O que você fazia antes não faz mais sentido

Oquevocefaziaantes

Yo!

Da série que eu nunca tratei como série “meditando sobre quadrinhos”. Bora ver!

Quando eu era muito, muito pequeno… Fui no dentista tratar uma cárie. Na volta, ganhei um gibi que nem sabia como ler. Era um número de Marvel Especial: Homem Aranha x Duende Verde. Ganhei na base do “para de chorar” e pra mim, era como um álbum para pintar onde alguém já tinha pintado tudo. Eu rabiscava por cima e “re-pintei” a capa, onde o Homem Aranha, coincidentemente, tinha as mesmas cores da minha bic de duas cores (nem sei se ainda existem essas canetas).

MeuprimeiroGibi

O tempo passou e eu aprendi a ler. Em casa, sempre tivemos Turma da Mônica, minha mãe, que lia mangá lá no Japão antes de vir pra cá, sempre achou que a gente devia ler quadrinhos. Mas a primeira revista que eu chamei de minha (e que foi pra ler) foi o número 30 de X-Men, da Editora Abril. Li e reli tantas vezes que eu sabia dizer o que estava escrito em qualquer balão de qualquer página. Juro que fiz até o teste, pedindo pra alguém perguntar!

Quadrinhos, naquela época de pouca informação e pouca quantidade, era tudo quadrinhos. A gente lia o que tivesse, e reclamávamos só de coisas mais cruciais, como erro de impressão, papel rasgado, etc. Os mixes das revistas da Marvel eram completamente loucos, misturavam gêneros, heróis, até anos diferentes. Quando eu percebi que havia uma cronologia, uma ideia de continuação, passei a colecionar X-Men. Só depois de um ano eu fui perceber que haviam outras revistas iguais e algumas até ligadas a mesma história.

Como eu não tinha dinheiro (ninguém tinha, era época que os quadrinhos tinham código no lugar de preço, por causa da inflação) e não podia comprar tudo, só fui ler muita coisa quando a biblioteca perto de casa, a Viriato Correa, abriu a Gibiteca Henfil. Lá que eu li pela primeira vez os números anteriores de X-Men, que só existiam em sebos (que eu só iria descobrir anos depois) e muitos outros quadrinhos, que ainda eram só quadrinhos.

ExAbrilJovem

A antiga Abril Jovem hoje.

Entrei pra categoria “colecionador de quadrinhos” quando meu interesse por quadrinhos começou a ficar mais evidente para as pessoas. Meu tio morava perto da Abril Jovem, na época, na rua Bela Cintra, e meus primos ganhavam muitas HQs de lá, algumas pingavam pra mim. Ainda, os quadrinhos eram só quadrinhos. Eles ganhavam coisas infantis e outras como o violento Marshal Law, que lembro que a gente zuava muito por causa de um quadro com uma piada que dizia “corpo grande, pinto pequeno”, como qualquer criança faria.

Um colega de classe me apresentou pra um vizinho dele, o primeiro nerd que eu conheci. Na casa do cara, na sala de visitas, tinha um poster americano do enterro do Super Homem, um spoiler, já que ninguém comum no Brasil sabia que aquilo ia acontecer ainda. Ele me apresentou à Novos Titãs, na fase do Marv Wolfman e George Perez, naquelas de “se você gosta de X-Men…”

Fora isso, um outro tio meu colecionava revistas japonesas de mangá. Eram prateleiras recheadas de Shonen Jump, Shonen Sunday e Shonen Magazine. Pra mim, ele sempre colecionou, eu tenho uma foto minha com um ano e uma Shonen Jump dele nas mãos. Essas, pra minha alegria e desespero do meu tio, não estavam pintadas. Mas quando eu cresci, meu problema era ler aquilo. Só fui resolver isso em parte quando fiz aula de japonês, aos onze anos. Mas até aí, eu já não ligava tanto pros mangás do meu tio.

Aos treze, eu comecei a trabalhar. Com meu próprio dinheiro, começou a minha vida de colecionador mesmo. Comprava tudo da banca. Eu não precisava mais trocar um maço de Turma da Mônica por um número antigo de Grandes Aventuras Marvel no sebo. E aos quinze, provavelmente inspirado pelas revistas de anime e mangá da época, eu passei a comprar alguns tankohon na liberdade, meus primeiros mangás “meus”, sem ser os do meu tio. E depois, fui pro Japão, onde passei dez anos.

Foi exatamente nessa época que o Brasil passou por uma revolução nos quadrinhos que eu não acompanhei. A toda-poderosa dos quadrinhos, a Abril Jovem, fechava, com o que restou indo para a sede da Abril, publicar só Disney. Os mangás chegaram no Brasil pela Conrad, depois de alguns ensaios no passado. Lembro vagamente de um primo meu que colecionava Akira da Editora Globo e de como ele ficava louco quando saía um único volume depois de anos. E então, Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco passaram a aparecer nas bancas e acho que entraram bem no buraco que a Abril deixava nos leitores.

MangaConrad

Nessa época, ninguém nem sonhava em ter mais de vinte títulos diferentes de mangá nas bancas para escolher. E o lema dos scanlators fazia todo sentido. “De fã para fã, a única forma dos brasileiros lerem mangá”. Eu mesmo escaneei Love Hina e o Manga Hetappi na época, alguns trechos. Poucos anos depois, Love Hina saiu pela JBC e Manga Hetappi virou Mangaká, de Akira Toriyama, pela Conrad. Aquilo era surpreendente!

A enxurrada de títulos logo gerou uma primeira crise. A Conrad faliu, foi vendida e parou de publicar mangás. A JBC mudou, a Panini começou a cancelar títulos… Quando tudo se estabilizou, as vendas voltaram e agora as editoras já eram maduras o suficiente para controlar melhor seu fluxo e analisar pelo menos um pouco a loucura que é o mercado brasileiro, tão cheio de peculiaridades que é difícil de tomar as rédeas.

Mas uma coisa que sobrou nos hábitos dos leitores da época de vacas magras foi o scan. Acho que isso é a versão desses leitores pra minha época de gibiteca e sebos. É inegável que uma geração inteira de leitores teve sua história na frente de uma tela de computador, caçando links no Kazaa e lendo do jeito que dava primeiro, depois, do jeito que estivesse. A diferença aí está em como se recebe. Antes, era o que tinha e se você quisesse, depois se tornou simplesmente prático, de graça e rápido, até mais do que os japoneses, que precisam esperar as revistas terem a circulação liberada. E ninguém liga para detalhes técnicos, qualidade de tradução, etc.

Hoje, dá pra ver um novo cenário sendo desenhado.

Estamos em um mundo de colecionadores de mangá que já deram uma volta na vida. Hoje eles já são pais e quem está começando a ler tem pelo menos quinze anos de diferença e um cenário completamente diferente do que era na década passada. Só o fato de eu poder usar o termo “década passada” já valida a passagem de geração que está acontecendo. E isso dói para os que precisam encarar esse tempo que voou. Eu sei, eu precisei ver isso algumas vezes. Levantava o nariz pra geração que lia scan, scan que eu ajudei, que fiz meus 0,01%.

tumblr_mod04qvHTS1qgu2vjo1_500

Nesse novo cenário, os sebos são lojas tão assustadoras quanto eram pra mim no começo, mas com tudo isso acentuado pelo fato de serem raras demais agora. No lugar, temos as belas livrarias, as comic shops e até a internet, vendendo números antigos. Mas se meu sobrinho um dia quiser ler Cavaleiros do Zodíaco seria uma decepção ele teria que desenbolsar 400 reais, mais o frete. Pior seria se minha sobrinha quisesse ler Card Captor Sakura. Sabe-se lá por quê, só o número 2 da coleção original custa sozinho uns 200 reais.

Mas uma coisa boa que essa geração está vendo é a reedição. Coisa que era improvável, impossível e impensável na minha época, onde reedição eram só pacotes de encalhe da editora ou “encadernações”, onde costuravam as edições de uma coleção e colocavam uma capa nova. Hoje podemos encontrar coisas antigas nas lojas, em papel novo e cheiroso, reeditados e retraduzidos. Algumas coisas até em edições luxuosas, capa dura, verniz localizado… É uma geração que está lendo o novo, mas também está conhecendo o antigo e lendo-o como novo. Não edições de segunda mão, sem medo de ter um telefone anotado no canto de alguma página (que aconteceu comigo), sem precisar procurar um tiozão nerd que tenha e depois convencer ele a emprestar.

Guerreiras-Mágicas-Editora-JBC

Essa geração também não encara mais os quadrinhos como um lifestyle, é só um hobbie, assim como ir ao cinema ou jogar videogame.

E nós ainda teimamos em ver eles como nós éramos, colecionadores, apaixonados e que encaram tudo isso como parte importante da vida. Mas o Shingeki no Kyojin de hoje será o Sword Art Online amanhã, que era o papel de Haruhi Suzumiya antes, tudo em suas devidas proporções de hype. Ter em papel na prateleira, nem sempre é tão importante nesses dias. Mas também, quadrinhos virou um bom presente. As pessoas dão mangás e edições caras de quadrinhos no aniversário, como substituto pro CD de ontem.

A praticidade se tornou tão importante que até os scans estão parecendo coisa do passado. Tem valido pagar mais para ler um mangá, e as vendas atuais deixam isso claro. Serviços de assinatura como o Crunchyroll e o Netflix pareciam piada ruim algum tempo atrás, onde filmes e seriados eram baixados de graça porque sim. Mas não é por que as pessoas querem assistir tudo legalizado. A palavra aqui é “praticidade”, e só.

Não duvido e até aposto que um dia vai surgir um equivalente para mangá por aqui. Nos EUA, a Shonen Jump faz sucesso com o aplicativo da Shonen Jump Alpha para tablets. No Japão, a Jump Live teve milhares de contas criadas na primeira semana. Os dois são serviços que entregam pacotes de mangás e conteúdo antigo mediante um pagamento mensal. Tudo prático e fácil. E não duvide que o Brasil esteja na mira deles. Coreia do Sul, China e outros mercados fortes da Shonen Jump já estão vendo isso acontecer e o Brasil, apesar dos pesares, sempre está em relatórios.

Jump Live chega à 300 mil downloads em 15 dias

Shonen Jump Alpha, agora no Android!!

Mais do que isso, é engraçado ver o mundo dar essa volta. Muita coisa mudou e vai continuar mudando, de forma imprevisível. Mas uma coisa que voltou é aquilo que os quadrinhos eram pra mim, quando eu ganhei um gibi do Homem Aranha, quando eu ganhei meu primeiro X-Men ou rabisquei os volumes da Shonen Jump do meu tio. Quadrinhos não são mangás, nem comics, nem fanzines… Quadrinhos hoje são só quadrinhos de novo.

Naofazsentido

Curtiu? Aperte os botões abaixo e compartilhe, dê essa força! Tem algo para dizer? Use os comentários abaixo para conversar.