Afinal, por que consumimos arte?

A indústria do entretenimento movimenta bilhões de dólares todos os anos. Tudo graças à nossa vontade voraz de consumir arte, mas por que isso ocorre?

Desde que entrei aqui no blog sempre tive a vontade de escrever alguns textos específicos, um deles era o “Por que consumimos animes e mangas?”. Comecei a criar um roteiro em minha mente do que deveria ser escrito com a base sendo explanar a diferença entre mangas, animes e outras artes em geral, visto que dificilmente alguém se limita a essas mídias japonesas. Após essa curta reflexão, no entanto, me surgiu outra dúvida que, para se seguir uma sequência lógica, deveria ser respondida antes. Por que consumimos arte?

Desde o início da humanidade a arte esteve presente. Ela surgiu como um meio de relatar a origem e evolução das sociedades e disseminação de ideias. A partir de pinturas rupestres poderia se dizer o que se deveria caçar ou o que se caçou. Escritos difundiam pensamentos religiosos e normas de condutas que deveriam ser seguidas pela sociedade em geral: Torá, Código de Hamurabi e os mitos gregos, por exemplo.

"Hoje eu comprei um cadeado e fiz cócegas em um cachorro"

“Hoje eu comprei um cadeado e fiz cócegas em um cachorro”

Atualmente a arte segue um rumo um pouco diferente. Existe um aparente distanciamento entre um tipo de produção voltado para o desenvolvimento e divulgação de ideias (livros técnicos e documentários, por exemplo) e outro voltado ao entretenimento. Porém, mesmo havendo essa dicotomia, a arte sem a função básica original também passou de ser consumida. Mas por que isso acontece?

Alguns estudiosos da área levantaram hipóteses para isso. Segundo Francis Schaeffer1 a questão é que, mesmo que não pareça, todo o tipo de arte leva um pouco da “cosmovisão” do autor, ou seja, o seu modo de pensar sobre o mundo em sua volta. Assim, ao criar um ambiente imaginário, o autor acaba por reforçar ou recriminar fatores que acontecem no mundo real. Isso serviria como uma reflexão para quem consume aquele tipo de arte e denotaria o seu valor. Por exemplo, quando o Oda reflete várias vezes em One Piece sobre os companheiros ou quando a Arakawa apresenta o conceito da troca equivalente em Fullmetal Alchemist, eles estariam na verdade tentando passar para os seus leitores que na vida precisamos cultivar amizades e que para conseguirmos algo devemos trabalhar muito, ainda que não necessariamente de forma consciente.

Esse pensamento reflete um aspecto muito importante do trabalho de um artista, porém talvez não seja a resposta final para a questão que estamos abordando. Isso porque existem muitas obras artísticas que aparentemente não passam nenhum tipo de cosmovisão e mesmo assim seguem sendo apreciadas. Um bom exemplo disso são as pinturas surrealistas. O que um pintor surrealista conseguiria passar sobre os seus pensamentos através de traços, algumas vezes, indecifráveis?

Quadro Surrealista "Enigma sem fim" de Salvador Dali.

Quadro Surrealista “Enigma sem fim” de Salvador Dali.

Outro argumento muito interessante sobre esse assunto é levantado por Mathias Clasen, em uma crítica sua sobre o livro “Eu Sou a Lenda” 2. Nela, Clasen afirma que a relação entre o personagem principal do livro com a arte é uma ilustração do que ocorre com a sociedade em geral; a busca por uma fuga da realidade. Ou seja, todo aquele que procura entretenimento em um mundo criado o faz por estar tentando fugir (ou encontrar algo mais atraente que) o mundo real.

Porém, assim como o primeiro pensamento apresentado, este também pode ser caracterizado apenas como um aspecto da questão e não a sua resposta total. Isso porque uma boa parte de obras são feitas com o intuito de alertar para problemas reais. “Eden – It’s an Endless World”, publicado no Brasil pela editora JBC, é um bom exemplo disso. Nele o autor criou um mundo futurista abarrotado de tecnologia que passou por uma terrível epidemia, mas todos os seus problemas e debates filosóficos são similares aos que ocorrem hoje, sendo essa, inclusive, uma das grandes características das ficções científicas; a criação de um mundo pouco provável onde características do mundo atual são exacerbadas, muitas vezes com o objetivo de se fazer críticas sociais.

Eden, com certeza, é um dos melhores mangas em publicação aqui no Brasil.

Eden, com certeza, é um dos melhores mangas em publicação aqui no Brasil.

Então, se nem o primeiro e nem o segundo pensamento abrangem a nossa questão com uma amplitude suficiente, qual seria a melhor resposta para ela? Refletindo isso me lembrei de uma fala entre Vanessa e Matthew Murdock na série Demolidor3. Ela afirma que a arte deve falar com as pessoas, emocioná-las. Creio que esse é o cerne da questão.

Assim, o objetivo final da arte seria tocar emocionalmente nas pessoas, não importando se isso acontece através da divulgação de um novo pensamento concernente às nossas vidas, por meio de críticas sociais que tentem melhorar o nosso mundo ou simplesmente por uma obra de puro entretenimento que por algum momento nos ajude a escapar de nossos sofrimentos cotidianos. O que importa é sentirmos algo por meio dela.

Queremos refletir sobre nossas vidas, torcer por um casal ou por um herói, tudo por causa da emoção que aflora durante esse processo, mesmo que essa atitude não nós traga marcas duradouras. É por isso que consumimos arte.

Bom, agora que já sabemos a resposta dessa questão podemos discutir o porquê de as pessoas consumirem, especificamente, mangas e animes. No entanto, vamos deixar essa pergunta para um próximo momento.

E você, concorda com o que escrevi, discorda? O que sentiu? Comenta aí e vamos conversar nos comentários!….

Notas

1 Teoria exposta no livro “A arte e a Bíblia” de Francis Schaeffer, lançado no Brasil pela Editora Ultimato.

2 O artigo com a resenha na íntegra está presente na edição brasileira de “Eu sou a lenda”, publicada pela Editora Aleph.

3 A conversa ocorre no episódio nove da primeira temporada, a partir do minuto 21.

A indústria do entretenimento movimenta bilhões de dólares todos os […]