Existe fanservice com qualidade artística?

Seria possível criar uma obra de excelência artística e narrativa recheada de fanservice?

O fanservice de modo geral engloba tudo o que se faz pura e simplesmente para agradar a audiência, sem nenhuma outra função artística ou narrativa. Dentro dessa definição incluem-se não apenas garotas com peitos enormes e roupas minúsculas, mas também longas cenas de apresentação de robôs e espaçonaves fantásticas que acabam não fazendo nada de útil ou são destruídas na cena seguinte, lutas que só servem para mostrar golpes legais etc. Fora do universo otaku, também entram nesse guarda-chuva muitos dos longos solos de guitarra nos concertos de rock e as piadas e citações que só os fãs entendem nos filmes e séries.

Entretanto, nós costumamos associar fanservice  com personagens femininas e cenas projetadas exclusivamente para agradar o público masculino. Embora a audiência feminina esteja crescendo em apetite e representatividade, a grande maioria do fanservice, principalmente no Japão, ainda tem seu foco nos homens e apela para seus desejos e fetiches sem qualquer pudor. Por isso, será este o foco do post.

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Obras e projetos totalmente fanservice existem e são bastante comuns, e sua (falta de) qualidade, inegável. Muita gente odeia o fanservice por associá-lo ao sexismo/machismo e considerá-lo responsável pela má fama dos fãs de mangás e animes. De fato, se uma pessoa que não soubesse nada sobre o Japão assistisse uma sessão dupla de Senran Kagura e Valkyrie Drive, poderia pensar que os japoneses são todos pervertidos em nível de internação permanente. Seria possível produzir algo artisticamente bom dentro desse universo?

Sempre há, a cada temporada, alguma coisa boa apesar do fanservice. São histórias legais ou no mínimo interessantes, “temperadas” com meia dúzia de cenas de nudez aqui, um zoom em cima de um decote generoso ali, tudo em doses homeopáticas. Mas poderia haver um anime ou mangá totalmente focado em fanservice que fosse de fato bom?

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Parece impossível considerando que a própria definição do fanservice é de algo gratuito e inútil para o plot ou desenvolvimento de personagens. Afinal, fica difícil projetar uma fantasia ou fetiche mais ousado em cima de um personagem bem construído, que tem uma personalidade e vontades próprias. Bons roteiros pedem que se elimine justamente o excesso, a “perfumaria” narrativa, ou seja, o fanservice, entre outras coisas.

Um caminho seria, talvez, o da subversão e/ou humor. Um artigo do site TheArtifice aponta Evangelion como um exemplo de crítica e subversão do fanservice, e Kill La Kill como paródia e comentário social. Entretanto, NGE é uma obra muito enigmática para ser algo totalmente embasado apenas em fanservice. O próprio Hideaki Anno, criador e diretor da série disse: “Evangelion é a minha vida”. A crítica, a subversão estão lá, mas não são os únicos elementos fundamentais da obra, como qualquer fã de Evangelion poderá mostrar com mais propriedade do que eu.

evaAssim, resta Kill La Kill como um exemplo de anime calcado em fanservice porém com qualidade. Pela sua premissa – uma garota que ganha poderes ao vestir um uniforme ultra revelador – se encaixa bastante bem como uma resposta à nossa pergunta. Uns consideram a questão de Ryuko precisar vencer a vergonha de ficar seminua em público para adquirir pleno controle sobre seus poderes como uma mera desculpa para mostrá-la com pouca roupa. Outros, acham que isso é uma paródia do exagero de fanservice em animes ou até mesmo uma reflexão sobre a nossa forma de encarar a nudez. Só pela controvérsia gerada, já podemos dizer que, no mínimo, a obra desperta interesse em outro nível que não de peitos e bundas.

E você, o que acha? Dá para criar um anime ou mangá totalmente fanservice e com qualidade artística?

Sobre liviasuguihara

Instrutora de inglês, "arteira", amante de animes e mangás. Você também me encontra no Twitter (@lks46), no Deviantart (https://liviaks.deviantart.com/), e no Instagram (liviasuguihara).

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