Por que as pessoas preferem ver animes a ler mangas?

Na última quinta-feira (12/07) foi lançado um novo podcast sobre mangas – o Mangá² -, resultado da junção de esforços entre O Judeu Ateu do Mangas Undergrounds e o Estranho do Mangatologia.

A ideia do podcast é simples, mas bastante interessante: Divido em três/quatro blocos, comenta-se um assunto diferente a cada semana e depois passa-se para discussão mangas semanais, buscando fazer isso de uma forma mais analítica do que opinativa, diferente do que se costuma fazer nos outros lugares.

E é justamente no primeiro assunto abordado que eu quero conversar um pouco com vocês: Anime versus Manga – Afinal, porque se assiste e comenta mais de animes do que de mangas?

Recomendo, porém, que antes de continuar a ler o texto você confira a própria discussão feita no Mangá², algo em torno de 20 minutos, em uma discussão interessante e bastante dinâmica. Não se preocupe, o post continuará aqui te esperando, pode ir lá, é só clicar AQUI.

Ficou legal o podcast, não? Pretendo ouvir com frequência, mas dependendo do assunto abordado, já que não acompanho semanalmente os manga e não quero pegar spoilers das séries que compro nas bancas como Naruto e One Piece.

Mangas x Animes 

Se você clicou e ouviu (E você aí, por que ainda não foi?) deve ter percebido que foram elencados pelos podcasters várias possibilidades para explicar o fato de que os animes tem mais atenção das pessoas do que os mangas (no que se refere ao público das Américas pelo menos).

Gostaria de aproveitar a deixa do Judeu Ateu e começar essa discussão utilizando-me da argumentação reversa. Porque não ver mais animes do que ler mangas? Como apontou uma das pesquisas feitas pelo Judeu, os animes poderiam ser encarados como uma versão com cores, som e movimento das mesmas histórias que vemos nos mangas, não seria natural eles serem melhores?

No entanto, se eu fizer essa pergunta para 10 fãs, nove irão dizer que não, já que existe uma “regra” extraoficial que diz “Os mangas em praticamente todos os casos serão melhores que suas contrapartidas animadas”. E é aqui que começamos o verdadeiro enigma, se é quase uma lei entre os fãs que os originais serão melhores que suas adaptações, qual é a explicação para a maior parte da atenção recair sobre os animes?

O leitor brasileiro

Um argumento fundamental para nortear essa discussão está em um âmbito mais amplo: O Brasil não lê. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2012) aponta que metade da população brasileira não leu um livro sequer nos últimos três meses anteriores à pesquisa. Pior, dos que leem a média é de ler apenas 2,1 livros completos e desistir de outros dois pelo caminho e 75% dos brasileiros nunca sequer pisaram em uma biblioteca. E por mais que os quadrinhos ainda sejam rebaixados muitas vezes à categoria de literatura de segundo nível, ainda é uma leitura e acaba sofrendo da mesma forma.

Se quisermos entender porque se dá menos atenção aos mangas do que aos animes no Brasil, precisaríamos entender – ou pelo menos esboçar algumas conclusões – sobre o porquê do brasileiro ler tão pouco. Nesta equação entra escolaridade precária, falta de incentivo social à leitura, falta de tempo e até mesmo a preguiça.

Um fenômeno ocidental e a natureza das mídias

No entanto, não é possível levar em conta apenas esse argumento se pensarmos que também esse é um fenômeno não só do fandom brasileiro, mas da América como um todo (não estou levando em consideração a Europa e o resto da Ásia por não conhecer o comportamento do fandom de lá). Assim, precisamos pensar em pontos que façam diferença entre animes e mangas como mídias em si.

No último link, do blog americano Just as Planned, temos o post “Are you anime only? Fans not reading originals as much” (“Você é fã só de anime? Fãs não estão lendo muito os originais” em tradução livre) onde o autor elenca 10 motivos pelos quais ele acredita que os mangas acabam sendo menos consumidos por aqui, mas vou me ater a um que eu acho realmente fundamental: Mangas não foram idealizados para se ler online.

É interessante, esse é de fato um dos principais argumentos usados pelas pessoas que não leem muitos mangas. Enquanto o dinheiro, o espaço físico, a qualidade do produto e outras variáveis interferem no consumo do manga licenciado nas bancas brasileiras (e essa é outra discussão interessante), os scans, por mais fáceis que sejam de se ter acesso, não foram objetivados para serem consumidos em um tela brilhante, mas sim impresso em uma página com tinta preta, confortável para os olhos. Já os animes sim, por mais que em sua maioria sejam feitos para a televisão, fazem parte de uma mídia naturalmente eletrônica, o que ajuda na criação de um comportamento mais amigável com as pessoas que não tem acesso ao produto oficial.

O manga digital, pensado para ser consumido nos computadores, e-books, tablets e smartphones, já é uma realidade, mas ainda está engatinhando, muito aquém da quantidade e longevidade do manga feito para o papel.

A história na construção de um círculo vicioso

Chegamos então em pelo menos um ponto de contraste que pode criar uma diferença entre o consumo dessas duas mídias entre aqueles que a usam de uma maneira não-oficial – O que é o caso da grande maioria de nós. Mas pensando um pouco, se olharmos para trás e refletirmos sobre a própria história da vinda dos mangas e dos animes para o ocidente. No artigo “O de “fã para fã” matou a possibilidade de um mercado de animes no Brasil” aqui do Gyabbo! entendemos que a criação de uma comunidade voltada à popularização dos animes começou nos EUA já na década de 70, solidificando-se progressivamente até construir um mercado mais estável na década de 90, “até seu ápice em 2003, quando chegou a ser um mercado de 4.84 bilhões de dólares“. Já os mangas, foram realmente ganhar força em terras norte-americanas apenas no final da década de 90, explodindo nos anos 2000, como pode ser visto neste outro artigo, “Comic versus Mangas“.

Essa diferença temporal, que no Brasil foi mais grosseira já que tivemos o imenso sucesso de Cavaleiros do Zodíaco e Pokemon na década de 90 para só iniciar o mercado de mangas nos anos 2000, acabou por criar no imaginário popular que os desenhos japoneses (sejam eles animados ou não) eram os “animes”. Assim, boa parte da geração atual de quem assiste e lê mangas foi criada dentro de uma concepção onde o anime era o carro chefe, algo que se reflete até hoje no comportamento do fandom.

Desta forma, tanto o público coloca os animes como prioridade, como os canais de comunicação que falam sobre essas mídias também o priorizam, seja por também estarem dentro desse processo de construção do fã, seja por responderem àquilo que é pedido pelo público – entrando aqui os blogs.

A quebra de paradigmas para a manutenção de algo sustentável

Poderia até colocar aqui questões como o fato do manga exigir mais do leitor do que o anime exige do espectador, seja na conexão dos quadros em uma mesma cena, seja na imaginação de vozes e tons para os personagens, seja pela releitura prévia de um diretor e sua produção em um anime. Mas ao fazer isso estaria diminuindo de forma maldosa a relevância das duas mídias. Apesar da co-dependência que existem entre elas desde os tempos de Osamu Tezuka, precisamos ter em mente que ainda são duas coisas distintas, a serem aproveitadas de formas distintas.

A questão não é e nem pode ser qual dos dois é melhor – a experiência ao consumir uma mídia e outra é algo extremamente pessoal. Não podemos pensar no embate cinema versus literatura. São formas distintas da expressão artística e cultural humana. Devemos pensar muito mais de uma forma sócio-histórica, de como se formou o comportamento do fandom até chegar onde estamos.

Mas essa discussão nos traz para outra muito importante que deve ser feita em outro momento. Se temos no Brasil uma população que não lê e que dá mais atenção aos animes do que aos mangas quando nem sequer temos um marcado de animações japonesas por aqui, até que ponto isso é sustentável a longo prazo? E para as pessoas que criam conteúdo acerca dessas temas – críticos, blogueiros, jornalistas -, qual o nosso papel na modificação desse paradigma que em muito tende a se esgotar com o passar do tempo?

Gostaria de ler suas opiniões nos comentários sobre esse tema.

Se você vê mais animes do que mangas, qual é o motivo? E ao contrário, se você prefere ler mangas a ver animes, por quê?

Aguardo vocês aqui em baixo!

Na última quinta-feira (12/07) foi lançado um novo podcast sobre […]