Shingeki no Kyojin e por que a Jump não é tudo no mundo

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Yo!

Acaba de estrear o anime de Shingeki no Kyojin, a maior aposta da temporada. E as críticas confirmam. Mas pra esse anime existir, muita água precisou correr

Shingeki no Kyojin, o mais aguardado lançamento da temporada, chegou como o melhor anime de 2013 até agora. Animação de qualidade, história e personagens interessantes, originalidade, drama e ação na medida certa… Parece que não tinha muito erro. O mangá de Hajime Isayama já fazia um grande sucesso em seus 10 volumes pela Bessatsu Shonen Magazine, uma edição alternativa da Shonen Magazine. Mas quem diria que esse mangá poderia estar nas páginas da Shonen Jump, a maior rival da Magazine?

Quando adolescente, Isayama foi à Shonen Jump fazer o que chamam de Motikomi, ir a uma editora e mostrar seu trabalho para ser avaliado. Em seu blog pessoal, o autor explica que além de ser muito jovem e inexperiente, ele ainda ficou decepcionado com a única dica que o editor lhe deu.

Isso ecoou por duas visitas que ele fez ainda na adolescência, tirando toda a fantasia que ele tinha em publicar em sua revista favorita. Imagine em Bakuman que no momento em que Takagi e Mashiro vão à Shueisha, Hattori olhasse suas páginas e dissesse:

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A confusão e a decepção arrasavam os sonhos de Isayama. Ele não era bom, nem era ruim. Ele não precisava desenhar melhor, nem usar retículas melhor. Não era sua história que estava confusa ou que precisava de alguma motivação melhor ou um protagonista mais forte. O que estava errado era que ele precisava se adequar a um padrão.

Voltando para casa, Isayama ponderou muito, mas foi nas palavras de Eiichiro Oda, autor de One Piece, que ele encontrou sua resposta. Oda, em algum de seus textos extras de tankohons disse

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Para ele, não havia a sensação de se estar trabalhando, de ser um emprego. Pois estava fazendo o que gostava de fazer, e o dinheiro era consequência. Era isso que Isayama buscava. Não valeria a pena fazer um mangá que segue padrões, que tenta se adequar, mesmo que seja o padrão da revista de maior sucesso no mercado. E isso não tem a ver com “proteger sua arte” ou “manter a visão autoral”. Mas manter sua identidade, o que te faz diferente.

Algum tempo depois, ele usou a mesma história para vencer o concurso Magazine Grand Prix, da editora Kodansha. Essa história era Shingeki no Kyojin. Depois de algum tempo, ele foi testado na editora com algumas histórias curtas enquanto trabalhava de assistente para então estrear sua primeira série em alto estilo. Shingeki no Kyojin estrearia em Outubro de 2009, nas páginas da Bessatsu Magazine, entrando em evidência logo nas primeiras histórias. Com apenas dois volumes, ele chegaria à marca de 1 milhão de cópias vendidas. Até o terceiro volume, ele já estava ganhando matérias que alardeavam um mangá como não se via há muito tempo. Atualmente, com 10 volumes, Shingeki no Kyojin já foi indicado para todas as principais premiações de mangá de sua categoria, vencendo o da Kodansha, o Kono Manga wa Sugoi categoria masculino e o prêmio de Escolha dos Lojistas, todos em 2011. Ficou em sétimo no Manga Taisho.

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As influências em Shingeki no Kyojin são ARMS, de Ryoji Minagawa, e principalmente Muv-Luv Alternative, um game adulto que recentemente teve um anime, Total Eclipse, de acordo com Isayama. Entre seus autores favoritos não figura nenhum da Shonen Jump, apesar de ele dizer que era sua revista favorita. Talvez ainda haja algum rancor. Mas tudo bem. Ele encontrou seu lar.

Entre os entusiastas de Shingeki no Kyojin, muitos dizem que a Jump seria outra se o mangá figurasse em sua lista. Eu, particularmente, acho que o mangá é que seria outro. Infelizmente, é o que acontece mais. Paradoxalmente, a Shonen Jump é a revista que dá mais chance aos novatos ao mesmo tempo que é a revista que mais controla o que eles irão fazer. Enquanto isso, a Shonen Magazine, que segue um esquema de controle editorial, costuma ser onde os autores têm mais liberdade de criação. Não por menos, a revista onde Shingeki no Kyojin é publicado também é onde saíram as mais recentes obras de Makoto Raiku (Konjiki no GASH! ou Gashbell) e Kouji Kumeda (Sayonara Zetsubou Sensei). Além dessa companhia, Isayama ainda teve CLAMP (que publicou XXX Holic lá), Mitsuru Hattori (Sankarea) e Shuzou Oshimi (Aku no Hana) entre seus vizinhos de revista. As páginas da Bessatsu Shonen Magazine, assim como as da Shonen Magazine Mensal, são recheadas de séries interessantes, mas que por algum motivo, são menos comentadas e adoradas do que séries decadentes ou novatos da Shonen Jump.

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A Shonen Jump foi criada praticamente pela força de seus editores. Primeiro, Tadasu Nagano, o mago das enquetes, que criou e transformou a revista na número um do mercado em cinco anos. Depois, Nobuhiro Horie, editor de City Hunter e Hokuto no Ken e editor chefe da Era de Ouro da Shonen Jump. E, claro, Kazuhiko Torishima, editor de Dragon Ball, Video Girl Ai e o homem que transformou o mangá em multimídia, criando o hábito de tranformar as obras em anime e de flertar com os games. Como editor chefe, levantou a revista depois da queda do fim da Era de Ouro e trouxe títulos como Hunter x Hunter (trazendo de volta o Togashi, que estava de férias eternas), One Piece e Naruto. Foram pessoas geniais que ditaram os rumos da revista e fizeram dela o sucesso que é, praticamente 30 anos no topo da pirâmide. Mas acho que é a falta de editores inspirados que traz essa fase de marasmo criativo da revista. Gente que fala “Me mostre Shonen Jump” não está pronta pra criar algo ousado. Hisashi Sasaki ainda foi um homem que se espelhava em Torishima, multimídia e com os olhos no exterior, reforçou os balões redondos, que causam menos problemas na conversão ocidental e trabalhou muito com o público fora do Japão. O atual, Heishi Yoshihisa (o vice-editor chefe em Bakuman) só é lembrado pelo caso que teve com a autora de Mind Assassin, que hoje é sua esposa, e por ter levantado Yu Gi Oh, que estava na zona de cancelamento.

Para entender o papel do editor no sucesso de um mangá, basta ver o que acontece com muitos autores da Shonen Jump que saem dela. A maioria fica sem rumo. Alguns ainda conseguem algum sucesso, mas nunca nada parecido. Porque os editores da Jump são praticamente babás, por causa do sistema de cancelamento. Eles precisam ficar em cima dos autores. Em outras revistas, eles fazem planejamento editorial, é normal o autor precisar se virar pra preparar sozinho um arco inteiro e muitas vezes, não saber o que fazer. Outra forma de ver isso é pegar qualquer material longo, que pode ter passado por mais de um editor. Você vê a diferença por mais que seja o mesmo autor, fazendo o que sempre fez. Então, um bom editor não diria que Isayama precisa se adaptar a Jump. Ele é quem iria adaptar Shingeki no Kyojin à revista.

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Acho que muito dos problemas de editores vai pelo hype dos novos autores no sonho da Shonen Jump. A revista é inundada por material de todo tipo de novato do Japão e até do mundo (eu mesmo já fiz motikomi, conto aqui como foi). E faz tantos concursos e eventos para isso que deve sobrecarregar os editores, que já são sobrecarregados normalmente. Imagine ser um dos responsáveis por One Piece (são dois editores) e ainda ter que ficar olhando novatos? Isso deve apagar qualquer fagulha de empolgação neles, tornando os editores mais cínicos. Isso, aliado ao sistema de enquete, que pode derrubar um projeto ousado em duas semanas, colaboram com um ostracismo nas páginas cada vez mais dependentes de Naruto e similares. Dependentes de fórmulas.

Mas é por isso que existem outras revistas. A Jump existe para cumprir um papel, de ser a maior e mais popular. E as outras preenchem algumas brechas, ousam, criam, dão espaço para histórias que ninguém saberia como classificar. Por isso, o lugar de Shingeki no Kyojin nunca foi a Shonen Jump. Hajime Isayama fez bem de procurar um outro lugar para criar sua obra. E assim como as flores, toda obra precisa do ambiente certo para florescer plenamente.

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24 ideias sobre “Shingeki no Kyojin e por que a Jump não é tudo no mundo”

  1. Antes eu só sabia das coisas da Shonen Jump através do mangá de Bakuman… Agora que sei a verdade sobre a rejeição da revista á série Shingeki no Kyojin, e essa análise sobre tudo, mudei completamente minha visão sobre…
    Realmente, A shonen Jump só não tem mais mangás bons, porque eles “não produzem mangás shonens” eles “produzem mangás “Shonen Jump”.
    Realmente, eu também consigo imaginar perfeitamente esse mangá/anime na shonen Jump, apesar de ser um pouco sangrento. mas tudo bem.
    Fora isso, minhas considerações pelo site, hehe, me dando boas informações…
    Já entrei em outros, e o pessoal só criticava o mangá/anime. Vamos falar a verdade, não é ESPETACULAR, mas também não é UM LIXO. De zero a 10 minha nota é 8,5

  2. Simplismente é não desista logo de cara não deu na Jump foi parar em outra e hoje anime é visto so por brasileiros em torno de 500 mil imagina a cituação :)

  3. Curti muito a matéria tinha lido por alto que a Jump(que pra min e so One Piece,Toriko,Beelzebub e Medaka Box)tinha recusado Shingeki mas não sabia ao certo como foi(ate procurei mas não encontrei nada) valeu por explicarem como as coisas aconteceram kkkkkkkkkk!!!!!!!!

  4. Se o nome da revista fosse ‘Seinen Jump’, faria sentido eles publicarem Shingeki. A Shueisha fez bem em recusar Shingeki. Não há porque publicar algo que não faz parte do estilo da revista.

    1. Michel, Shingeki sai hoje na Bessatsu SHONEN Magazine, uma edição extra de uma das rivais diretas da Shonen Jump. Pode ter o enclinamento editorial de cada uma, mas até ai, Death Note saiu na Jump na mesma época.

  5. Eu adoro Bakuman, mas tenho que admitir que a série criou duas coisas:

    – Profissionais editoriais (Todo mundo virou mestre em julgamento de mangás)

    – Super hype na revista Shonen Jump.

    Aspirantes a desenhistas (brasileiros inclusive) sonham em publicar na Jump, mas a maioria não sabe que esse “sonho” não é exatamente o que imaginam.

    Quanto a Shingeki no Kyojin… Phoda! Estou com enormes expectativas!
    Venderam um trailler, e entregaram o produto, parabéns pros caras.

    E concordo com a postagem, se Shingeki fosse publicado na Jump, a série seria completamente diferente.

  6. ‘E assim como as flores, toda obra precisa do ambiente certo para florescer plenamente.’

    Posso manter essa frase na minha vida? Haha, bom post, bom mesmo. Shingeki no Jyojin para mim já é um dos melhores :P

  7. Cara, seu artigo ficou muito bom, parabéns! Só que você acabou falando muito mais do pensamento (na minha opinião) babaca da JUMP do que de Shingeki no Kyoujin! haha

  8. Se eu fosse o editor chefe da Jump, hj taria com muita raiva,pois a revista hj vive de Naruto e One Piece,e a grande oportunidade que eles tiveram de emplacar um titulo decente foi jogada fora,ta certo que a grande fama desse manga vem da rejeição,mas ele tem qualidade e teria arrebentado na Jump mesmo que tivesse sido modificado.Ainda bem que não foi assim pq desse jeito o autor e mais livre pra fazer a obra do jeito que deve ser feito.
    ENQUANTO ISSO NO QG DA JUMP ELES CONTINUAM EMPURRANDO TORIKO NA MESMA ONDA DE ONE PIECE E DB,MAS A VERDADE E QUE TORIKO NUNCA VAI FICAR BOM SE CONTINUAR NESSA FORÇAÇÃO EDITORIAL.

  9. gostei do post, na minha opinião, o manga de Isayama não vejo ele se tornando algo maior na jump do que ele é hoje. como foi dito, a jump existe pra cumprir o papel de ser a maior e tem isso graças ao seus ideais o que a levaram até aqui.
    Shingeki no Kyojin é hoje por esta na magazine

  10. Eu concordo que o editor foi muito babaca mesmo, em ter recusado logo de cara o manga, ele deveria ter mandado pra Jump SQ, consigo imaginar SnK perfeitamente lá, mas convenhamos que parte da fama da serie vem da Jump ter recusado ela.

  11. Texto muito bom!!!

    Acho um alívio o autor não ter decidido mudar os moldes de sua história para se adequar a Jump e procurado outro lar onde acolhessem essa ótima obra.

    Shingeki no Kyojin é muito bom do jeito que é e poderia não ter tido o reconhecimento que tem agora se tivesse que ser serializado na Jump. Mas sempre quando leio sobre essa história da recusa da série na revista, me pergunto como nenhum desses editores teve a visão de tentar publicar essa história em alguma outra revista da editora. Shueisha não é só Jump semanal e acho que deveriam ter aconselhado-o a publicar essa história em uma de suas outras revistas ao invés de recusar logo de cara.

    1. A Shueisha tem uma revista que é só para obras seinens, é onde é publicado a 8º parte de Jojo se não me engano( Vc pode confirmar isso Sakuda por favor ? ). É isso tbm que achei muito estranho.
      No mais um ótimo post Sakuda.

      1. A Ultra Jump, né? Lá é onde sai material seinen com uma vibe um pouco diferente da Jump. A Young Jump é a seinen que segue mais o leitor da Shonen Jump que cresceu. A Ultra tá mais pra um rival da Afternoon.

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