problemas que  a Conrad vinha enfrentando há algum tempo.

Lombada e contracapa caprichada na edição da Panini

Lombada e contracapa caprichada na edição da Panini

A editora chegou a proclamar que iria retomar o manga apenas na sua versão de luxo, o que enfureceu os fãs. Mas nem mesmo esta ela conseguiu dar continuidade: a Edição Definitiva seguiu até a edição 15. Após anos sem novidades oficiais da Conrad, estava claro: Vagabond havia sido cancelado.

Anos depois, em 2012, uma outra editora anunciou que tinha adquiridos os direitos de Vagabond: Nova Sampa. Esta tomou uma decisão ainda mais polêmica: a de começar a publicação de Vagabond pelo volume 16! E no mesmo formato antigo da Conrad! Para piorar, o preço havia aumentado ainda mais: R$ 40,00. Impraticável em todos os sentidos: exigia que os fãs antigos ainda tivessem aquelas edições da Conrad até o presente momento E que os fãs novos aguardassem sabe-se-lá quanto tempo até que a editora resolvesse lançar os volumes a partir do número 1. O desempenho foi vergonhoso e, após as edições 16 e 17 naufragarem, o título foi cancelado de novo.

Enfim, sem saber exatamente qual seria o destino de Vagabond no Brasil, a editora Panini anuncia, em 2015, que traria a obra de volta com a qualidade, o tratamento e o acesso que ela merecia. E hoje, neste mês de março de 2016, Vagabond #1 retornou triunfante às bancas brasileiras.

capaA história começa logo após a Batalha de Sekigahara (1600), evento que moldou o Japão pré-moderno. Musashi (que na época usava o nome Takezo) estava na batalha, do lado dos perdedores. Depois de sobreviver ao conflito ele auxilia seu amigo de infância e companheiro, Matahachi, à procurar abrigo. Eles são recebidos na casa de duas mulheres misteriosas e acabam se envolvendo num embate com um grupo de bandoleiros. Após este dia, Musashi decide que quer vagar sem destino, sempre se aprimorando no caminho da espada – porém, os eventos que o aguardam no futuro próximo podem mudar sua visão de mundo.

A edição da Panini vem no mesmo padrão de capricho de Planetes: páginas coloridas iniciais (embora bem que poderia ter mais), capa com orelhas, detalhes com verniz e papel de ótima qualidade. O preço é R$ 17.90, bastante razoável. A periodicidade será mensal… algo que deixa os fãs com uma pulga atrás da orelha por dois motivos.

À direita, a versão da Conrad, que possuia mais páginas coloridas (e que continua muito bem preservada!) em comparação com as páginas preto e branco da panini

À direita, a versão da Conrad, que possuía mais páginas coloridas (e que continua muito bem preservada!) em comparação com as páginas preto e branco da Panini

Primeiro: Vagabond está novamente em hiato no Japão, tendo chegado até o seu volume 37. É verdade que até alcançarmos os japoneses teremos três anos e meio pela frente, mas ainda assim me pergunto se esta periodicidade é adequada, principalmente pelo preço, que é meu segundo ponto: a edição da Panini merece este valor? Com certeza, mas são muitos os fãs que colecionam mais de um título por vez, podendo pesar no orçamento.

De uma maneira geral, os ventos estão soprando à favor desta nova empreitada de Musashi nas bancas e livrarias brasileiras. A Panini fez um bom trabalho e vamos torcer para que o mantenha – e que para Inoue conclua, enfim, esta grande saga!

Enfim Miyamoto Musashi, 99% samurai – mas aquele 1% vagabundo […]