Mangá Grátis – Opção 4 – JComi

Yo!

Na última postagem desta série, vamos ver o site criado por Ken Akamatsu e que tem mexido as estruturas lá no Japão!

Akamatsu tem uma carreira bem curiosa. Otaku de carteirinha, começou fazendo dojinshi (fanzine, revista amadora) e alguns materiais eróticos. Entrou para o grupo de autores da Shonen Magazine, da Kodansha, e começou publicando comédias românticas. Seu primeiro título de sucesso foi AI ga Tomaranai, que era basicamente, uma releitura de Video Girl Ai, de Masakazu Katsura. Mas ele foi estourar mesmo só com seu trabalho seguinte, Love Hina (publicado no Brasil pela JBC) e Negima (também da JBC). Sempre atualizado quanto ao lado tecnológico da coisa, foi um dos primeiros autores a levar as cores digitais pras revistas grandes de mangá (antes disso, Masamune Shirow e Buichi Terazawa já haviam publicado, mas em situações mais especiais) e logo ele percebeu as mudanças do mercado de mangás.

Em 2008, ele abriu uma empresa, chamada de JComi, abreviação à moda japonesa de Japanese Comics. No começo, seu propósito ainda não era muito certo e apesar de muitas pessoas saberem do ocorrido, ninguém imaginava ainda o que ele iria fazer.

Foi quando no final de 2010 ele anunciou que iria abrir um site, com o nome de JComi, para distribuir de graça Love Hina, um de seus maiores sucessos, em boa qualidade, tanto para leitura no site quanto para baixar e ler mais tarde. E não só isso, ele iria ainda distribuir mangás de vários outros autores, incluindo alguns de renome, como Mayu Shinju.

Distribuir mangás, de graça para o público… Mesmo desacreditado pelos homens de negócio das editoras, o projeto foi pra frente. Akamatsu divulgou com felicidade os ganhos só da história de Shinju na época, uma história curta desconhecida do começo de sua carreira: era mais do que se ganha por página. E isso o lucro liquido dela, descontando o que foi pago para a empresa. E nada mais.

O modelo de Akamatsu trabalha com materiais chamados “Zeppan Manga”, que é o termo usado no mercado para histórias que as editoras não pretendem republicar e não querem pagar para manter os direitos (no Japão, a editora compra os direitos por tempo, história por história, e vai renovando com o autor; quando o material não vende mais, ela não renova e os direitos passam todos ao autor). O interessante é que ai era um buraco negro dos mangás. Esses direitos iam pra um limbo e só saiam de lá de vez em quando, se algum aventureiro decidisse publicar alguma coisa, como acontece, por exemplo, em lojas de 100 yen, o equivalente as nossas lojinhas de 1,99 (que nem existem mais). Não virava lucro.

De onde sai o lucro da JComi? Sai somente de sistema de affiliate com a Amazon japonesa e anúncios, que bancam todo o sistema e dão um bom lucro aos seus autores, de quebra, ainda divulgam qualquer trabalho mais recente do autor, já que o sistema com a Amazon busca os trabalhos do autor disponíveis pra venda em seu site.

Hoje, a JComi tem um catálogo enorme e não se resume mais apenas a mangás sem editora. Temos light novels, livro de fotografia, livro de regra de RPG e mangás recentes.

A JComi ainda pegou os scans da internet e usou a seu favor. Qualquer um pode mandar scans de mangá (desde que sejam de material perdido) e o staff do site entra em contato com o autor para tentar negociar os direitos, transformando o ilegal em material legal e que ainda pode dar uns trocos aos autores!

Outra coisa que a JComi se apropria dos scans é da política. Na própria missão do site, está escrito “Para proteger a memória da cultura do mangá, de forma digital”, nos mesmos termos da desculpa dos scans. E ao contrário da Apple e da Amazon (Kindle), o único critério de escolha é ter sido publicado em alguma revista reconhecida de mangá de qualquer gênero, não censurando ou editando cenas de violência, linguajar, sexo, etc. “Se vemos uma garota ter a cabeça cortada em Devilman, nós queremos ler dessa forma, e queremos que leiam dessa forma” diz o próprio Akamatsu.

Outra coisa bacana é a possibilidade de traduzir ou redigitar em japonês mesmo, os textos dos mangás. Isso possibilita uma busca no site por frase do mangá, além de facilitar o trabalho de tradução.

Não é necessário fazer login no site, mas existe a possibilidade, e pagando 105 ienes (coisa de 2 reais) ou inserindo o texto equivalente a 105 pontos (existe um sistema de pontuação para quem ajuda) você pode usar uma versão em alta resolução do leitor e ter acesso a materiais “adulto”.

Além de tudo, o JComi está presente no iOS e em Android, e diferente do App da Shueisha, este aqui funciona no meu celular.

 

O leitor é simples, qualquer um que conheça o sistema de leitura de scan na internet já deve poder ver sem grandes problemas. O arquivo para baixar é um PDF interativo, pode ser lido em qualquer leitor de PDF.

 

Com isso termino aqui a série de artigos sobre leitura gratuíta de mangás na rede. Ainda sobraram (felizmente) muitas outras alternativas e eu devo voltar em outras oportunidades pra falar delas, mas por enquanto chega. Já tem coisa pra caramba pra ler e bons motivos pra começar a aprender o japonês (se diz otaku e não quer aprender a ler japonês? Poser!), não é?