Projeto Motikomi Especial: Jump Scout Caravan

pict_scoutYo!

Sei que a proposta dessa série é levar minha historia até a Shueisha, em Tóquio, para um motikomi. Mas não pude perder a chance de ir ao evento da Jump que aconteceu em Nagoya, pra levar meu trabalho incompleto.

Pois é. Eu pensei muito, primeiro por que levar um projeto incompleto não seria uma boa pra avaliação  Depois, por que eu pensei que isso poderia me deixar desanimado com tudo, dependendo do resultado. Passei o ultimo mês inteiro pensando nisso e só decidi na semana passada. Na pior das hipóteses, eles podem ver meus desenhos a lápis e meu roteiro, e me preparar melhor para quando eu for pra Tóquio. Definitivamente, eu não podia perder essa chance.

Imaginei várias hipóteses, várias situações, e o que dizer em cada uma delas. Claro, pensei no que fazer no caso de um sucesso. Mas mais do que isso, pensei em me preparar pra qualquer crítica que pudesse receber. Precisava ter algo pra devolver ou pelo menos ficar conformado com meus erros e me preparar para melhorar.

Nagoya é a capital de Aichi, fica a mais ou menos uma hora de Toyohashi, onde eu moro. Fui de trem, porque o local do evento ficava no próprio prédio da estacão central de Nagoya. De carro, tem o trânsito caótico da cidade e o estacionamento, não ia dar certo.

Mode Gakuen, no predio espiral. Chegando lá, antes de subir ao décimo andar do prédio da Meitetsu, já avistei três pessoas do evento, dois vestidos com uma camiseta vermelha com o simbolo da Jump estampada. Isso sem contar em uns dois ou três que se destacavam lá. O bairro em si é bem chique, com lojas da Louis Vuitton, Channel, etc. É também onde fica o Mode Gakuen, uma escola de arte e animação bem famosa, que em Nagoya ocupa um prédio em espiral que por si só é uma obra de arte. No geral, as pessoas por lá são do tipo que andam de Mercedes ou senão aquele tipo bem comum entre estudantes de arte, com roupas excêntricas (tem curso de moda), difícil ver o pessoalzinho das camisas xadrez e mochilinha.

No elevador, fui me preparando pra ouvir as criticas, fiquei pensando que em uma hora ou duas, me atenderiam. Um grande engano! Quando peguei a minha senha, era a de número 104, com horário pra 16:45, seis horas depois do horário que eu cheguei! E haja pernada pela cidade, andei metade da cidade, só no pé-dois! E é estranho, mas nessas horas, eu não conseguia pensar em nada pra passar o tempo. Comprei alguns mangas mas nem li, andava nas lojas e só olhava… Passar o tempo é o pior de tudo!

Voltei ao prédio com mais de duas horas sobrando. Pensei: vou ver as pessoas que já passaram pelo motikomi, ver como tá o nível  E olhar pessoas é algo engraçado.

ok, nao eh pra tanto, mas serio, tinha umas mais ou menos por ai! Talvez seja algo tipico da cidade. Se Tóquio é pop, Nagoya é chique. E isso ficava bem claro no visual do lado feminino. A Jump já deixou de ser uma revista tocada somente por autores homens e isso fica bem claro nesses eventos. Um monte de garotas, todas bem vestidas, maquiadas, algumas completamente fora do perfil “mangá girl”. Elas pareciam ter errado o andar, até eu as ver com um pacote de folhas saindo da bolsa de marca.

Mas o que me deixou mais deslocado foi a média da idade! A maioria não tinha nem vinte anos, tinham vários que não pareciam nem estar no colegial ainda! E isso me fez sentir o tiozão da turma! Mais pressão, claro!

Era estranho ver as pessoas que voltavam. A grande maioria estampava um desânimo incrível, serio, de quase chorar. Ou eles eram ruim demais ou os editores não estavam maneirando nas palavras. De uma forma ou de outra, isso não parecia bom sinal. Não vi nenhuma pessoa saindo com sorrisos ou mesmo um pouco tranquilo. Bem, nesses eventos, acho que nenhum editor espera que chova grandes talentos em sua mesa.

Chegou a minha vez. Fui levado do décimo para o oitavo andar. No décimo, eles só faziam o cadastro, de resto, usavam as salas de exibição para outro evento, o Jump Anime Tour. Na verdade, parecia um labirinto, por que depois de irmos ao oitavo, seguimos por uma porta e subimos uma outra escada, onde dava pra ouvir sons de um capítulo de Naruto que eu não lembro de ter visto. No topo dessa escada, várias salas, que se pareciam mais com quartinhos de quatro tatame, como os do Tokiwa-sou, onde Tezuka e vários grandes autores da era de ouro do manga criaram seus sucessos. Não deve ter sido proposital, mas valeu a referência. Umas cinco salas eram da Jump. As do fundo, umas duas, eram da SQ.

Esperei a minha vez, sentado num banco. Dava pra ouvir o som das salas, o comentários dos editores. Eu estava entre duas salas e podia ouvir as duas. Em uma, um editor meio gordo, de óculos, explicava pra uma menina, com cuidado, tudo o que sua história não tinha de bom, o que poderia mudar. Pensei, é isso que eu quero! Ouvindo bem, deu pra perceber que ele perguntava por que o personagem principal aprendia kung-fu… Epa! Seria algo contra o estilo chinês? Mal sinal para o meu Kung-Fu Baby Gu…

Na outra sala, um cara mais sossegado, falando pouco, virando as páginas muito rápido. Explicou em poucas palavras e apesar de não ser rude, parecia claramente desinteressado. Mal sinal, novamente.

Claro, o cara sossegado acabou rapidinho e já chamou o próximo. Olhei pros lados e percebi. Era eu!

Caramba! Me dei mal, eu pensei. Sentei e já avisei que só tinha o roteiro pronto e algumas páginas desenhadas. Planejei finalizar uma página antes, mas não deu. Como eu estou um tempo sem desenhar, não estou ainda cem por cento com a pena e achei melhor só finalizar depois de treinar o pulso um pouco. Melhor que levar um negocio ruim.

Acho que esse pensamento que eu tive antes, de que me dei mal na dança das cadeiras, acabou me deixando mais nervoso. Ele me deu um questionário simples pra preencher enquanto lia meu roteiro. Ou melhor, não lia, naquela velocidade, ler meus garranchos é impossível  Na melhor das hipóteses  ele estava só vendo o fluxo das páginas e tentando pescar a historia. As páginas desenhadas, ele não viu nem uma por uma, folheou todas juntas.

Me dava branco em tudo que eu preenchia no questionário: meu endereço, telefone, mangas que eu curto, revistas que leio… Respondi o máximo possível, mas acabei deixando incompleto várias partes, não vinha nada!

Long Cut.

O editor arrumou as páginas, folheou rápido elas e começou a falar.

“Falta realidade na sua historia”.

Realidade? Era algo que eu não esperava, ainda mais porque não deve existir uma justificativa plausível para um bebê recém nascido que luta kung-fu melhor que os adultos. E a Jump em si não é uma revista muito realista. Fiquei com essa dúvida mas esperei ele terminar.

“Seu personagem está muito fraco. Um bebê que não fala é difícil de aproximar o leitor.” Essa foi uma bomba, porque o que eu mais considerava forte no roteiro era a personalidade do bebê, sua motivação  Ele criticou que a maior parte dos personagens não tinha muito expressão, não demonstrava ser um tipo de pessoa definido. Os únicos personagens que ele aprovou foram os dois pais e o rival, que tem até frase de efeito.

Tomei meu folego e comecei a perguntar de volta. Não conseguia entender… Realidade? Em uma história de um bebê lutador de kung-fu?

O editor voltou as folhas e apontou pro começo da historia. “Como é que um bebê pode estar andando assim e chutando, porrando todo mundo? Não importa que a resposta seja um pouco fantasiosa, mas você não pode deixar de explicar essas coisas”. Basicamente, ele me falou que a fantasia de uma história precisa de explicação, mesmo que ela também seja fantasiosa. Justo e compreensível. Na minha, eu explico isso em dois quadros em que um dos personagens começa a falar sozinho, “gênios assim aparecem às vezes”, e voltando à razão quando se pergunta “E por que eu tô tentando me convencer desse absurdo?” Ou seja, eu simplesmente aceitei como absurdo e pedi aos leitores pra relevarem isso.

Respondido, perguntei o que poderia ser feito pra reforçar o personagem. E ele me falou que eu deveria fazer um garoto mais velho. O principal era ele falar, pra poder ter mais expressão, reforçar sua personalidade com falas. Ele deu a dica de anotar toda frase legal que eu ler nos mangas e ver o que marca nelas. Mas na minha história, se o bebê falar eu perco o final dramático, que é exatamente o momento em que ele fala pela primeira vez.

One Piece, passo a passo

O que pode ser feito então é incluir um personagem que crie identificação. E ele citou o bebê de Belzebabu, eu tinha certeza que ele faria isso alguma hora! Disse que a história pode até rolar no mesmo personagem, mas eu preciso incluir um personagem narrador para dar proximidade com o público e criar emoções que possam ser transmitidas de forma escrita.

No mais, ele disse que as cenas de ação estavam boas e eram o ponto forte da historia, mas que sem páginas finalizadas não dava pra dar um parecer definitivo. A história era meu forte, mas na Jump, o personagem conta muito mais ponto.

Eu tinha tanta coisa pra perguntar, tanta coisa que eu queria a opinião dele antes de finalizar as páginas, mas esqueci tudo! Minha cabeça ficou em branco e eu ficava tentando lembrar algo pra falar, mas não vinha.

Ao fim, ele me deu uma folha onde se destacam os pontos fortes e fracos da minha historia. Prefiro ignorar aqui, porque seria chover no molhado. Fui lá somente com um roteiro e algumas páginas a lápis, ele criticou meus personagens e deixou claro a referência à Belzebabu (e digo aqui: não tem nada a ver, fora o bebê). Então pontos por estrutura de página, originalidade, personagem e arte, eu não poderia ter. Tive duas marcas em historia e organização.

Além da folhinha xerocada, ganhei um bloco de papel da Shueisha e uma revista, com paginas em tamanho real e comentários dos artistas da Jump, alem de um passo a passo de uma página de One Piece, comentado pelo próprio Oda. Bem, a visita não foi tao ruim, né?

Premio de consolacao

Saí de lá pensando no que eu deveria fazer. Como poderia melhorar. E é claro, eu não poderia nem esboçar um sorriso, o que me fez lembrar das pessoas que eu via voltando da entrevista. Pensei em como aquilo me deixou nervoso e como eu poderia deixar os outros nervosos também.  Não custa nada pelo menos ficar aliviado. Passei por umas pessoas que ainda pareciam desoladas pelo resultado e elas me olhavam com outro olhar. Talvez fosse melhor ficar neutro mesmo.

No trem, fiquei o caminho todo pensando em minha história, página por página, buscando soluções para melhorar. E, não vou mentir, pensei em desistir dela e fazer outra ou desistir do motikomi em si. Mas isso não seria o correto e eu mesmo não poderia me perdoar se eu desistisse tão fácil. Preciso melhorar, sempre.

Cheguei em casa, peguei aquela folhinha com minha nota preenchida às pressas pelo editor e preguei na frente da minha mesa. Pra não esquecer nunca, não que eu não tive todas as notas máximas, mas que com uma historia incompleta, eu fui pro motikomi, recebi as criticas e não desisti.

workspace