Mangas Undergrounds #8 – Dorohedoro

coluna-mangas-undergroundsDorohedoro é um mangá em publicação desde 2002 na revista seinen Ikki (a mesma que publica Fressia, já comentado nesta coluna na sua edição #2), atualmente possui 17 volumes, sendo que destes oito já foram publicados pela americana Viz Media. A obra é de autoria da mangaka (isso mesmo, no feminino) Q Hayashida, ex-assistente do renomado Tetsumo Nihei (Blame, Biomega, Abara).

Dorohedoro1

No universo de Dorohedoro existem dois mundos: o mundo dos usuários mágicos, onde vivem os que conseguem produzir uma fumaça negra, e Hole, onde vivem todos os não-magos. Os usuários mágicos podem viajar livremente entre os mundos e usam de Hole como campo de teste para treinar os seus poderes, resultando em um mundo podre, poluído e cheio de pessoas deformadas.

É nesse cenário que somos apresentados, já na primeira página do mangá, ao nosso personagem principal, Kaiman:

Dorohedoro2Sim, essa é a primeira página do mangá e não, o personagem principal não é o homem que está sendo engolido por um lagarto gigante,  é o próprio lagarto gigante. Kaiman é um homem com uma cabeça de réptil, sem memórias de seu passado, nem de como ou porque está nesse estado. A única coisa que ele sabe é que quando engole alguém um homem surge de dentro de sua barriga e diz alguma coisa. É então que Kaiman cospe a pessoa e pergunta “O que foi que o homem dentro de mim te disse?

Com a ajuda de sua amiga Nikaido, uma mulher que também possui um passado misterioso, Kaiman vaga por Hole em busca do usuário mágico que poderá responder às suas perguntas. Esse primeiro núcleo acaba dividindo espaço com um segundo, que foca na vida e no mundo dos usuários-mágicos, mais especificante em En, o grande líder de uma organização mafiosa que procura o tal homem-lagarto que tem causado a matança de magos em Hole.  Assim, Shin e Noi, uma dupla de capangas extremamente carismáticos e poderosos à serviço de En vão em sua busca detetivesca à procura de Kaiman.

Como se tudo isso já não fosse o bastante, ainda temos um grande plot envolvendo um grupo de magos que não conseguem usar magia, um médico que realiza experimentos em usuários mágicos, uma subtrama que incrivelmente envolve poderosos demoníacos e uma fada que faz gyoza. Tudo isso no cenário que só pode ser uma das premissas mais bizarras já concretizadas em uma obra.

Mas tudo bem, se a ideia geral desse mangá não chocou tanto alguns dos leitores, uma coisa certamente salta em nossas caras na primeira batida de olhos: a arte.

Dorohedoro3“Poluída” certamente é a primeira definição que a maioria das pessoas usaria pra definir Dorohedoro, e apesar de não ter certeza até que ponto esse seria o melhor adjetivo pra descrever a obra, eu concordo que a arte desse mangá não é exatamente de fácil assimilação. Diferentemente de mangás de grande circulação que realmente buscam a maior variedade de público possível e, portanto, tem estilos artísticos mais comuns, ou, até arrisco dizer, mais padronizados, Dorohedoro não foi produzido com foco comercial, vários testes e experimentações resultaram no mangá que a autora possui hoje. Se a obra teve algum objetivo mercadológico foi justamente buscar o diferente.

O que estou querendo dizer é: É poluído? Talvez, mas mesmo que seja, simplesmente combina com toda a temática do mangá. Hole é o lixo que os porcos não comeram no mundo dos usuários mágicos e isso é possível de se perceber só de observar os cenários da cidade. Além do que, a qualidade técnica da arte só cresce ao decorrer da obra, a melhora que temos durante os 8 primeiros volumes é perceptível até por olhos menos atentos, realmente percebe-se que as experimentações da autora foram positivas. Só quero deixar claro que se a arte desse mangá não agradou de começo, isso não quer dizer que o mangá não irá lhe agradar.

Ainda sobre a arte, para quem conhece Tsutomo Nihei e escuta falar que Q Hayashida foi sua aprendiz, é algo que faz muito sentido, mas que ao mesmo tempo faz a autora crescer em nossas mentes. Hayashida pega tudo que aprendeu com seu mentor, principalmente no que tange ao design de monstros e arquitetura de edifícios e acrescenta o seu ar único e estilo próprio. Isso é possível de se notar, por exemplo, no character design dos seus personagens. Mesmo os que não possuem nenhuma deformidade, ou melhor, principalmente os que não possuem nenhuma deformidade monstruosa, são extremamente únicos e simpatizáveis, diferentemente de seu mentor que possui um design mais padrão para personagens humanos.

Dorohedoro4Mas não é só na arte que Dorohedoro se diferencia de outros mangás. É um pouco difícil explicar isso, mesmo porque é algo que se escuta de qualquer pessoa que recomenda uma obra, mas o roteiro também segue um padrão diferente do que vemos na mídia. A história possui uma estruturação que foge um pouco da clássica “Jornada do Herói”; é um roteiro que lembra mais uma complexa teia de aranha, em que cada pequeno acontecimento e personagem são de extrema importância para a formação geral da história.

É algo que se parece um pouco com a sensação de ler os últimos capítulos de Fullmetal Alchemist em que cada personagem e acontecimento passado teve uma importância significativa para o decorrer dos acontecimentos, só que aqui em uma escala ainda mais extravagante. Em Dorohedoro até o personagem mais secundário de todos pode derrotar o maior vilão de todos da forma mais bizarra de todas. É uma história extremamente imprevisível e que várias vezes utiliza desse caráter para entregar ótimas cenas de comic relief que às vezes podem até se tornar o centro da história. É confuso, mas talvez seja exatamente por aí, Dorohedoro é uma confusão que empolga.

Dorohedoro5Aliás, boa parte dessa imprevisibilidade é resultado de um trabalho muito bem executado com os personagens. Como já disse, o character design já faz a maior parte do trabalho, somente as poucas páginas que usei nesse post já são exemplos de como somente o estilo dos personagens já conquista o leitor. Isso, misturado ao fato dos capítulos serem muito bem divididos entre uma gama de no mínimo nove grandes personagens, faz com que criemos uma enorme simpatia por todos esses “atores”. Fica até difícil escolher um personagem favorito, cada um possui algo que o torne único.

Pra terminar, acho que por mais amplo e genérico que isso possa soar, simplesmente não consigo fugir de dizer que a maior qualidade que consigo citar de Dorohedoro é a originalidade. Não só nos fantásticos character designs ou numa incrível ambientação de mundos, mas também num enredo tão único que verdadeiramente surpreende o leitor pelos caminhos que toma. Q Hayashida fornece um ar novo mesmo para aquele que já está de saco cheio de mangás. É por isso que hoje em dia consigo dizer sem o mínimo remorso de ofender outras obras que Dorohedoro é o meu mangá favorito de todos os tempos.

E é por isso também que…

Dorohedoro6

Eu recomendo: Dorohedoro.

Dorohedoro é um mangá em publicação desde 2002 na revista […]

8 thoughts on “Mangas Undergrounds #8 – Dorohedoro”

  1. Quando a Viz começou a lançar Dorohedoro eu não peguei para ler justamente porque a arte poluída me afastou um pouco. Mas a sua resenha me convenceu a dar uma chance ao mangá!

  2. só encontrei online ate capitulo 64 q eu acho que fica no volume 9, alguem saberia onde tem o resto para ler online? Adorei o manga e to ansioso para ler todo ele!

    1. Jorge dei uma procurada e não achei em português e nem em espanhol, só vai ter em inglês mesmo. No “mangá fox” tem até o capítulo 111.

  3. Eu gosto da arte do Tsutomo apesar de as vezes eu não conseguir entender facilmente o que está acontecendo nas lutas. O título desse mangá sempre chamou minha atenção e agora que lí sua resenha não vou resistir e vou acabar lendo. Espero me divertir.

Deixe sua opinião