Análise – anime Sakamichi no Apollon

Sinceramente essa última temporada de animes não teve muita coisa que me agradou não, mas Sakamichi no Apollon é uma exceção à regra e que bom que exceções existam.

Essa aguardada estreia do bloco Noitamina marcou a volta do diretor Shinichiro Watanabe a direção de animes. Caso você não esteja ligando o nome à pessoa ele foi o diretor do cultuado Cowboy Bebop e também dirigiu o descolado Samurai Champloo. Com um currículo desses era normal a alta expectativa que os fãs geraram em torno do novo anime e por incrível que parece todas as expectativas conseguiram ser superadas.

A História

É importante ressaltar que além dos méritos na direção de Watanabe o anime vem com uma base de história muito bem construída, afinal, é adaptado de um premiado mangá. Juntando excelente direção com bom roteiro temos uma história que usa como pano de fundo o começo da popularização do Jazz no Japão de 1966 (caso você não saiba o Jazz é muito popular por lá).

Nesse ambiente conhecemos os protagonistas da história, os jovens Sentaro, Kaoru e Ritsuko que em meio a muita música aprenderão e até se confundirão um pouco com sentimentos relacionados ao amor e a amizade. Além do trio principal outros personagens ganham destaque, como o trompetista Junichi e a bela estudante Yurika que acabam por ter uma subtrama paralela a principal (e tão emocionante quanto).

Enquanto o trio de amigos passa por um aprendizado puro e de descobertas mais simples, o jovem casal Junichi e Yurika se envolve em uma trama com preconceitos, politica e desejo. Eles quererem ficar juntos mesmo que isso acabe levando-os a abdicar de algumas coisas mostra uma maturidade que não é possível enxergar na singela relação do trio de amigos e isso consegue balancear a história de uma maneira muito engenhosa.

Usando uma narrativa que lembra muito a das novelas japonesas Sakamichi no Apollon levanta a grande questão: devemos correr atrás de mudarmos nossas vidas ou apenas deixamos a maré correr seu percurso natural?

Junichi e Yurika tentam mudar os fatos, já Kaoru, Sentaro e Ritsuko apenas deixam a maré correr e é nessa complexidade de escolha que temos toda a dinâmica de acontecimentos dos 12 episódios do anime.

O antigo com uma nova roupagem

No quesito estético essa animação do estúdio Tezuka Productions não deixa a desejar também. Considero uma boa escolha eles terem mantido o traço do mangá, bem mais clássico, praticamente fazendo uma releitura do visual de animes antigos.

Não tem como não citar também as cenas musicais, o movimento dos personagens enquanto tocam bateria, piano, trompete, contrabaixo ou o que mais tiver em cena ficou incrível. Provavelmente usaram técnicas de rotoscopia porque ficou muito real, são em detalhes assim que fica evidente o capricho com cada episódio.

Tecnicamente falando é o melhor anime desse ano, claro que muita coisa ainda está por vir, só que é difícil alguém conseguir bater eles. Se formos contar o quesito musical então!

Jazz na medida certa

Seja você amante de boa música ou não à trilha sonora de Sakamichi no Apollon irá te conquistar. Recomendo muito que vocês ouçam a OST do anime, ela é sensacional, mais um acerto na carreira da compositora Yoko Kanno (Cowboy Bebop, Ghost in the Shell, Wolf´s Rain).

As músicas de abertura e encerramento também são belíssimas e interpretadas de maneira magistral pela cantora Yui e pelo cantor Motohiro Hata respectivamente. Se tudo isso já não bastasse ao longo do anime ouvimos várias canções de grandes nomes do Jazz como Miles Davis, Bill Evans e Art Blakey.

Já deu para perceber que além de visual o anime realmente não está para brincadeira quando o assunto é música né! Agora se juntarmos roteiro, arte, animação e música o que realmente temos?

Considerações finais

Sakamichi no Apollon é antes de tudo um retrato do amor, da amizade e da música. É também o retrato de uma época de grandes mudanças para o Japão. E nada melhor do que uma cidade do interior e dois garotos totalmente opostos para termos uma parábola moderna sobre mudanças e companheirismo.

Nenhum dos personagens principais possui uma vida perfeita e cada problema que eles enfrentam está ali para evidenciar uma transformação em suas maneiras de enxergar as coisas. Eles estão tentando achar seu lugar no mundo e essa busca necessita de mudanças, algumas nem sempre planejadas.

Sentaro consegue perceber que está destinado a ajudar as outras pessoas devido às desilusões que teve e provavelmente se tivesse mais sorte na vida teria feito outras escolhas. Kaoru segue o mesmo caminho e é totalmente pressionado a ter uma boa profissão, a estudar bastante. Os personagens são passivos em relação aos acontecimentos que o cercam, eles não tentam buscar nada para mudar. A própria Ritsuko mesmo gostando muito do Kaoru não faz nada para ficar com ele até o fim. Apenas Junichi e Yurika fazem algo para sair do lugar comum, para tomarem as rédeas de suas vidas.

É interessante perceber que todos os personagens acabam por tentar impulsionar uma mudança na vida do colega ao lado, mas quando se trata de sua própria vida eles quase nunca fazem nada. O único momento em que eles realmente fazem o que querem é quando estão tocando Jazz, é quando finalmente conseguem improvisar, deixam as coisas fluírem de maneira natural.

A música em Sakamichi no apollon representa os pequenos bons momentos, aquelas frações de segundos (se comparadas a vida como um todo) onde os personagens estão em sua plenitude, lá sim eles estão mudando o mundo…o seu mundo particular.

Sinceramente essa última temporada de animes não teve muita coisa […]