A vida além da Jump – O laboratório do pop, Bessatsu Shonen Magazine

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Yo!

Todo mundo comenta a Shonen Jump. Todo mundo fala da Shonen Jump. Ok, eu também falo muito dela. Mas bora ver outras opções?

O Japão é o lar de muitas publicações de mangá, cada uma com uma história única, uma filosofia editorial própria, metas e ideais. Porém, é inevitável a associação das revistas japonesas com a Shonen Jump. É até merecido esse status, pois a revista conquistou isso com ousadia e nadando contra a maré ao invés de se ancorar em soluções seguras. Mas o mais saudável do mercado japonês é a quantidade de escolhas. A Jump reina, mas não elimina as outras. Magazine e Sunday se digladiam pelo segundo lugar e muitas outras revistas vendem números assombrosos se pensarmos no atual mercado mundial.

Mas apesar de conhecermos esta ou aquela obra da revista, muitas vezes nem as associamos a seu berço. Aí também um mérito da Jump, que virou uma grife, enquanto as outras funcionam mais como lojas de departamento. Você lembra que comprou um tênis da Adidas mas dificilmente lembra onde comprou.

A ideia dessa nova série é mostrar outras revistas, suas histórias e sua forma de pensar. Isso ajuda a desmistificar o mercado japonês, que no Ocidente, é pautado como se a Shonen Jump não fosse uma exceção, e sim a regra vigente. Quantas vezes você não leu que os japoneses fazem concursos e que o material autoral é a base, que editores não encomendam histórias ou que os leitores posicionam as histórias votando em seus favoritos?

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Esta primeira matéria aqui surgiu como uma ideia depois dos animes de Aku no Hana e Shingeki no Kyojin, mais essa notícia de mangá novo da Hiromu Arakawa com o Yoshiki Tanaka. CLICAQUI A Bessatsu Shonen Magazine é uma revista nascida a partir de outra, a eterna número 2, Shonen Magazine. Enquanto a Magazine semanal (chamada de ShuMaga no Japão, abreviação de Shukan Shonen Magazine) publica títulos pop, como Fairy Tail, Air Gear e Hajime no Ippo, a Bessatsu Magazine (ou BetsuMaga, uma abreviação mais complicada de entender para quem não conhece japonês, o”tsu” é pela sílaba que tonifica a anterior) é uma revista juvenil estranha, que tem um lineup recheado de material que beira o experimental, coisa que nunca seria colocada do nada na calculadíssima ShuMaga.

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A BetsuMaga ao lado da revista principal.

E foi exatamente para isso que nasceu a revista. Quando ideias muito loucas e interessantes começaram a pipocar no ambiente editorial da divisão para garotos da editora Kodansha, sobrava a eles duas opções na época: ceder essa mina de ouro para a divisão para adultos, que ainda mexeria nela para adequar ao público, ou mandar deixar a história mais pop. Publicar material genial é sempre motivo de muitas gastrites no mercado editorial. O público pode amar ou odiar, não existe um meio termo. Todo mundo sabe que qualidade não é sinônimo de vendas. Mas eles decidiram criar uma terceira opção. Lançaram uma revista nova especialmente para testar novas ideias!

O resultado não poderia ser melhor. De cara, a revista estreou com estardalhaço, trazendo uma série nova do autor de Konjiki no Gash!! (Zatch Bell! no Brasil), Makoto Raiku, que saia da rival Shonen Sunday. A qualidade dos títulos iniciais era tanta que dos 15 títulos que estrearam com a revista em Setembro de 2009, 5 deles continuam a ser publicados até hoje, com capítulos mensais. Entre eles, outro renegado, Shingeki no Kyojin, recusado pela Shonen Jump. SAIBA MAIS AQUI

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O sucesso da revista foi um tapa na cara de toda a concorrência. A Shonen Magazine e a própria editora Kodansha sempre foram reconhecidas no meio dos mangakás como uma editora mais flexível. Muitos artistas que sentem atrito com o retorno editorial de suas histórias, acabam entrando em contato com os editores da ShuMaga. Ou então quando querem tentar algo diferente. É o caso, por exemplo, do CLAMP, com XXX HOLiC (no Brasil, lançado pela JBC). A série é conectada com outra, Tsubasa Chronicle, uma coisa que os japoneses não costumam gostar. As duas saíram cada uma em uma revista. XXX HOLiC saiu na BetsuMaga e Tsubasa na revista principal.

Como a revista é uma extensão da própria ShuMaga, seu corpo editorial é bem peculiar. Ao invés de escalar uma equipe fixa para a revista, quem toma conta dela é o próprio grupo da Shonen Magazine semanal. O sistema deles, dividido em pequenos grupos de editores, com um líder de equipe, encabeçados por um editor-chefe e um vice, permite a rotação de responsabilidades (a maior parte das revistas funciona assim, até a Jump). Então, a BetsuMaga muda seu corpo editorial todo mês, com o líder de equipe do grupo da vez como editor-chefe interino.

O lema da revista é “A coletânea das mais novas aventuras” e sua missão editorial é a de publicar tudo o que é bom mas não cabe à Shonen Magazine semanal. É a Black Ops dos quadrinhos para garotos, fazendo o trabalho sujo de testar o gosto popular e criar novos parâmetros. Eles pensaram que para criar histórias que tragam sonhos e esperança aos leitores, é preciso dar uma boa dose de desespero também, no que eles chamam de “Dark Fantasy”. Por isso, os nomes que foram sugeridos antes de se usar o Bessatsu Shonen Magazine foram “Kuro Shonen Magazine” (Shonen Magazine Negra) e Shonen Magazine X (que se leria Kai, que significa revisada, reinventada).

Esse formato deu tão certo que as outras editoras reformularam suas revistas mensais para se adequar ao mesmo formato. A Jump SQ (ex-Shonen Jump mensal) e a Gessan (Ex-Shonen Sunday mensal) são reformulações com a “coincidência” de serem revistas ousadas e experimentais. Quem ganha com isso é o público, que tem alternativas de leitura.

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Revistas Bessatsu

O nome “Bessatsu Shonen Magazine” na verdade, é herdado de uma revista anterior. Nessa versão antiga, a revista se resumia a publicar histórias extras de sucessos, histórias curtas e testes de novatos. Era literalmente uma edição extra da Shonen Magazine, o que seria uma tradução para o “Bessatsu”. Hoje, esse papel é desempenhado pela Shonen Magazine Special, que não herdou o nome, mas ficou com todas as características. Sim, confuso assim. Bessatsu é um termo bem usado no mercado editorial em geral, tendo essas versões “extras” de várias revistas, como a Shonen Champion (Crows Zero), Margaret (Kimi ni Todoke) e Hana to Yume (Otomen). No passado, Shonen Sunday e até mesmo a Shonen Jump já tiveram edições Bessatsu.

O público da BetsuMaga é “shonen”, ou seja, para garotos, em teoria. O planejamento é feito para uma média de idade de 18 anos, mas a própria revista admite que a média real é de 22 anos, o que tornaria a revista uma concorrente para as revistas de categoria “Young”, como a Young Jump de Gantz e sua irmã, Young Magazine, que publica Kaiji e Initial D. A tiragem da Bessatsu Shonen Magazine é respeitáveis 65 mil cópias. Distante dos 500 mil de revistas como a Shonen Champion ou dos milhões das três grandes revistas shonen. Mas a revista se mantém muito bem e a venda de tankohon de séries mais famosas garante sua longevidade.

Veja uma lista do que saiu de bom na revista nesses quatro primeiros anos:

Doubutsu no Kuni

Série de Makoto Raiku, que saiu brigado da rival Shonen Sunday. Tarouza é o único humano em um lugar onde vivem vários animais. A série acompanhou a vida do personagem tentando criar uma sociedade pacífica entre animais carnívoros e herbívoros. De um bebê, hoje ele é adulto e a história caminha para um fim.

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Shingeki no Kyojin

Hajime Isayama cansou de ser colocado para escanteio pelos editores da Shonen Jump e arriscou a Shonen Magazine. Acabou indo para a nova revista que eles criaram, onde sua série de aventura e um certo terror acabou virando a flagship, retratando o espírito da publicação. Nela, Eren Jaeger é um dos sobreviventes de uma tragédia que condenou os seres humanos a viver dentro de muralhas para fugir de terríveis gigantes cujo único objetivo de vida é comer gente. Na mesma revista ainda tem uma versão engraçadinha, chamada de Shingeki! Kyojin Chugako, usando os personagens em uma comédia escolar.

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Aku no Hana

Criado por Shuzo Oshimi, a série perverte todos os clichês dos mangás românticos, colocando seu protagonista Takao Kasuga em uma bizarra relação com Sawa Nakamura, sua colega de classe estranha, que o chantageia, tentando abrir seus olhos para toda a perversão que mora dentro dele.

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Sankarea

Trazido por Mitsuru Hattori, mais uma forma estranha de se fazer um gênero que andava cansado. Chihiro Furuya é obcecado por zumbis ao ponto de ter sonhos românticos com uma garota zumbi. Ele descobre em livros antigos a forma de se criar uma fórmula que ressuscita os mortos. Quando uma menina que fugia de casa toma essa poção e sofre um acidente, ela se torna um zumbi.

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Joshiraku

Koji Kumeta (criador de Sayonara Zetsubou Sensei) escreve e Yasu desenha esta história, uma comédia leve como K-On!, mas com garotas apaixonadas pelo Rakugo, uma forma tradicional de comédia do Japão.

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Negiho

YUI adapta Mahou Sensei Negima, mangá de Ken Akamatsu, para um cenário em que os personagens estão no jardim de infância.

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XXXHOLiC

Série casada com Tsubasa Chronicles, marca essa fase mais recente das meninas do estúdio CLAMP. Apesar da série começar na Young Magazine, seus últimos capítulos e uma continuação foram feitas na BetsuMaga. Kimihiro Watanuki é amaldiçoado por poder ver e ter afinidade com demônios e espíritos. Para se livrar disso, ele faz um acordo com a bruxa Yuko Ichihara, que promete realizar seu pedido em troca dos serviços de Kimihiro como empregado temporário.

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A BetsuMaga não é o tipo de publicação que vai almejar recordes de venda, afinal, seu papel é mais de apoio para a revista principal. Alguns autores testados na BetsuMaga acabaram indo produzir para a Shonen Magazine semanal e autores da revista principal testaram histórias diferentes e até séries completas na revista extra. É um tipo de revista que só por existir já prova a vitalidade do mercado japonês, que pode ter o luxo de ter um periódico só para laboratório, onde experimentam novas séries e até testam os leitores para experiências de leitura inusitadas. Isso é a pá que abre o chão e dá profundidade para as possibilidades do mangá, tornando realidade a diversidade criativa que é atribuída ao mercado japonês de quadrinhos.

 

Bessatsu Shonen Magazine
Estreia – 9 de Setembro de 2009
Público – Shonen
Periodicidade – Mensal, todo dia 9 ou antes no caso de feriado
Editora – Kodansha
Tiragem média atual – 65 mil cópias
Site Oficial LINK

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13 ideias sobre “A vida além da Jump – O laboratório do pop, Bessatsu Shonen Magazine”

  1. Interessante. Dias atrás tentei encontrar na web uma lista com os mangás mais vendidos da história( procurei em inglês também). O Impressionante é que só encontrei os mais vendidos da Jump. Seria interessante se você publicasse tal informação, e também os bestsseler da kodansha e Shogakukan( já que a da shueisha é fácil de achar). E escreva logo sobre as tradicionais Shonen Sunday, Shonen Magazine e Shonen Champion, por favor. Gostei muito do texto.

    1. Dá pra ir atrás desses números, já que todas as editoras japas postam eles. Mas esse tipo de trabalho é o Qwerty que curte, eu sou mais um cara de fatos, ele que gosta de números. Quando à Magazine, Sunday e Champion, a ideia era ficar pra bem depois, já que o negócio era mais apresentar revistas menos famosas e de menor circulação. Mas um dia eu vou fazer, certeza.

  2. Ótimo texto! Eu não fazia ideia que Aku No Hana, Shingeki No Kyoujin e XXX HOLiC vinham da mesma revista, afinal são mangás com estilos completamente diferentes.

    Aproveitando o espaço, parabains pela publicação de Curiosidades Level Master na Neo Tokyo. O texto ficou muito bom e a equipe da revista conseguiu dispo-la de uma maneira muito bonita e dinâmica.

    1. Hã? Como assim? Saiu o texto inteiro?? Eu deixei ele usar a info, ainda mais que ele disse que iria creditar, mas usar o texto completo é uma coisa completamente diferente! Saiu até com o mesmo nome? Ai, minha gastrite…

      1. rsrs Agora não me lembro. Mas foram algumas páginas da revista só com curiosidades. Não cheguei a ler inteiro nem pude comparar, já que apenas dei uma rápida olhada na banca. Só que as poucas coisas que li me pareceram bem familiares. Acredito que tenham utilizado seus posts como base, ou pegaram um deles e publicaram. E no final da matéria pude ver o seu nome e o do blog sendo creditados. Sobre o título, se não era o mesmo, era bastante semelhante.

        Em todo o caso, só o fato de o terem escolhido para ser publicado ou usado como fonte para uma publicação não é pouca coisa. Merece, novamente, meus parabains.

        P.S.: Espero não ter causado problemas de saúde desnecessários.

          1. E então, Sakuda? O texto todo foi publicado ou apenas usaram? Sinceramente espero que só tenham usado a info, porque não quero ver briga nenhuma. :S

          2. Consegui nada. Me deram o balão. Mas já trocou a administração. Agora são os editores da finada Anime>Do que editam a Neo Tokyo.

  3. Mto legal! meu contato com outras revistas além da JUMP foi em 2000 qdo ganhei várias “Sundays” como parte de pagamento por uma ilustra. Quando se descobre algo inimaginável (na época pra mim era) sobre algo que vc gosta muito a absorvição da cultura se expande.

  4. Opa, legal o artigo, aliás, não sabia que algumas series que eu lia eram da Bessatsu.

    Sankarea mesmo tendo uma proposta boba, é uma série que me diverte bastante.

  5. Realmente, existe um mundo de oportunidades após a Jump. Eu sempre tive isso em mente, mas é difícil descobrir quais são essas revistas. Quer dizer, era difícil… Agora sempre que leio um novo mangá que gosto, vou logo buscar de que revista é, para mim ter mais referencias. O artigo está fantástico, como sempre.

    Fábio, você já fez algum artigo sobre Light Novels? Gostaria de conhecer esse mundo também, saber sobre as editoras e a relação dos estrangeiros com essa área. Se você já fez, pode me mandar um link? Se não… Rola fazer um dia? >.<

    Obrigado pelo ótimo trabalho o/

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