Entendendo as demografias dos mangas

Visitando as redondezas da vasta internet, percebi que muitas pessoas ainda associam shounen, shoujo e as demais demografias com gênero, especialmente a forma ocidentalizada com que ele é usado para obras cinematográficas. Demografia e gênero não são sinônimos!

CONTEXTO HISTÓRICO

No Japão, a grande maioria dos mangás é publicada em capítulos avulsos em revistas “separadas” por demografias de acordo com a faixa etária e gênero (feminino e masculino) ao qual elas são direcionadas comercialmente. Essa separação é utilizada desde a Era Meiji (1867 – 1902), onde os livros didáticos eram divididos entre aqueles “para meninas e para meninos”.

Claro que não somente no Oriente há essa distinção de papéis tão rígida. No Brasil, antigamente também se adotava um sistema similar nas escolas, onde as fileiras e as chamadas presenciais eram separadas entre meninas e meninos. Desde muito tempo atrás, o ser humano busca estabelecer uma rigorosa atribuição de papeis para cada indivíduo, o que é perpetuado até hoje em algumas tradições e comportamentos sexistas.

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Sala de aula na era Meiji, meninos na esquerda e meninas na direita

Hoje em dia não se utiliza mais essa separação nas escolas do Japão – nem no Brasil -, mas a prática de determinar o que é de menina e o que é de menino permaneceu em muitos outras práticas ou ações, como em nossos queridos mangás.

Os quadrinhos japoneses geralmente são seriados em revistas antológicas antes de serem publicados no formato livro compilando vários capítulos em um único exemplar. Por convenção, as revistas de mangás são divididas em cerca de uma dúzia de categorias oficiais, com base na idade e gênero do público-alvo. Estas categorias são mantidas quando o mangá é publicado em formato de livro e são consideradas as divisões primárias na publicação de um mangá, que são usadas, por exemplo, para arquivar as obras em livrarias.

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Revistas japonesas expostas numa prateleira

Sempre foi assim? Mais ou menos. Como o próprio Kitsune comentou no Video Quest, há mais de 50 anos, um grupo x de japoneses que trabalham no ramo editorial separa cada título e o direciona à idade e gênero dos leitores. Mas, convenhamos que em pleno século XXI é bem bizarro essa distinção entre meninos e meninas, ainda mais por sabermos que tudo não passa de um pensamento herdado da antiga sociedade patriarcal que estabelecia bem claramente uma distinção do modo que os garotos e as garotas deveriam se comportar, normalmente atrelando ao feminino a figura da pureza, subserviência e educação.

Uma consequência dessa separação tão à “risca” é a confusão dos ocidentais. À medida em que os animes chegavam à América nos deparávamos com termos diferentes que, traduzidos na época, causavam um pré-conceito imediato sobre a obra. Nosso grande erro foi confundir demografia com gênero, associando, por exemplo, romance como exclusivo para demografia X ou Y.

Gênero é uma categoria classificativa que permite estabelecer relações de semelhança ou identidade entre as diversas obras. Desse modo, será possível, seguindo o raciocínio genérico, encontrar a gênese comum de um conjunto de obras, procurando nelas os sinais de uma partilha morfológica e ontológica – assim, através da ínfima comunhão de determinadas características por parte de um conjunto de obras, poderemos sempre proceder a genealogia mais remota das mesmas, o que haverá de permitir compreender melhor o seu processo criativo e efetuar a arqueologia das ideias fundamentais que veiculam ou das situações que retratam.” (NOGUEIRA, 2010, p. 3-4)

Claro que dentro de cada demografia existe seus aspectos marcantes. A partir do momento que tal segmento é “separado” por gênero e faixa de idade não será surpresa a presença de estereótipos pelo qual cada um é famoso. Mas se demografia e gênero andam lado a lado, entretanto, não se encostam. É justamente por isso que na prática encontramos várias exceções a esses estereótipos que nos impedem de usar as duas classificações como sinônimos.  Se gênero obrigatoriamente compartilha características morfológicas e até ontológicas como afirma Nogueira, demografia não tem essa obrigatoriedade, possuindo dentro de seu escopo os mais variados temas.

Assim, apresentarem algumas demografias, suas definições e histórias para melhor entendimento:

KODOMO

KodomoManga

Da esquerda para direita: Ciao Magazine, Comic Bonbon, Coro Coro Comic e Saikyo JUMP

Kodomo significada “infantil” e é o termo utilizado para indicar que a revista é voltada a esse público, da faixa etária dos 6 aos 10 anos de idade mais ou menos. Existem várias destas revistas, algumas direcionadas para o sexo feminino, como a Ribon Mascot, e outras para o masculino, como a V-Jump, mas no geral são unissex como a Coro Coro Comic e a Ciao Magazine. Essas revistas possuem atividades como páginas para colorir, labirintos, puzzles e outros jogos. É uma demografia que se iniciou no século XIX na tentativa de incentivar a alfabetização entre os jovens japoneses. É uma das mais antigas da história.

A maioria das suas séries são moralistas, fechadas ou com arcos muito curtos, pois crianças pequenas têm dificuldade para acompanhar histórias seriadas mais longas e complexas. Também possuem desenho e narrativa simples, buscando se adequar à idade em questão.

Títulos famosos surgiram a partir do Kodomo, como Doraemon de Fujiko F. Fujio, assim como seriações famosas de shonens tiveram suas versões adaptadas ao infantil, como inúmeros spin-offs de Dragon Ball, por exemplo. No Brasil um bom exemplo dessa demografia foi o mangá do Super Onze publicado pela editora JBC.

SHOUJO 

ShoujoManga

Da esquerda para direita: Bessatsu Margaret, Margaret, Sho-Comic e Monthly Comic Gene

Shoujo significa “mulher jovem” e é o termo utilizado para indicar que a revista é voltada para o público feminino jovem, em média da faixa etária dos 12 aos 18 anos, conhecido por sua grande variedade de romances escolares, mas nem sempre foi assim.

As revistas japonesas direcionadas às garotas surgiram no início do século XX com a fundação da extinta revista Shoujo Kai e continuou com outras, tais como a Shoujo Sekai de 1906. Eram histórias curtas, ainda longe dos moldes que conhecemos hoje, apesar dos olhos gigantes, os brilhos e os detalhes arabescos como as flores.

Não se aprofundando muito, foi só após a segunda guerra mundial que o shoujo mangá ganhou uma narrativa mais próxima da que estamos acostumados, surgindo as grandes revistas existentes até hoje como a Margaret e a Bessatsu. Muitos creditam ao Osamu Tezuka esse feito, de histórias curtas humorísticas passarem a ter um cunho mais melodramático e temas sérios e emocionalmente mais complexos.

Inúmeros títulos de sucesso surgiram a partir dessa demografia, tais como a Rosa de Versalhes de Riyoko Ikeda e os mais atuais como Kimi ni Todoke, Aoharaido, Tonari no Kaibutsu etc. Apesar da fama de ser associado a romances e afins, o shoujo mangá não se prende a esse único gênero. Há uma grande variedade de histórias dentro da demografia, desde a ficção cientifica, o mistério, até mechas como em Malicius Code, Code Geass e suspenses como O Maestro.

No Brasil, apesar de em número menor quando comparamos com o shounen, há diversos títulos publicados como Black Bird, Sailor Moon, Sakura Card Captors, Vampire Knight, Kaichou wa Maid-Sama, Kimi ni todoke, entre outros.

JOSEI

JoseiMAnga

Da esquerda para direita:Be-Love, Feel Young, Kiss magazine e Zipper

O Josei, que significa “mulher”, também é direcionado para o publico feminino, entretanto, pa as adultas, dos 18 aos 40 anos de idade. Geralmente são histórias com uma temática mais madura, tratando assuntos mais sérios como o mundo do trabalho, vida sexual, posicionamentos sociais etc.

Essa demografia surgiu nos anos 80 a partir o shoujo mangá, pois aquelas moças dos anos 50 que estavam lendo o início do shoujo cresceram e para as editoras não perderem esse público foi criado o Josei, abordando assuntos mais adequados e interessantes essas mulheres.

Suas adaptações não estão muitas vezes em animações, mas em formato de doramas, filmes e K-dramas. Assim como na sua irmã mais nova existem diversas outras temáticas, de esportes até música clássica, como Nodame Cantabile e Chihayafuru. No Brasil, por exemplo, foi publicado o mangá Paradise Kiss de Ai Yazawa pela editora Conrad.

SHOUNEN

ShonenManga

Da esquerda para direita: Jump SQ, Shonen JUMP, Monthly Shonen Magazine e Shonen Sunday

Shounen significa “garoto” e é o termo utilizado para as revistas direcionadas ao público masculino jovem. Surgiu ao lado do shoujo mangá e, como tal, não era como conhecemos hoje em dia. A primeira revista direcionado ao público pré-adolescente masculino foi a Shonen Sekai (1895-1914).

Foi só a partir da Segunda Guerra Mundial que a demografia shounen começou a se parecer com que estamos acostumados, e, mais uma vez, graças a Osamu Tezuka. Durante esse tempo, seu foco era mais em sci-tech, temas como robôs e viagens espaciais. Entre 1950 e 1969, cada vez mais leitores surgiram no Japão, solidificando suas duas principais demografias. Das principais, a revista semanal Shonen Jump começou a produção em 1968, sendo hoje a revista de mangá mais vendida no Japão. Exemplos de títulos famosos dessa demografia são Dragon Ball, One Piece, Naruto, Love Hina, Fairy Tail.

SEINEN

SeinenManga

Da esquerda para direita: Morning, Young Animal, Young Gangan e Young JUMP

Quando a revista é voltada para o público masculino mais adulto, entre os 18 aos 40 anos de idade, classificamos como Seinen.

O seinen surgiu na década de 1970 a partir de um movimento artístico conhecido como Gekigá, originado na década de 50, que trazia histórias mais sérias, muitas vezes contendo críticas sociais, em um estilo de desenho mais realista, sendo proclamado como uma resposta à fantasia dos quadrinhos da tradição de Tezuka, o manga. Com a dissolução dos grupos de artistas e da perda de importância da revista Garo, o Gekigá começou a se dissolver na década de 1970.

Alguns dizem que a grande diferença entre shounen e seinen está nos temas e em seu conteúdo maduro. Que algumas histórias seinen, mesmo possuindo personagens em idades que veríamos tipicamente nos shounen, apresentam temas mais maduros contendo sexo e violência. No entanto, apesar dessa fama, títulos dessa demografia englobam obras mais leves como slice-of-lifes, comédias e romances. Um bom exemplo que desarma o esterótipo em cima do seinen ser violento e sexualizado são obras como K-ON!, pertencente à essa demografia por serem vendidas visando o público masculino adulto.

Séries famosas surgiram a partir do seinen, como Berserk, Gantz, Vagabond etc.

FINALIZANDO

Muitas vezes os mangás abordam temas importantes que podem nos ajudar a enfrentar um momento difícil, como a perda de alguém; um interesse por alguém do mesmo sexo; ou bullying na escola entre uma infinidade de outras possibilidades. Através desta leitura, vendo como os personagens se comportam, podemos nos colocar no lugar deles, aceitar suas soluções ou criar as nossas próprias.

É justamente por isso que independente de toda a separação por demografias, ninguém está impedido de ler este ou aquele mangá por não se enquadrar nesta ou naquela categoria. Todos somos livres para decidir o que ler. Mas é bom levar em consideração a adequação entre o seu interesse e a sua idade. Afinal, pra quê pular etapas, ou se envolver em assuntos que ainda não fazem parte da sua vida.

Muito mais (e muito menos) que encerrar obras em características previsíveis, as demografias são como direcionamentos em um mapa. Você sabe para onde estará se dirigindo, mas é somente olhando para os detalhes de cada lugar que poderá compreender e aproveitar por onde esteve.

Fontes

Sobre Karolina

Técnica em comunicação visual, 20 anos, mora em São Paulo. Desde
criança conviveu com animes na sua vida, mas só se interessou mais a fundo na 7ª serie do fundamental e está até hoje presente em sua vida. Fangirl de shoujo, animações clássicas e psicodélicas, também é fã de carteirinha de Evangelion e Noragami.
Twitter: @KarolFacaia

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