Análise de tribo urbana: Gonguro

“Boi boi boi…boi da cara preta…”
É, quem dera fosse apenas uma música de ninar, mas não há maneira melhor de descrever o movimento das meninas da cara preta (aka Gonguro), um perigo real e imediato à estética.

Elas literalmente escureceram a cor da pele através de bronzeamento artificiais ou produtos baratos para bronzeamento (hellooo cenoura e bronze) ou até mesmo – pasmem – aplicando produtos para polir sapatos no rosto. Não bastasse apenas escurecer a pele, a maquiagem ainda inclui círculos brancos em volta dos olhos e boca, deixando o look ainda mais bizarro, ou para os mais bem intencionados, parecidas com um urso panda. Para completar, cabelos completamente oxigenados que vai do laranja-loiro ao prateado.

Pelas ruas de Shibuya já passaram muitas tribos, mas nenhuma foi tão extrema quanto às Gonguro (que significa literalmente “cara preta” na linguagem das Gals).
Desde 1990 as colegiais conhecidas como Kogals já vinham escurecendo o tom da pele por meio de bronzeamento. E antes das Gonguro, houve um breve movimento, chamado Ganguro em que as meninas apenas tinham um bronzeado muito forte e marcante. O termo Gon veio depois com os looks mais hardcores.

Por séculos a pele branca como porcelana foi o ideal de beleza japonesa. As Gonguro Romperam essa barreira ao ponto de customizar tudo, até mesmo a cor da pele.

Agora, um pouco de história:

Tudo começou com a extremista fashion Buriteri. Em 1999, começou a circular em Shibuya rumores sobre uma garota que havia criado um estilo completamente diferente, algo entre a genialidade e a insanidade. Pouco tempo depois ela estava estampando matérias da revista Egg (pioneira entre as revistas Gals). Aliás, Buriteri nunca mostrou seu rosto sem a maquiagem porque ela se considera tímida demais.

Nessa época, os salões de bronzeamento, conhecidos como Blacky viraram ícones. Eles inspiraram garotas colegiais a criarem looks extremos. Saias curtas ficaram ainda mais curtas. As cores mais intensas. E nos pés, saltos plataformas gigantes.

Mudar apenas a cor da pele já seria um suicídio social, mas as Gonguro estavam se agrupando e ganhando força. A cultura hip-hop já influenciava a juventude que admirava a cultura negra e o desejo de pertencer à ela. Algo compreensível, visto que a cultura japonesa sempre foi muito reprimida, focada no coletivo e inibindo a individualidade. Se destacar no meio de tantos pares é uma tarefa e tanto.
Por bem ou por mal, foi exatamete o que as Gonguro conseguiram: se destacar em qualquer lugar que estivessem. Mas mesmo que esse grupo fosse evitado ou temido pela população em geral, Buriteri e suas amigas se tornaram celebridades no Japão. Porém, esse sucesso foi bem curto. A imprensa se referia à elas como “garotas sujas”, o que não é verdadeiro segundo Mizuno – adepta do estilo – que diz ” na verdade passamos horas no banheiro fazendo nossa maquiagem. Não é fácil conseguir montar esse look. Mentiram dizendo que éramos prostitutas, que tínhamos AIDS…mas a verdade é que por conta do nosso estilo, não conseguíamos arrumar parceiros”.


Muitos fatores ajudaram a encerrar a curta duração desse estilo, que no início de 2001 já havia perecido. Inclusive Buriteri largou o estilo, dizendo depois ” Não foi por conta da família, mas eu decidi largar esse estilo pela maneira como as outras pessoas me viam. Elas apontavam para mim na rua e gritavam enojadas “Barata” ou “Que doente!”. Meus amigos e eu decidimos que nunca seríamos adultos que julgariam as pessoas pela maneira como elas se vestem”.

“Boi boi boi…boi da cara preta…” É, quem dera fosse […]

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