Kotonoha no Niwa – O Jardim de Palavras

Afinal, nem tudo que reluz é ouro.

No mundo da animação japonesa, pelo menos da ótica brasileira na qual estou inserido, existem algumas “verdades”. Obras como Akira, Evangelion e diretores como Hayao Miyazaki, por exemplo, perpassam o imaginário formativo dos fãs. Independente da opinião pessoal sobre a qualidade em si, essas produções e produtores seguem em um patamar de indiscutibilidade difícil de ser alcançado – e algumas vezes difícil de ser explicado.

Ainda que em escala menor, Makoto Shinkai vem galgando esse espaço desde que debutou o curta Hoshi no Koe em 2002, impactando a todos com uma produção quase que inteiramente sua, envolvendo ficção científica e um romance dramático que em 25 minutos consegue envolver completamente o espectador. Suas principais obras consecutivas vieram confirmando seu status, chegando ao ápice com o longa Kimi no Na wa., sucesso estrondoso de público e crítica.

kotonoha-no-niwa-movie-large-18Foi assim que em 2013, Shinkai lançou seu quarto filme, Kotonoha no Niwa (“O Jardim de Palavras” em uma tradução livre da versão internacional), obra que retoma um dos temas mais recorrentes na obra do autor, a solidão que encontra afago no amor. É assim que acompanhamos nos seus 46 minutos o desenvolvimento do romance entre Takao Akizuki, um adolescente cujo sonho é tornar-se designer de sapatos, e Yukari Yukino, uma professora de literatura em crise no trabalho.

Ambos encontram-se, inicialmente, ao caso, mas posteriormente pelo desejo de suas presenças, na proteção da chuva dos jardins de Shinjuku Gyoen, espaço onde o apreço pelo detalhismo de Shinkai brilha em fotografias estonteantes. Nesses fugazes encontros de literais e metafóricas fugas cotidianas, Takao e Yukino aproximam-se, observam-se e idealizam-se.

Filho mais novo de uma mãe inconsequente, eternamente presa ao desejo da juventude, o garoto parece encontrar em Yukino não somente a atração de uma mulher mais velha, receptiva e misteriosa, mas também a pessoa para quem pode projetar sua necessidade de dar amor, implícito na promessa de presenteá-la com sapatos feitos por suas mãos. Ela, por sua vez, idealista e ingênua, encontra no garoto a simplicidade que a vida adulta não a permite ter.

kotonoha-no-niwa-movie-large-54Carregada de metáforas, tantas simples, mas algumas complexamente interessantes, a obra caminha – a passos bem lentos, diga-se – para um curioso desenvolvimento onde a crueza da vida urbana, em contraste com o afago do espaço verde, sobressai-se, estilhaçando a bolha que ambos queriam tanto perpetuar. É justamente nesse momento, longe do quase sagrado que salva os dois de suas mediocridades, que a obra se perde.

Ao dar-se conta da necessidade de um desfecho ao construído – seria mesmo necessário? -, Shinkai apela ao melodrama, nos joga aos gritos das palavras ensaiadas, das reações previsíveis e do conforto do não-conflito real, das lágrimas gotejantes. Do fácil. Do falso. O que era luz até então, esvai-se num amargor que somente a decepção daquilo que esperamos de algo muito bom pode dar.


Kotonoha no Niwa encontra-se atualmente legendado em português no Netflix. Cheio de emoções e nuances, sugiro fortemente assisti-lo e tirar suas próprias conclusões.

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