Comics versus mangas

Na última quarta-feira (18/01), durante as comemorações do 3º aniversário do blog, fui surpreendido genuinamente pelo conteúdo de um post do Qwerty em seu blog Nahel Argama – Seu porto seguro para animes (depois do Gyabbo!, é claro) – com a imagem que ilustra o início deste post. Trata-se de um panfleto de uma loja de quadrinhos americana de Orlando, a “A Comic Shop”, onde, em claro patriotismo exarcebado informa: “Robama (Uma mistura de um ciborgue com o president Barack Obama) quer que VOCÊ compre [produtos] americanos” em tradução livre feita por mim. A ideia é que o cliente poderia trocar o volume #1 de qualquer manga pelo volume #1 de qualquer série do reboot da editora DC (entenda melhor sobre esse reboot AQUI).

Ao primeiro olhar, certamente esse panfleto soa um tanto quanto ofensivo não só para a mídia manga quanto aos fãs desse tipo de quadrinho, mas de certa forma também ao povo japonês. Um segundo olhar mais calmo pode até retirar todas essas impressões ou pelo menos minimiza-las, ainda mais após um dos donos da loja ter afirmado que tudo não passa de uma brincadeira e que não havia nenhuma ideia exageradamente patriotista ou anti-manga por trás do panfleto, além de que os próprios mangas trocados serão (ou seriam?) vendidos por $1 na própria loja. E ainda mais, estamos falando de apenas uma pequena loja. Porém, a questão se torna mais complicada quando sabemos que a própria editora DC não somente permitiu oficialmente o uso da imagem de seus personagens icônicos da Liga da Justiça, como também arcará (ou arcaria?) com 75% dos custos dessa ação de “marketing”.

Isso torna as coisas um pouco mais interessantes. Saímos do micro para o macro e buscamos entender porque uma editora do tamanho da DC, ainda que em tom de brincadeira, transforma mangas em alvos? Como bem disse a Valéria Fernandes do Shoujo Café sobre esse assunto, porque os mangas incomodam. E para falarmos sobre isso vou precisar voltar um pouco no tempo.

A partir de 2002 os mangas nos EUA demonstraram uma força gigantesca, uma verdadeira explosão. De acordo com um artigo do jornal The New York Times tivemos vendas que chegavam a $50 milhões naquele ano e que passaram para algo em torno de $90 a $110 milhões em 2003, chegando a um mercado de $150 milhões de dólares em 2005 de acordo com um artigo da revista Times, carregado principalmente pelo sucesso do shoujo Fruits Basket. Esse crescimento durou até o ano de 2007, com picos de vendas de $210 milhões quando os lucros começaram a diminuir, indo para quatro anos de quedas consecutivas.

Apesar de 2010 e parte de 2011 terem conseguido ter perdas menores que 2008 e 2009, a situação não se encontra tão bem quanto no início dos anos 2000, principalmente por algo que também preocupa as editoras brasileiras, a falta de animações na televisão que virassem febre. Ainda sim, é um mercado que em 2010 conseguiu render $110 milhões de dólares.

Mas de nada adianta eu mostrar esses números se eles não puderem ser comparados aos dos comics e quadrinhos americanos em geral para entendermos o quanto os mangas podem incomodar. De acordo com o site ICv2, no ano de 2011, depois de 4 anos consecutivos de perdas (coincindindo com o ano de 2007 quando os mangas também começaram a cair em vendas) o mercado de comics conseguiu elevar as vendas em 1.87% nos primeiros 11 meses do ano em comparação com 2010. Já o site The Comics Chronicles aponta que neste ano que passou, o total de vendas pela maior e principal distribuidora do país em quadrinhos, a Diamond Comic, de comics, “trade paperbacks” e revistas do tipo  foi de aproximadamente $417 milhões.

Percebem que em um ano positivo para os quadrinhos americanos e em um ano ruim para os mangas, as vendas de mangas ainda representam aproximadamente um quarto das vendas dos produtos originalmente americanos? Sendo que na conta do The Comics Chronicles ainda estão listados alguns mangas, ainda que com vendagens muito pequenas visto que estamos falando das vendagens de lojas especializadas em comics.

Recentemente foi lançado nos EUA o manga de Sailor Moon, virando automaticamente um grande sucesso. O primeiro volume ficou pelo menos três semanas consecutivas no primeiro lugar do ranking do New York Times de mangas e é desde seu lançamento a “Graphic Novel” mais vendida nos EUA por três meses seguidos. Voltando a números interessantes, de acordo com o JBox, em quatro semanas o manga conseguiu esgotar toda sua tiragem inicial de 50.000 volumes, sendo impressos mais 50.000 que provavelmente já esgotaram também. Isso só do primeiro volume.

Só esse número já colocaria Sailor Moon na posição #43 se essas vendas fossem das Comic Stores do ano inteiro de 2011, algo conseguido em menos de meses, passando fácil o número #1 da lista de Graphic Novels, Walking Dead #1. Se pensarmos que de acordo com informações da distribuidora Diamond Comics Naruto #50 foi o manga mais vendido, na frente do primeiro volume de Sailor Moon e se esticarmos para para o mercado geral que engloba não só as comic stores, mas também as livrarias físicas e on-line, os números de Naruto seriam ainda mais impressionantes e ameaçadores aos comics e aos quadrinhos americanos em geral.

Só que isso não é tudo. As coisas ficam mais interessantes ao pensarmos que apesar de todo um apoio sócio-cultural a favor dos quadrinhos americanos em seu país (afinal, são décadas de lançamentos) e da voluntária propaganda gigantesca que a indústria do cinema e séries televisivas fazem para suas contra partes gráficas ano após ano, o mercado de quadrinhos americanos consegue crescer apenas meros 1.87%.

Retirem essa propaganda toda, esse rebuliço em torno dos supers e imaginem como estaria o quadro agora? Os mangas não tem força de massa para se apoiar nos EUA e ainda assim, mesmo com suas consecutivas perdas, ainda é uma indústria de mais de $100 milhões de dólares!

Os mangas são o que são hoje no Japão em grande parte graças ao modelo aberto por Osamu Tezuka, novamente citando o blog Nahel Argama. Anime faz propaganda do manga, que gera jogos, light novels ou qualquer uma das direções possíveis dessas diferentes mídias que se entrelaçam e fortificam umas as outras, algo que inexiste nos EUA para fortificar o mercado de mangas por lá. De acordo com Roland Kelts, autor do livro “Japanamerica – How Japanese Pop culture has invaded the US” (“Japanamerica – Como a cultura pop japonesa invadiu os EUA” em tradução livre), é justamente a falta de uma maior proximidade dos produtores e criadores japoneses com o público americano (e porque não dizer brasileiro?) que resultou nas quedas das vendas de mangas após o fim do explendor do “Cool Japan”. Imaginem se essa aproximação fosse maior, se o peso da indústria cinematográfica estivesse a favor dos mangas, as coisas seria bem diferentes.

Os quadrinhos americanos (e sim, vou chamar de “quadrinhos americanos” de uma forma generalista ao falar do comics já que a Marvel e a DC juntas representaram no ano de 2011 77.7% de todas as publicações por lá, sendo que a gigantesca maioria é de supers), como mesmo quem é de fora deve saber, teve seus anos de glória após a segunda Grande Guerra, nos anos 40 com a “Era de Ouro”, seguida pela “Era de Prata” nos anos 50~60 até o grande boom dos anos 90 que se mostrou uma grande bolha causada pelos fãs e suas múltiplas compras de um mesmo volume.

Entretanto, existiu um momento de transição no mundo dos supers que foi de vital importância para os comics que temos hoje: A criação do Homem-Aranha. Concebido em 1962 por Stan Lee, o personagem inaugurou um novo tipo de super-herói, um que fosse mais próximo do leitor, menos perfeito, mais humano. O sucesso desse personagem se dá justamente pela possibilidade de identificação com o seu público; na época majoritariamente adolescentes. Se após uma grande guerra o país precisava justamente de heróis perfeitos, símbolos da força americana como o Superman e o Capitão América, os anos 60 e 70 foram marcados como décadas de inquietações no país e pelo movimento hippie, claramente não patriota. Ao criar personagens com falhas, a Marvel se conectou com seu tempo, assim como Tezuka fez com Apollo’s Song na mesma época (Resenha desse manga AQUI) e seguiu para liderança do mercado na década de 70.

Mas o grande marco dos comics passou e não houve a evolução que se poderia esperar nos quadrinhos americanos de massa que aconteceu no Japão, onde os quadrinhos do pós-guerra ajudaram o país a se reerguer como uma forma de entretenimento barata (no sentido financeiro), mas evoluíram, alcançando todas as demografias existentes. Enquanto do outro lado do mundo o manga alcançou as massas, abrindo espaço para todo os gostos, e aqui vale salientar a revolução feminina dos quadrinhos japoneses, principalmente com o chamado “O grupo de 24“, algo totalmente inexistente nos quadrinhos americanos que se fecharam dentro de uma fórmula de sucesso para não saírem mais, o mercado norte-americano foi  cercando cada vez mais o círculo dentro dos fãs já estabelecidos.

Os quadrinhos de Supers, queira sim, queira não, monopolizam o mercado de quadrinhos norte-americanos e não parecem estar dispostos a abrir espaço para outros públicos, especialmente o feminino. Ao vermos que o reboot da editora DC diminuiu de 12% para meros 1% a participação de personagens femininas em suas histórias, pode-se tirar conclusões claras daí. A questão é que o mundo dos quadrinhos americanos mainstream não é nada amigável às mulheres, seja como desenhistas/escritoras ou como personagens. E é justamente aí que os mangas entraram no início dos anos 2000 ou vocês acham que o sucesso de Fruits Basket foi mera coincidência? Existem um público feminino que quer ler quadrinhos por e para elas (o que não exclui que existam muitas mulheres que adoram ler supers, como também existem muitas mulheres que adoram shounen, ao contrário de alguns comentários infelizes nos posts da Mara do Mais de Oito Mil).

Ao atacar os mangas a DC está entendendo o quadro de forma errada. Não é preciso ataca-los, é preciso aprender com eles e como os quadrinhos podem ser fortes ferramentos para alcançar os mais diversos públicos, certamente um dos motivos pelos quais os manga se os animes viraram sucesso mundial (talvez não financeiro, mas de público).

A questão é que sim, tem muita gente lendo manga e se as principais editoras dos EUA não se mexem para “permitir” que as mulheres (e não, fingir que se está falando de emancipação feminina quando se está falando para homens não é uma forma de atingir o público feminino) e outros públicos entrem nessa de vez, esses outros públicos vão sim buscar outras formas de se entreter. A imagem acima ilustra bem o caso. Ela é de uma HQ feita por uma garota americana de 16 anos, Raquel Yu, que no final do ano passado/início desse ano figorou como TOP1 dos quadrinhos mais vendidos na Amazon para o Kindle Fire com sua obra “How To Be A Super Villain”. Isso fazendo tudo sozinha, em estilo manga infantil, desbancando, sem praticamente nenhuma propaganda, títulos da DC e da Marvel, como o aclamado Watchmen.

Concluindo, por mais que os mangas estejam em um ritmo mais lento de vendas, podem ter certeza que eles incomodam. Incomodam por tirarem da zona de conforto as duas principais editoras dos EUA.

E aqui cabe um adendo: Percebem como esse processo de se fechar dentro de um mesmo nicho que garante o ganha pão se repete com os animes cada vez mais voltados para os fãs hardcores amantes de moe? Ou mesmo nas editoras brasileiras de mangas que nada fazem para tirar o manga do rótulo de “produto de nicho”? Só nos falta Mangas Stores no Brasil para fechar o ciclo. Até quando esses modelos tacanhos irão se sustentar?

Agora gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre este assunto em geral ou qualquer ponto que eu toquei neste post.

PS: Sim, eu sei que supers não é tudo que os quadrinhos americanos produzem, mas visto seu tamanho de mercado, cabe a comparação.

PS2: Eu não odeio comics, na verdade tenho muita curiosidade de ler coisas de supers (como comprei Civil War por ter achado demais!).

Ps3: Sei que existem muitas coisas boas dentro desse tipo de HQ e também sei que existem coisas boas americanas fora desse tipo de HQ (como Retalhos. Leiam Retalhos! E Daytripper, que apesar de ser feito por brasileiros foi originalmente publicado nos EUA).

PS4: Sei também que não é a origem da produção que dita sua qualidade. Americano, japonês, brasileiro, francês, italiano, inglês. O importante é ser bom.

PS5: Não me matem, fãs.