Free!, Tennis no Oujisama e o moe para mulheres

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Yo!

Com o estúdio Kyoto Animation anunciando que o vídeo polêmico dos nadadores viraria série, as opiniões foram diversas. Bora ver!

Não é de hoje. Os mangás e animes e tudo que é pop sempre mirou para todo público em potencial. Homens, mulheres, crianças… Quando o KyoAni soltou o vídeo dos nadadores, seu público cativo, que vinha de K-ON!, Lucky Star, Clannad e Suzumiya Haruhi no Yuutsu, destilou seu veneno de indignação. Anime de garotos depilados na piscina? QUE NOJO!!

Os maridos de travesseiros se sentiram ameaçados pelo crescimento do estúdio que parou de mirar em um único nicho para desenvolver trabalhos para outros públicos. Isso já era o esperado, os nichos sempre são frágeis, se sentem ameaçados facilmente. Mas o engraçado foi uma parcela grande do público masculino que não é fã de moe que achou aquilo desprezível.

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É curioso. Até pouco tempo atrás, animes com um certo apelo para as mulheres ainda insistia em manter algum atrativo masculino, assim como os quadrinhos masculinos ainda não abandonavam de vez um público amplo para mirar em fãs de personagens 2D. Porém, de uns anos para cá, dá pra se notar uma especialização de algumas séries, que cada vez mais se voltam para serem pacíficas e inofensivas, sexualmente falando. E, por mais que pessoalmente eu não curta esse tipo de material, não vejo problema em existir e de as pessoas quererem ler esse tipo de história.

Comparar Free!, a nova animação do KyoAni com os animes moe, como K-ON! é um pouco precipitado mas se realmente for isso, qual o grande problema? Uma característica que o mercado internacional não compartilha com o japonês é o sucesso de algumas séries masculinas que visam o público feminino, por mais estranho que isso soe. Séries como Gensomaden Saiyuki, Tennis no Oujisama, Kuroshitsuji e até outras que cumprem o papel mesmo que a gente não note uma intenção deliberada, como Slam Dunk ou YuYu Hakusho, alimentam um público feminino com intenções equivalentes à dos fãs do moe. Praticamente todas elas não fizeram o mesmo tipo de sucesso que tiveram no Japão aqui no Ocidente. E mesmo séries que tiveram sucesso entre as garotas daqui, como Kuroshitsuji, não chegam aos pés do que acontece no Japão. Já com o moe, parece que as coisas rolam muito mais parecidas, apesar do Japão ainda ter os casos extremos que são uma característica bem própria.

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Gosto de pensar que esse tipo de mangá e anime é um equivalente totalmente fantasioso de um grupo de idol ou boyband, onde você tem os ícones de idolatria mas não tem a maldita realidade para acabar com os sonhos que cada fã costuma alimentar. É como um Justin Bieber que não fica velho e nem aparece passando a mão na bunda da namorada. Ou uma Hannah Montana que não tira fotos com um bolo de pinto, causando na noite. As fantasias continuam no mundo imaginário de cada fã, que pode pensar o que achar mais conveniente para seu próprio prazer. Daí, temos desde os dojinshis hentai até fãs que fazem bolo para comemorar o aniversário de personagens, em um esforço de fã apaixonado que não está em busca de atenção exatamente. E por isso, quanto menos detalhes sórdidos houver, melhor. De certa forma, funciona como os personagens misteriosos. O charme da personalidade está em perceber uma profundidade mas não ter detalhes. Você consegue ver um horizonte enorme, mas a vista está borrada, te obrigando a imaginar possibilidades, um passatempo que as pessoas adoram ter. O moe e esse equivalente feminino (por que não unir tudo e chamar de moe logo?) se valem disso. Seus persongens não vivem tórridas histórias explícitas de amor, não falam de relacionamento ou muitas vezes sequer têm alguém do sexo oposto para conversar. Os personagens simplesmente vivem. E o resto, fica a cargo do próprio leitor.

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Mas algo no Ocidente não se encaixa com o material japonês. Talvez seja questão de gosto, do público, falta de hábito de ler, preconceito contra personagens animados, etc. Mas o fato é que até hoje, nenhum mangá de garotos bonitinhos cumpriu com sua expectativa pelo sucesso japonês. É engraçado que um país reconhecido como machista e ainda tão cheio de preconceitos dentro de sua própria cultura consiga aceitar e manter um espaço igual para homens e mulheres em seus anseios, em suas fantasias particulares, mesmo nessas versões passivas. Se no Brasil, temos Panicats e programas que exploram a sexualidade masculina, no Japão temos os equivalentes, mas também programas com os garotos de boybands. Os próprios seriados de tokusatsu, como Kamen Rider e os Super Sentai, exploram o público das mamães, com garotos escolhidos à dedo para protagonizar os sonhos dos garotos e as fantasias das mamães. E em um material feito para crianças, é muito mais justificável a falta de romance, mesmo no caso dos super sentai, onde o envolvimento entre garotos e meninas é mais constante.

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Curiosamente, entre os fãs, foram as mulheres que exploraram primeiro as fantasias moe com dojinshi sobre seus personagens favoritos. Não é a toa que o Yaoi é um gênero forte e cheio de publicações e variações e o equivalente masculino é simplesmente pornografia. As mulheres refinaram esse tipo de história. Fizeram Boys Love e até mesmo coisas que lembram mais o moe, simplesmente sem romance, seja hétero ou homossexual. Durante a década de 90, no auge da cultura do dojinshi, Slam Dunk foi o título que mais recebeu versões de fãs, praticamente todas mulheres. Algum tempo depois, foi Tennis no Oujisama e Gensomaden Saiyuki. Mais recentemente, Kuroshitsuji e Kuroko no Basket.

A reação à Free! nos lembrou um pouco do preconceito que temos enraizado em nós mesmos, até nos que se dizem mais abertos. É muito mais difícil um homem ser simpático a um material visivelmente feminino do que o inverso.

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Vejo com bons olhos a estreia de Free! como um anime que explora um formato de sucesso mas com um público diferente. E as mulheres precisam de algum incentivo para ver animes, já que nos mangás elas leem tanto quanto os homens. As animações ainda são praticamente voltadas só para o público masculino, também por causa do desinteresse das mulheres no geral pelo formato. Nas pesquisas, as mulheres leem mais tankohon do que assistem animes ou recorrem às antologias. Provavelmente nem verei Free!, como não vi os “crássicos” do moe. Mas quanto mais opções houverem, mais público iniciado tivermos, mais músculo teremos nessas empresas que precisam disso para continuar animando com liberdade, o que quer que seja.

Site oficial da série

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