Idols Japoneses, Fãs Possessivos e Namoros Proibidos – Parte 1

Como os idols surgiram no Japão e os caminhos que fizeram eles dominarem o mercado do entretenimento japonês.

Este será um post especial no Mithril que irei dividir em duas partes. Nesta primeira parte falarei sobre o surgimento dos primeiros idols e como eles quase sumiram na década de 90.

Um idol no Japão, de forma geral, é basicamente um artista que é reconhecido pela mídia e público pela sua beleza, influência, carisma e talento no mundo do entretenimento. Para falar sobre os relacionamentos e tudo o que gira em torno dessas personalidades, precisamos voltar no tempo e contar um pouco sobre como essa cultura se tornou o que é hoje e quais os caminhos que foram traçados para se chegar no que atualmente é considerada uma verdadeira indústria que movimenta milhões e milhões de ienes todos os anos.

O surgimento e ascenção dos primeiros idols japoneses

Apesar dos anos 80 serem considerados os anos de ouro do surgimento da cultura idol no Japão, ensaios e tentativas de formalizar este tipo de celebridade datam de muito antes, com o Japão sofrendo diversas modificações e uma expansão muito grande com a popularização de novas mídias e surgimento de novas formas de comunicação em prol do entretenimento.

Em 1963 surgia aquela que se tornaria uma das maiores agências de idols do Japão, a Johnny’s Entertainment. Criada por Johnny Kitagawa depois dele se encantar pelos espetáculos da Broadway, a agência aos poucos começou a pavimentar o caminho para que outras empresas começassem a investir neste tipo de artista nas décadas seguintes.

Durante as décadas de 60 e 70 aos poucos grupos e artistas foram surgindo mas se limitando apenas a nichos, sendo que talvez o nome mais evidente desta época seja Momoe Yamaguchi, uma cantora que começou sua carreira em 1973 ainda adolescente obtendo muito sucesso no programa “Star Tanjou” da rede de televisão NTV, um dos primeiros programas voltados exclusivamente para a descoberta de novos idols do Japão.

POST-MOMOE

Momoe Yamaguchi

Momoe teve uma carreira estratosférica sendo considerada a maior estrela da década de 70 e mesmo lançando sucesso atrás de sucesso, no final daquela década ela decidiu se retirar do mundo do entretenimento após anunciar o seu casamento com o ator Tomokazu Miura, sendo que a decisão da cantora pegou muita gente de surpresa. Segundo seu livro autobiográfico, Momoe se dizia cansada de cantar sempre as mesmas músicas e fazer sempre as mesmas coisas todos os dias. Depois de sair do mundo do showbiz, muitos rumores de retorno apareciam, mas a decisão de Momoe estava tomada e ela se dedicou a cuidar de seus dois filhos como uma dona de casa enquanto o marido continuava atuando no cinema e na televisão.

Na década de 80, considerada a Era de Ouro dos idols japoneses, a industria cresceu de tal forma que segundo estimativas, mais ou menos 50 idols novos surgiam no Japão todos os anos e o mercado estava completamente dominado por esse tipo de artista multiuso que atuava, dançava, cantava e participava de comerciais.

Seiko Matsuda, considerada a “Eterna Idol Japonesa” é uma das cantoras que começou a sua carreira na década de 80 e é até hoje reverenciada por muitas cantoras e atrizes japonesas. Mizuki Nana, minha cantora preferida, sempre faz questão de falar que Seiko é a inspiração dela para se tornar cada vez mais uma cantora melhor e que agrada o seu público. Seiko, ao contrário de Momoe, continua cantando e participando de programas musicais sendo uma das únicas artistas daquela época que ainda continuam na ativa até hoje. Ela é considerada uma das cantoras femininas de maior sucesso da história do Japão.

Seiko Matsuda em 1983

Seiko Matsuda em 1983

Seiko se casou três vezes e tem uma filha, Sayaka Kanda, que também é cantora, filha de seu primeiro casamento com o ator Masaki Kanda. Além de Eterna Idol, Seiko é considerada também uma “Mamadol”, alcunha dada a ela por manter a sua popularidade mesmo depois de se casar e ter filhos.

Outra cantora que fez um imenso sucesso na década de 80 foi Akina Nakamori. Assim como Momoe Yamaguchi, Akina apareceu para o Japão depois de passar pelas audições do programa Star Tanjou e rapidamente conseguiu um sucesso absurdo a cada single que lançava. Akina era considerada a grande “rival” de Seiko Matsuda pelo fato das duas terem começado a carreira mais ou menos na mesma época e terem personalidades um pouco diferentes. Enquanto Seiko era a garota angelical, recatada, uma tipica idol que os japoneses amavam e amam até hoje, Akina tinha um estilo mais rebelde e bem característico dos jovens dos anos 80. A rivalidade entre as duas, claro, era algo da mídia, já que Akina sempre se mostrou uma grande fã de Seiko e respeitava muito o seu trabalho.

Akina Nakamori

Akina Nakamori

Apesar de ter tido uma carreira extremamente poderosa e lucrativa durante os anos 80, já no final daquela década a sua carreira começou a declinar mas sempre mantendo uma boa audiência. Hoje em dia ela não é tão conhecida quanto Seiko, mas por diversas vezes é considerada uma das artistas mais importantes e influentes da década de 80 pela sua contribuição para a cultura idol no Japão

Diversos artistas masculinos também fizeram muito sucesso na década de 80 como Hiromi Go e grupos como THE GOOD-BYE, Tanoki Trio, Shibuyakitai, Shonentai e mais tarde surgiram outros como o Hikaru Genji e o SMAP, ambos de 1988, porém nenhum chegava perto da popularidade que as idols femininas alcançaram naquela época. Mas, por causa desses dois ultimos grupos e principalmente por causa do SMAP, as coisas começaram a mudar anos mais tarde.

A importância das músicas de anime nos anos 80

Assim como as idols explodiram de popularidade na década de 80, os animes também começaram a ficar cada vez mais populares e com isso mais e mais cantores e cantoras eram escalados para cantar os temas musicais para essas produções. Desde a década de 70 músicas como a abertura de Mazinger Z, de Ichiro Mizuki já eram bem populares entre o publico que acompanhava animes. A grande diferença se deu depois, com as músicas de animes que começaram a ser cantadas por mulheres e tinham uma outra ligação com as séries de qual elas eram tema.

Leia também: Seiyuus! Como surgiram, o que fazem e como ficaram tão populares?

A música que talvez tenha estabelecido as animesongs por parte da industria dos idols foi “Ai, Oboete Imasuka?” tema do filme de Macross em 1983. A música performada por Mari Iijima fez um sucesso absurdo na época e é uma dos principais pilares que a música voltada para animes seguiria com o passar dos anos. Macross, aliás, desde o seu primeiro anime em 1982 tinha uma premissa muito interessante em incorporar a música em seu enredo. Mari era a seiyuu de Lynn Minmay, uma personagem icônica da série que serviu de pano de fundo para VÁRIAS outras personagens de animes musicais. Macross desde aquela época é um expoente de músicas de anime com grandes cantoras sendo uma série que atravessou eras tendo como parte crucial as seiyuus e consequentemente idols que eram escaladas para cantar seus temas.

Macross - the Movie

Macross – the Movie

Aos poucos idols não eram apenas mais cantoras e cantores que iam na TV performar suas músicas, mas também artistas diretamente envolvidos com a industria dos animes que crescia cada vez mais naquela época. Grandes cantoras que ficariam famosas mais tarde começaram suas carreiras principalmente por causa de séries como Macross, fundamentais para seiyuus deixarem de ser algo marginalizado pela industria e serem tratadas com verdadeiras estrelas.

A queda de popularidade nos anos 90

A década de 90 foi uma época muito obscura para os idols japoneses, não só pela queda de popularidade e divisão de idols em ramos especificos da industria, mas também pela ascensão de outros ritmos musicais dentro do mercado fonográfico japonês, como o J-Rock e sua variante mais conhecida, o Visual Kei.

Se na década de 80 crescia cada vez mais o número de idols surgindo no Japão, na década de 90 eles começaram a se restringir novamente a pequenos nichos da sociedade para dar lugar a cada vez mais bandas de rock e visual kei que simplesmente dominaram o Japão por praticamente aquela década inteira. Foi nessa época que bandas como o X Japan, BUCK-TICK, LUNA SEA e GLAY explodiram de popularidade arrastando multidões para seus shows e servindo de exemplo para outras bandas novatas alcançarem o estrelado.

Mas se por um lado a popularidade das idols femininas estavam cada vez menores, os idols masculinos por sua vez começavam a ganhar terreno, mesmo que timidamente. Grupos idols masculinos como o já citado SMAP começaram a fazer seu nome nessa época e outros grupos começaram a surguir como o V6, Kinki Kids e o TOKIO, todos sob tutela da mesma Johnny’s Entertainment que começou tudo isso lá na década de 60.

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SMAP

Como a Jacque já comentou em seu post sobre a Johnny’s Entertaiment, os Johnny’s são idols treinados desde criança para fazerem de tudo e serem verdadeiros príncipes para as garotas japonesas. É a personificação do príncipe prometido e que será todo de suas fãs e nada mais.

Já as idols japonesas tiveram que se reinventar “especializando-se” em ramos específicos para atrair mais público. Essa especialização seria fundamental para o sucesso de idols que surgiram depois e provavelmente seria o começo do grande problema da industria nos dias atuais. Uma dessas especializações foi continuar investindo em músicas de animes. Megumi Hayashibara, uma das principais seiyuus da década de 90 também era cantora e lançou muitos sucessos se tornando, até Mizuki Nana superá-la anos mais tarde, a seiyuu mais bem sucedida até então.

Leia também: Mizuki Nana, a maior seiyuu da história do Japão

Yoko Takahashi, Hekiru Shiina e Mariko Kouda também foram grandes seiyuus que seguiram a carreira no mundo da música e criaram grandes clássicos da década de 90, como o tema de Neon Genesis Evangelion, “Zankoku na Tenshi no Thesis”, se tornando verdadeiras idols com milhares de seguidores em seus shows e vendendo muitos produtos relacionados à sua carreira.

Megumi Hayashibara

Megumi Hayashibara

Essas idols dos anos 90 começavam as suas carreiras cada vez mais novas, como gravures (idols que tiram fotos de biquini) e cantoras mirins, sempre para públicos muito específicos e praticamente voltados para os bairros mais tecnológicos e de nicho das grandes cidades japonesas, como o famoso bairro de Akihabara, meca da cultura otaku no Japão até hoje e a área de Harajuku e sua famosa “Takeshita Dori”, local onde as tendências de moda feminima fervem em Tóquio. Assim como os Johnny’s, as idols femininas que antigamente já tinham essa aura de pureza e submissão perante os fãs, começavam a ficar ainda mais marcadas por isso.

O J-Rock e o Visual Kei ainda tinham bastante força no mercado fonográfico japonês no inicio dos anos 2000, mas com a decisão de Toshi de deixar o X Japan em 1997 e a morte trágica de hide no ano seguinte, a cena musical japonesa de rock e visual kei sofreu um duro golpe na virada do século com o fim daquela que era a maior banda e um dos principais expoentes do rock japonês no mundo. O X-Japan passou um longo periodo sem lançar nada até que em 2007 voltou e continua até hoje. Tanto o X Japan quanto outras bandas de J-Rock e Visual Kei estavam começando a ver que uma antiga força na música começava a aparecer aos poucos retornando com força total, para então dominar novamente o mercado fonográfico japonês.

Na segunda parte do post sobre a história dos idols no Japão irei falar sobre a retomada do mercado japonês pelos idols e como eles hoje em dia lidam com a superexposição de suas vidas, além de grupos que surgiram com uma premissa muito parecida do que o Japão já havia presenciado na década de 80.

Até lá!

LEO-RODAPE

Sobre Leo-Kusanagi

Apaixonado por cultura japonesa desde criança, começou a escrever sobre japonices em 2008, no Mithril e de lá pra cá cobriu diversas transformações da música japonesa ao longo dos anos. Viciado em games, doramas, animes, filmes e design, tem como objetivo informar e disseminar a cultura japonesa na internet.

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