O que aconteceu com os Fansubs de Doramas no Brasil?

 

O que será que aconteceu com os fansubs de dorama no Brasil pra que eles praticamente tenham sumido nos últimos anos?

Antes de tudo, preciso fazer um breve esclarecimento aqui:

1- Quando se fala de doramas hoje em dia, é comum associar a palavra tanto aos doramas japoneses quanto aos coreanos. Neste post, tratarei principalmente dos doramas japoneses, mencionando-os como “doramas”. Ao falar de doramas coreanos, irei me referir a eles como “k-dramas” para ficar melhor a diferenciação entre os dois estilos de “dramas” orientais.

2- O intuito do post não é falar sobre a legalidade ou da não distribuição de material relacionado a animes, mangás, doramas ou qualquer outro conteúdo na internet, muito menos questionar ou apontar dedos quanto à distribuição deste material.

A Era de Ouro dos Doramas no Brasil

Quem acompanha o Mithril, ou pelo menos conheceu o blog por causa de doramas, sabe que desde 2008 tenho uma série aqui no blog chamada “J-Drama Review” que, como o nome diz, são resenhas de doramas que já assisti e que quero recomendar às pessoas. Quando comecei essa série, o fansubbing de doramas no Brasil estava a todo vapor com diversos grupos legendando séries clássicas e lançamentos. Acredito que os anos entre 2005 e 2010 foram a “era de ouro” do fansubbing de doramas no Brasil.

Em 2005, estreava no Japão aquele que seria um dos primeiros doramas de muita gente e que com certeza fez a galera dos animes olhar para essa “nova” mídia com outros olhos: Densha Otoko. O dorama, que tem resenha aqui no blog, tem como tema um cara viciado em animes, mangás e games que se apaixona por uma moça e que mostrava o maravilhoso mundo de Akihabara, além de tudo que envolve a cultura otaku japonesa. Conheço muita gente que pode até não assistir doramas, mas com certeza assistiu Densha Otoko, porque foi muito comentado na época em que saiu.

densha

Claro que isso não significa que TODO MUNDO começou a assistir doramas por causa de Densha Otoko, mas mesmo a pessoa não tendo começado por ele, certamente foi influenciada de alguma forma pela movimentação que a série causou não só no público como nos fansubs em si.

Outras séries como Gokusen e Hana Yori Dango também foram muito importantes, mas isso na galera que já começava a acompanhar doramas na internet.

Nessa época, era extremamente comum você entrar em sites de anime e, mesmo que em menor número, ver alguma aba ou menu com doramas, e acredite, não eram poucos. Hoje em dia o percentual de doramas legendados em português não chega a 1% da quantidade de material que havia anteriormente. Assim como existiam animes de estilos variados, os doramas também estavam bem representados por uma gama enorme de títulos.

É engraçado perceber que a popularidade dessa mídia estava diretamente ligada aos sites de animes que disponibilizavam episódios reencodados dos fansubs também estarem em alta naquela época. Hoje em dia, principalmente nos animes, é extremamente comum sites que antes apenas redistribuíam materiais fazerem as suas próprias legendas, e fansubs, que antes distribuíam apenas em trackers fechados de torrent ou pelo IRC, terem sites que disponibilizam episódios tanto em qualidade baixa quanto qualidade alta.

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Na metade dos anos 2000, ter internet “banda larga” (aqui, insira milhares de aspas) no Brasil estava se tornando cada vez mais comum. Planos de internet com 2MB de velocidade eram uma conquista considerável para quem quisesse consumir conteúdo audiovisual na internet. À medida que a década foi passando, mais e mais pessoas que antes só tinham acesso a esse material por meio de “lojas de divulgação” começaram a ir atrás elas mesmas desse conteúdo nas ondas da rede mundial de computadores.

Mais gente na internet, mais informação circulando, mais demanda e, consequentemente, mais oferta. É por isso que considero essa época tão crucial e de extrema importância para o crescimento não só dos doramas como da cultura japonesa como um todo no país, o que foi maravilhoso.

Uma coisa é certa: depois que o Haitou.org, o maior tracker de torrents de cultura japonesa do Brasil fechou as portas em 2010, muitos grupos tiveram que repensar a forma como iriam distribuir seu material para o público. Há outros trackers, como o Fansubber.org e até o Nyaa.eu, esse que mesmo não sendo nacional tem uma boa quantidade de arquivos em português na sua base. Porém, nenhum teve tanta força em material legendado em português quanto o Haitou. Na minha opinião, seu fechamento foi o ponto crucial para a mudança de paradigmas do fansubbing de doramas no Brasil, mas não foi só a única.

A Ascensão de uma Nova Cultura Asiática no Mundo

O Hallyu ou a “Onda Coreana”, que invadiu o Japão em meados dos anos 2000 e depois se espalhou pelo resto do mundo, trouxe consigo não só a música sul-coreana para o público japonês mas também as suas séries, os K-dramas.

O público nipônico que já estava acostumado a consumir um tipo de mídia específico de seu país, agora estava cada vez mais familiarizado com a cultura sul-coreana e a expansão da Coreia para se firmar como um grande expoente de cultura asiática no mundo. Não havia como escapar, o Hallyu estava dominando o Japão em todas as suas esferas do entretenimento.

Este excelente artigo do amigo Otakismo no blog Chuva de Nanquim explica com detalhes toda essa “invasão” coreana em solo japonês e como os k-dramas foram importantes para se estabelecer a cultura sul-coreana como algo forte na Ásia. A leitura é altamente recomendada para quem quiser saber mais sobre a história do Hallyu pelo mundo.

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Mas o que o Hallyu tem a ver com isso? A segunda onda Hallyu no mundo, o chamado “Hallyu 2.0” como o próprio Otakismo descreve em seu artigo, acontece na mesma época em que os fansubbers de dorama no Brasil começaram a decair com o fim do Haitou e a distribuição descentralizada desse tipo de material por aqui.

Como sabemos, é nessa segunda onda coreana que os grandes grupos de K-pop começaram a explodir de popularidade pelo mundo inteiro e, com a internet banda larga quase que totalmente estabelecida no Brasil, desta vez, ao contrário do Hallyu 1.0, o país começa a fazer parte dessa invasão sul-coreana.

Aos poucos, fansubbers dedicados exclusivamente a doramas japoneses iam fechando, outros fansubs começaram a legendar cada vez mais k-dramas e novos grupos feitos para k-dramas começaram a surgir. É o início da mudança completa que os fansubs brasileiros de dorama teriam durante todos esses anos. Mais uma vez, havia pessoas que já assistiam k-dramas antes da segunda onda Hallyu no mundo? Com certeza! Mas é visível que ela foi responsável por fazer mais gente ter interesse nas produções coreanas, não só pelos seus ídolos em si, mas também pela mesma curiosidade que os japoneses tiveram lá atrás, nos costumes e estilos de vida dos sul-coreanos.

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Hoje em dia é muito comum ver grupos de fansubbing de doramas que são especializados em algum tipo de tema ou grupo de atores. Pode procurar, doramas em português só se for de atores e atrizes muito famosos ou relacionados a algum grupo que esteja fazendo sucesso no Japão. Doramas mais cotidianos ou até mais desconhecidos do público geral são praticamente inexistentes por aqui. Não que fossem muitos antigamente, mas eram mais presentes pela grande quantidade de grupos legendando.

Como a demanda por cultura coreana cresceu e cresce cada vez mais, é natural que a oferta seja direcionada para essa demanda que consome cada vez mais esse estilo de produção. Os fansubs de k-drama nunca estiveram tão em alta, porém, outra coisa está sendo fundamental para a consolidação dos k-dramas no Brasil e, consequentemente, decaimento dos doramas japoneses por aqui. E isso nem é culpa dos fansubs.

O Surgimento das Plataformas de Streaming

A política exterior do Japão é bem diferente da Coreia do Sul. Enquanto os japoneses preferem o mercado doméstico, os sul-coreanos querem se expandir o máximo que puderem, principalmente depois que viram que o Hallyu, de alguma forma, deu certo dentro do Japão. Lá pelos anos de 2008 e 2009, diversos sites de streaming de conteúdo começaram a surgir na internet. O Netflix, que existe desde 1998 mas que nasceu como uma locadora, em 2008 acabou conseguindo acordos com canais de TV e estúdios para dar o ponta pé inicial para aquele que seria o inicio de uma nova era de consumo de entretenimento no mundo. Na mesma época, em 2009, surgia o DramaFever, provavelmente o maior site de streaming de conteúdo asiático da internet.

A Coreia do Sul, que expandiu-se muito rápido procurando maneiras de levar sua cultura para o mundo, logo viu em plataformas de streaming uma maneira muito fácil de fazer com que mais e mais pessoas tivessem contato com seus k-dramas, que já haviam feito sucesso no Japão e que agora estavam devidamente sólidos para conquistar o resto do mundo.

Juntando isso ao fato de que a segunda onda do Hallyu fez o mundo inteiro tomar conhecimento sobre a cultura e principalmente a música coreana, estava feito o elo que uniria a vontade de cada vez mais pessoas consumirem cultura coreana e a oferta de cada vez mais produções vindas daquele país. As três maiores emissoras de TV da Coreia do Sul tem contratos de licenciamento com o DramaFever. E sabe o que é mais bizarro? O DramaFever é uma serviço da SoftBank, uma empresa japonesa. Se você pesquisar no site, até irá encontrar doramas japoneses, mas o número nem se compara a quantidade de produções coreanas disponíveis.

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Com o surgimento do Crunchyroll e parcerias com estúdios e televisões japonesas para a exibição de animes, começou-se a trilhar um caminho para a vinda de mais doramas licenciados para o ocidente. A cada nova temporada, alguns doramas são adicionados ao serviço, o que já é um avanço comparado ao que tínhamos antigamente.

Há algumas semanas o Netflix chegou finalmente ao Japão e como ele é uma empresa mundial que investe em produções locais para exibir ao mundo, é capaz de cada vez mais investimentos em produções japonesas e acordos com televisões sejam feitos. Como isso, mais doramas entram no Line-Up do serviço e as chances dessas produções virem pra cá de forma oficial também aumentam.

Os fansubs de doramas no Brasil praticamente acabaram porque o Japão, com seu protecionismo excessivo, fechou os olhos para um movimento crescente de outros mercados com novas tecnologias e só agora, com o cenário de fansubs brasileiros resumido a produções especificas, já não hã tantos fãs quanto houve em outros momentos.

O jeito é torcer para que mais acordos sejam feitos com esses serviços, fazendo com que o Japão comece a exportar suas produções para o resto do mundo e que, com investimento, volte a ser um grande expoente de entretenimento e cultura televisivas. A evolução é inevitável. Porém, se esse mercado se consolidar por aqui, os fansubs de doramas brasileiros tendem a entrar em extinção de vez, o que já se mostra bem encaminhado com a situação atual.

LEO-RODAPE

Sobre Leo-Kusanagi

Apaixonado por cultura japonesa desde criança, começou a escrever sobre japonices em 2008, no Mithril e de lá pra cá cobriu diversas transformações da música japonesa ao longo dos anos. Viciado em games, doramas, animes, filmes e design, tem como objetivo informar e disseminar a cultura japonesa na internet.

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