Corrente de Reviews: Tatsumi (2011)

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Olá pessoas, como estão?
Chegou a hora do Mithril na Corrente de Reviews! A obra que me indicaram foi Tatsumi, filme animado de 2011 e as minhas impressões sobre a produção você confere a seguir!

Tatsumi foi a indicação do blog Missão Ficção para o Mithril e conta a vida e obra de Yoshihiro Tatsumi, um importante mangaká japonês responsável pela criação do gênero Gekiga de mangá, um estilo voltado para o público adulto e que se difere dos mangas tradicionais por tratar de assuntos mais espelhados na realidade, no cotidiano e em questões mais maduras. Fazendo um paralelo ao ocidente, o Gekiga no Japão é basicamente o que as Graphic Novels são para as HQs americanas.

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O filme foi produzido em 2011 pela Zhao Wei Films de Singapura e foi dirigido por Eric Khoo, também de Singapura. Animado na Indonésia pela Infinite Frameworks Studios e com consultoria direta do próprio Tatsumi, o filme estreou em Cannes e teve uma boa recepção pela crítica, principalmente por conta da sua narrativa e também pela animação, que é muito mais próxima de um “mangá animado” do que um anime em si. Como falei há pouco, o filme conta a vida e obra de Tatsumi e por conta disso não se trata apenas de uma biografia, mas também um tributo às obras do mesmo, mesclando a história de vida do autor com alguns dos seus mais famosos trabalhos. Desde o começo do filme você é apresentado à história pela voz de Tatsumi narrando a sua própria trajetória, contando como foi a sua infância em Osaka em meio a Segunda Guerra e também as suas inspirações para, na década de 50, ter começado a se tornar o mangaká que se tornou.

Um fato importantíssimo na vida de Tatsumi e que é bem enfatizado no filme é a sua extrema admiração por Osamu Tezuka, que também é de Osaka, e foi responsável por fazer Tatsumi se interessar por histórias em quadrinhos e ir atrás de seu sonho, não só por questão de dinheiro ou dificuldades, mas pela sua paixão por esse tipo de mídia e na determinação de que poderia fazer algo diferente. Confesso que antes de assistir o filme eu não conhecia praticamente nada sobre o autor, mas vendo a sua história e suas obras, procurei mais coisas sobre ele e comecei a entender a importância que teve para o amadurecimento de toda a indústria dos mangás e animes japoneses.

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No filme são inseridos 5 contos de Tatsumi que abordam diferentes temas. “Hell”, ambientado em Hiroshima, conta a história de um fotógrafo que registrou o horror da Bomba Atômica logo após o acontecido e acaba se envolvendo na história de pessoas que morreram na ocasião e que devido as suas fotos, se tornariam mártires da guerra. “Beloved Monkey”, conta a história de um operário de Tóquio insatisfeito com sua vida pessoal e profissional cujo único amigo e um pequeno macaco. A história é bem forte e tem um final surpreendentemente chocante. “Just a man”, conta a história de um salaryman já experiente que é praticamente esquecido por seus subordinados no trabalho e execrado pela mulher, que não o ama e só quer que ele morra o quanto antes para pegar o dinheiro da pensão do mesmo. A vida do cara é uma merda e se vendo num beco sem saída, decide preencher lacunas da sua vida em aventuras pouco ortodoxas, para, além de tentar se sentir mais útil, se vingar da mulher tirana. “Occupied” conta a história de um mangaká que vai de mal a pior na sua editora e por conta disso é forçado a fechar uma história sua na revista por não se encaixar nos moldes que são impostos a ele. Ao passar mal e ir parar em um banheiro público, o cara se depara com diversos desenhos pornográficos nas paredes e acaba ficando fissurado por tais representações eróticas. “Good-bye”, o último conto, é o mais polêmico de todos, pois conta a história de uma garota que é forçada pelo pai a se prostituir para soldados americanos após o término da Segunda Guerra e por conta disso amargura uma decepção e um ódio muito grande por tudo e por todos, principalmente por seu pai, pelo qual não nutre nenhum sentimento e que a faz cometer loucuras após uma decepção amorosa.

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Todos eles têm alguma lição ou alguma moral sobre a sociedade, sobre as pessoas a sua volta, sobre o mundo que compõe a obra e por conta de acompanhar a vida do autor, nos trás várias perspectivas não só dele como de todo o Japão no pós-guerra, mostrando de forma sutil e muito bem feita, momentos importantes da História japonesa pela visão de Tatsumi. É um autor que cresceu junto com o Japão e sabe como poucos o quanto a sociedade mudou nos últimos 70 anos.

Para diferenciar a história de Tatsumi dos contos do mesmo, o filme usa de um artificio muito interessante: A paleta de cores. Enquanto na vida de Tatsumi as cores são vivas, quentes e vibrantes, em seus contos a paleta fica fria, quase sem cor, as vezes com um tom até depressivo dependendo da situação. Como eu gosto de assistir coisas sem saber nada ou pouca coisa sobre tal, essa mudança na paleta foi um ponto muito legal, afinal isso enfatiza ainda mais o “mangá animado” que falei antes, se tratando de uma HQ devidamente animada como tal. A vida de Tatsumi para tornar um mangaká não foi fácil, pois passou por dificuldades quando jovem por conta do pai ausente, sofreu com a inveja do irmão que começou nesse ramo do mangá junto com Tatsumi mas que por problemas de saúde e também escolhas na vida, acabou desistindo e quase fazendo com que o irmão desistisse também por conta de seu egoísmo. Sempre tendo Tezuka como inspiração, Tatsumi não desistiu de seu sonho, foi para Tóquio e criou um gênero junto com outros artistas que seria reconhecido mais tarde como um grande sucesso devido à sua forma de expressão mais livre. A parte que conta a história do autor é um show de inspiração e mostra o quanto ele foi determinado, enfrentando a oposição inclusive do público para fazer os seus Genkigas para um público específico.

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Todos os contos tem 2 ou 3 personagens que realmente falam e todas as vozes foram feitas por japoneses que moram em Singapura. As partes da história do autor, como falei antes, foram narradas pelo próprio Tatsumi e como ele é de Osaka, ou seja, tem um sotaque diferente do japonês tradicional que conhecemos de Tóquio, guiou os atores para que eles falassem um Kansai-ben (dialeto da região de Osaka) característico década de 40 e 50. É um filme que teve um cuidado muito grande em diversos aspectos para deixá-lo primoroso no que se propõe a contar, que é o tributo ao grande mangaká.

Tatsumi é um filme muito interessante, dinâmico, quase autoral do diretor para com a história do mangaká que leva o nome da obra. A forma como tudo é contado, a maneira como foi mostrado, o jeito de se fazer, são todos de um cuidado tremendo e muito competente para homenagear Tatsumi. Comecei o filme sem expectativa nenhuma e terminei muito satisfeito com o que vi.

corrente_reviews2014
E é isso pessoas. Este foi o post do Mithril para a Corrente de Reviews 2014. Acredito que se não fosse pela Corrente, eu provavelmente não veria este filme ou veria em algum momento muito específico, daí mais um fator importante dessa corrente colaborativa, a oportunidade de conhecer obras novas. Para dar continuidade ao projeto, resolvi indicar um anime que me surpreendeu muito quando foi exibido e que me fez ficar louco a cada episódio que saia. Não falo de Full Metal Panic nem de Shingeki, mas sim de STEINS;GATE! Um anime baseado em uma visual novel exibido em 2011 que explodiu muitas cabeças com sua trama. O blog que eu indiquei para assistir e resenhar Steins;Gate foi o Otaku Pós-Moderno e a análise deles vocês poderão conferir nos próximos dias!

Até mais!

Sobre Leo-Kusanagi

Apaixonado por cultura japonesa desde criança, começou a escrever sobre japonices em 2008, no Mithril e de lá pra cá cobriu diversas transformações da música japonesa ao longo dos anos. Viciado em games, doramas, animes, filmes e design, tem como objetivo informar e disseminar a cultura japonesa na internet.

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