O curioso costume de presentear com dinheiro

dinheiro como presente

Para os ocidentais, oferecer dinheiro em certas ocasiões pode parecer estranho, até mesmo ofensivo. Para os japoneses é absolutamente normal.

Quando um parente ou amigo está se recuperando de uma doença, é preciso dar o Omimai.

Quando um parente ou amigo vai se casar, é preciso dar o Kotobuki ou Gokekkon Iwai.

Quando um parente ou amigo morre, é preciso dar o Koden.

Para agradecer a alguém por uma grande ajuda ou favor, é preciso dar o Orei.

No ano novo, é preciso dar o Otoshidama para os membros mais novos da família.

OmimaiKotobuki, Koden, Orei e Otoshidama são doações em dinheiro – em algumas ocasiões pode ser um presente, mas na maioria dos casos é dinheiro – e seguem algumas regras bem específicas: as quantias variam conforme o grau de intimidade e a condição financeira de quem vai dar o presente, só não podem ser valores como quatrocentos, quatro mil, quarenta mil, pois o número quatro em japonês, shi, soa como a palavra “morte”. Além disso é preciso que sejam entregues dentro de envelopes especiais, os noshibukuro, apropriados cada ocasião. Por exemplo:

envelopes com cordoes

Envelopes para dinheiro. As cores dos cordões e o modo como são atados dependem da ocasião

Omimai – envelope fechado com cordão vermelho e branco amarrado em nó.

Kotobuki – envelope fechado com cordão vermelho e branco amarrado em nó. As notas devem ser novas, se possível que nunca tenham circulado antes.

Koden – envelope fechado com cordão preto e branco ou amarelo e cinza, amarrado em nó. As notas devem ser velhas. Notas novas dão impressão de que a morte era esperada.

Orei – envelope fechado com cordão vermelho e branco amarrado em laço.

Otoshidama – envelope pequeno, branco ou decorado com motivos infantis, dependendo da idade de quem vai receber. As notas devem ser dobradas em três.

envelope simples

Modelo mais simples de noshibukuro, com o desenho do cordão impresso em vez de um cordão verdadeiro.

Quem mora em São Paulo e frequenta o bairro da Liberdade já deve ter visto em algumas lojas envelopes com o desenho dos cordões impresso, uma alternativa mais prática e barata para acondicionar esses presentes em dinheiro. Praticidade, aliás, é muito provavelmente o principal motivo para esse costume curioso. Para quem está se recuperando de uma doença o dinheiro do Omimai ajuda a pagar remédios, para quem está se casando o Kotobuki será uma mão na roda para começar a vida a dois. A origem da complexa etiqueta em relação a esse uso do dinheiro é nebulosa. Existe a hipótese de haver um fundo religioso, mas não é nada comprovado.

À exceção do Otoshidama e do Orei, espera-se que aqueles que recebem o dinheiro retribuam mais tarde. A forma varia conforme a ocasião, mas de modo geral a retribuição não é em dinheiro. Por exemplo, no caso do Koden, pode ser uma toalha ou algum outro item para casa, não precisa ser uma coisa cara, mas deve estar embrulhada com capricho. No Japão há empresas especializadas em fornecer esses presentes de retribuição.

otoshidama

Alguns modelos de envelopes para Otoshidama.

No Brasil ainda há famílias de descendentes de japoneses que seguem a tradição de presentear com dinheiro embora muitas já não atentem muito para os detalhes como o tipo de envelope ou se as notas devem ser velhas ou novas. Na minha família, quando precisamos dar um Kotobuki ou um Koden usamos um envelope branco comum mesmo.

É verdade que atualmente, mesmo no ocidente, presentes em dinheiro já não são considerados tão impessoais e muita gente chega a pedir por eles principalmente em ocasiões como aniversários, formaturas e casamentos. Quem sabe algum dia chegaremos a ter uma versão brasileira de um Omimai ou de um Otoshidama?

FONTES:

http://www.nipocultura.com.br/?p=1278 (português)

http://www.japaoemfoco.com/hikidemono-e-kinpu/ (português)

http://everything2.com/title/Gift+giving+in+Japan (inglês)

https://classicbudoka.wordpress.com/2012/07/18/68-orei-giving-thanks-or-sanctioned-bribery/ (inglês)

http://www.japaoemfoco.com/otoshidama-a-tradicao-de-ano-novo-para-as-criancas/ (português)

Sobre liviasuguihara

Instrutora de inglês, "arteira", amante de animes e mangás. Você também me encontra no Twitter (@lks46), no Behance (https://www.behance.net/lksugui7ac5), e no Instagram (liviasuguihara).

Para os ocidentais, oferecer dinheiro em certas ocasiões pode parecer […]

15 thoughts on “O curioso costume de presentear com dinheiro”

  1. Apesar de agradecer a todos os presentes que recebo, sinto um certo incômodo quando recebo presente em dinheiro. O motivo é que me dá a impressão de que a pessoa não sabe o que gosto nem se deu ao trabalho de pensar um pouco. Acredito que isso se encaixe na parte da impessoalidade que você disse no texto. Em todo caso, achei o post bem interessante. Conhecia a tradição de dar dinheiro para alguém quando um parente morre (obrigada, Usagi Drop), mas não fazia ideia de todos os outros. Muito obrigada pelas curiosidades. :D

    1. Realmente, presente em dinheiro é prático mas não tem aquela emoção… Talvez por isso exista a regra dos envelopes com cordões coloridos, e os tipos de amarração e tudo o mais.

      Eu que agradeço pelo seu comentário, Rikka <3

  2. No caso de casamentos, aqui no Brasil tem o costume de “comprar parte da gravata” do noivo e, atualmente, está sendo costume “colocar dinheiro no sapato da noiva”.

    Além disto, no caso de crianças, já esta sendo costume dar dinheiro mesmo em vez de um presente (pelo menos na minha família). As crianças estão crescendo “mentalmente” mais rápido, e, as vezes, com 10 anos, dar um carrinho ou uma boneca já não é interessante pra criança. Então, minha mãe, que é madrinha, costuma dar dinheiro logo de uma vez. Ela só não tem este cuidado de colocar em um envelope chique.

    1. O da gravata eu conheço mas dinheiro no sapato da noiva é novidade pra mim…
      O japonês faz muita questão de caprichar na embalagem^^ Os chineses também dão dinheiro pras crianças no Ano Novo mas aí o envelope é vermelho, que pra eles é cor de boa sorte.

  3. No mangá Investor Z (do renomado Norifusa Mita, autor de Dragon Zakura e premiado por consegui ensinar de uma forma didática e divertida nesse mesmo mangá) tem uma explicação curiosa envolvendo mangá e essa prática de oferecer dinheiro japonesa.

    Em uma conversa sobre investimentos passados que fizeram o Japão o país que se tornou, um grande investidor comenta para o protagonista que essa pratica japonesa foi um dos pontos cruciais para o boom dos mangás no Japão decadas atrás após a guerra. Em vez de receber presentes, as crianças recebiam dinheiro. Era no ano novo, quando ficavam doente, quando parentes visitavam e como presente em geral também. Elas recebiam uma quantia até no colégio o qual também as ensinavam o valor do dinheiro e como precisavam economizar. Tudo isso fez com que as crianças tivessem um poder financeiro bem robusto. Obvio que uma das coisas principais em que elas gastaram o dinheiro foi com os mangás. Então a demanda para mais mangás aumentou muito e proporcionou o boom que consolidou a industria dos quadrinhos japoneses. Claro que não foram só os mangás, mas até a própria industria do entretenimento japonesa acabou seguindo a onda e ficou bastante infantilizada – e diga-se de passagem até hoje é assim lá.

    Como essa explicação vem de um autor de renome em ensinamentos, eu acredito que ela é autêntica.

    1. Faz sentido. Isso me lembra que há alguns anos, na tentativa de amenizar a crise economica o governo japonês deu dinheiro para idosos e crianças, com a condição que eles deveriam gastar, não podiam guardar.

  4. Não sei porque aqui no ocidente isso é ofensivo.

    Meu pai, minha mãe e minha avó sempre preferiram me dar dinheiro de aniversário, pois assim eu iria comprar o que eu quisesse e com o meu gosto. (Evitando trocar o presente na loja por não ter gostado).

  5. No Ocidente não é nada estranho. Pelo menos em Portugal não é. Isto é, depende das ocasiões. Mas dar dinheiro em aniversários, batizados, Natal, Páscoa, comunhões, (…), é muito comum.

  6. Entre parentes acho que hoje em dia é bem comum, inclusive é visto de forma positiva: se seus avós ou tios te dão dinheiro, você pode comprar o que quiser no lugar de ganhar mais um par de meias ou algo assim.

    Já entre amigos, ainda pega mal: é subentendido que eles conhecem você e seus gosto melhor que parentes como tios, primos e avós, então se é amigo de verdade vai saber o que comprar pra te agradar, o que só ferra gente que não sabe comprar presente feito eu.

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