Helter Skelter – NewPOP Editora

Existe uma linha tênue entre a fama e a decadência?  

Durante o Anime Friends 2016, além de fazer a cobertura completa das palestras das editoras de mangas, também tive a oportunidade de receber um exemplar de uma magnífica obra: Helter Skelter, de Kyoko Okazaki. O mangá foi publicado originalmente na revista Feel Young, em 1995, mas só chegou ao Brasil em 2016 pela NewPOP Editora.

A obra se destaca pela sua bagagem repleta de premiações. Além de ganhadora do “Prêmio Cultural Osamu Tezuka” de 2004, também foi vencedora do Japan Media Arts Festival promovido pelo governo japonês e nomeada em 2008 para a seleção oficial de obras essenciais do Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angolema, na França. Tantas premiações não são à toa: Okazaki Kyoko é simplesmente uma revolucionária dentro dessa mídia. Com seu realismo contundente, impulsionado por uma “necessidade da verdade”, independente do quão deprimente, amargo e atado a um poder psicológico exploratório, sua obra têm abalado e cativado o mundo.

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Helter Skelter conta a história de Lilico, que após várias plásticas e manutenção vigorosa, se tornou a beleza em pessoa, uma modelo, atriz e cantora de enorme sucesso. No entanto, logo o seu corpo começa a reagir mal a tantas intervenções artificiais e ela se vê em decadência, física e psicológica. Agora ela é obrigada a encarar as consequências do que fez e o seu inevitável fim.

Como podem ter notado, a história é sobre autodestruição, tão aparente que chega ser fatalista. Kyoko não apresentar apenas o quão uma indústria exigente pode ser desgastante, mas sim os horrores e consequências do capricho superficial.

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Lilico, é uma recriação do monstro de Frankenstein, o resultado de transplantes cirúrgicos repetitivos. Ela consegue ser tanto uma mentira em seu interior, quanto em seu exterior, assim como muitos que acabam seguindo esse mesmo caminho.

Chama a atenção justamente o contraste que a autora consegue transmitir: ao mesmo tempo que Lilico é vergonhosa, ela também é um símbolo de poder, pois antes de toda essa autodestruição, ela precisou de muita força, e, apesar de nada ser dela, o leitor consegue enxerga-la na sua pior fase, talvez por ser as únicas vezes que ela experimenta a verdadeira alegria, por mais que seja ilusória.

Apesar dos seus atos frios, seu desejo desenfreado pela atenção e seus atos provocados por ciúmes fazerem-na parecer uma vilã aos olhos mais superficiais, Lilico ainda ganha a simpatia do leitor por pena, afinal, estamos falando de uma mulher que nunca será encaminhada à felicidade.

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O traço de Okazaki não é belo, pois cada linha retrata a angústia interior da essência do trabalho. É tão simplista e cru que chega a ser confuso em algumas partes, mas é exatamente por isso que funciona, pois a beleza disfarça e engana. Seu objetivo não era eufemizar, mas apresentar o conceito de beleza como um fenômeno real insanamente destrutivo, revoltante e evocativo e, nesse ponto, sua arte atinge exatamente isso, mantendo fidelidade às intenções e ambições de seu trabalho, chocando e fascinando ao mesmo tempo.

Helter Skelter não é uma obra de horror, mas consegue trazer à tona um dos principais papéis desse estilo, que é induzir o leitor a uma espécie de medo visceral, um desconforto ou repulsa que chega ser aterrorizante, especialmente por falar tão próximo a todos nós que vivemos nesse mundo que consome corpos como outro produto qualquer.

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A edição da NewPOP ficou realmente bonita principalmente sua parte gráfica, desde o papel que é um offset de alta gramatura, até seu acabamento fosco, ainda que fique a impressão de que a capa poderia ser um pouco mais grossa.

No geral, é um mangá perturbadoramente adequado para aqueles que anseiam por obras maduras, não apenas voltadas para questões femininas, mas àqueles que procuram questionamentos sobre a sociedade, nossa identidade e a dualidade que existe em todo ser humano.

Para outra opinião sobre essa obra, leia a quarta edição da coluna Hanyan pela Gabi. Negro clicando AQUI.

Sobre Karolina

Técnica em comunicação visual, 20 anos, mora em São Paulo. Desde
criança conviveu com animes na sua vida, mas só se interessou mais a fundo na 7ª serie do fundamental e está até hoje presente em sua vida. Fangirl de shoujo, animações clássicas e psicodélicas, também é fã de carteirinha de Evangelion e Noragami.
Twitter: @KarolFacaia

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