Masami Kurumada – A Vida, a Morte e a Sobrevida

Santos enlatados não foram a única criação de Masami Kurumada! Conheça, nesta matéria, outras obras e um pouco da vida deste controverso autor!

Em dezembro de 1985 a revista Shonen Jump lançou o primeiro capítulo da mais famosa obras de Masami Kurumada (para desgosto do próprio): Saint Seiya!

Desgosto do próprio?! Sim, porque Kurumada já afirmou, em entrevistas anteriores, que preferiria que o público lembrasse dele mais por Ring Ni Kakero, seu primeiro grande sucesso. Embora, se o mundo fosse perfeito, a obra que o pai de Seiya e cia gostaria que fosse sua Magnum Opus (e que, se tudo desse certo, ele estaria serializando até hoje na Jump) era Otoko Zaka – uma obra que ele sempre quis produzir desde o momento que escreveu seu primeiro manga (de nome muito semelhante), Otoko Raku.

Nunca ouviu falar destas séries? Nem nunca soube mais do Kurumada além do fato dele ser o criador dos Cavaleiros do Zodíaco? Sem problemas! No post de hoje vamos conhecer um pouco mais sobre o autor e suas outras obras.

O Novato

Seiya... digo... Kurumada trabalhando no seu primeiro manga, Otoko Raku, um plágio homenagem à sua série preferida.

Seiya… digo… Kurumada trabalhando no seu primeiro manga, Otoko Raku, um plágio uma homenagem à sua série preferida quando jovem.

Ano passado, você deve ter listo ESTE POST onde falamos sobre a última obra de Masami Kurumada: Época do Índigo (Ai no Jidai – Ichigoe Ichie) – manga autobiográfico onde ele fala um pouco sobre o começo da sua carreira.

Como a maioria dos jovens da sua época, Kurumada era fã de mangás. Mais especificamente era fanboy de carteirinha de uma obra jumpiana chamada Otoko Ippiki Gaki-Taishou – da qual falamos um pouco NESTE POST. Seu sonho era fazer algo parecido com aquilo, tanto que seu primeiro manga, criado na época em que ele ainda não era um profissional, foi o já citado Otoko Raku (não sem motivo, pegou emprestado uma parte do nome da sua obra favorita). Este título lhe rendeu um prêmio para artistas amadores e um pouco de reconhecimento.

Acredita se eu disser que Sukeban Arashi até que não é ruim?

Acredita se eu disser que Sukeban Arashi até que não é ruim?

Porém, sua carreira profissional começa apenas em 1973 com a publicação de Sukeban Arashi, obra em dois volumes que conta a história de Rei, uma garota valentona que acaba arrumando briga com todos, inclusive com uma garota riquinha que acaba se tornando sua inimiga mortal.

A obra é do estilo comédia com ação e um pouco de ecchi e no final do seu segundo volume havia o one-shot Mikero Rock, do mesmo estilo. São os únicos títulos do autor que possuem protagonista feminina. Embora o Kurumada hoje diga que “tem vergonha” desta obra eu sou obrigada a dizer: é divertida!

O Milionário

A batalha nas Doze Casas... do boxe!

A batalha nas Doze Casas… do boxe!

Sua segunda série, lançada no finalzinho de 1976, foi uma das maiores surpresas e o maior sucesso da Shonen Jump na década: Ring ni Kakero. Uma série de boxe… ou algo que parecia boxe! Contava a história de Ryuuji Takane, um jovem lutador, treinado pela irmã mais velha, que começa a galgar o difícil caminho de se tornar um campeão do boxe. Bom, o problema (se é que pode ser chamado de problema) era que a série, embora tenha começado até que bastante realista, incluindo dramas pessoais e familiares, acabou se tornando um espécie de “pré-cavaleiros-do-zodíaco”.

Kurumada SEMPRE admitiu, a vida toda, que nunca foi um bom desenhista – nem mesmo antigamente, época em que sua arte estaria num nível dentro do padrão dos outros artistas da época. Por isto talvez o motivo pelo qual ele tenha criado uma série cheia de golpes de boxe absurdamente exagerados foi, justamente, para contornar seu ponto fraco: completa inaptidão em desenhar anatomia humana.

Convenhamos, uma obra de esporte (sobretudo um esporte em que se luta com parte do corpo despida) necessita de um artista que saiba minimamente desenhar anatomia. E que também saiba como desenhar um braço desferindo um soco de forma convincente! Talvez por isto ele deu aos personagens golpes do tipo “Boomerang Thelios” e “Galactica Magnum”. Esses golpes são tão poderosos que as luvas se racham e alguns inimigos são jogados para fora… do ringue? Não, do estádio! Sem falar, é claro, de efeitos especiais que parece que um deles está prestes a soltar uma Explosão Galática ou algo do tipo a cada soco. Em inimigos que evocavam os deuses gregos (sim, desde aquela época!), franceses lançadores de rosas e até mesmo Jesus Cristo!

CÓLERA DO DRAG... não, pera!

CÓLERA DO DRAG… não, pera!

No entanto todo este exagero agradou, e muito, os leitores da Jump, que alçaram a obra ao maior sucesso da revista desde então! Porém, naquela época, mesmo obras de grande êxito nem sempre ganhavam anime e por isto Ring ni Kakero teve que esperar longos 27 anos até que, em 2004, ganhou o seu. No meio tempo o autor ainda aproveitou para lançar uma série curta: Mabudashi Jingi, sobre delinquentes juvenis (uma preparação para o que ele realmente queria produzir…), além de Shiboori Taishoo e Saigo! Jitsuroku! Shinwakai, séries de one shots que incluem o “piloto” de Ring ni Kakero.

Apesar do seu sucesso estrondoso (que fez o autor se tornar o mais rico profissional do mundo dos mangas na época), Kurumada decidiu encerrar sua obra em 1981 porque disse que queria se preparar para lançar a “série da sua vida”. E esta preparação começou com sua obra seguinte: Fuuma no Kojiro – no Brasil ficou conhecido como Guardiões do Universo, sabe-se lá por quê. Contava a história do clã de ninjas Fuuma (espíritos do vento) cujo personagem principal, Kojiro, era um dos seus integrantes. A obra atingiu relativo sucesso (embora não tenha chegado perto de Ring ni Kakero), mas foi de 1982 a 1983, apenas. Em 2003 ganhou um revival por parte do Kurumada na revista Champion Red.

Antigamente era SSIM que um ninja da Jump se parecia, não um cara fazendo cosplay de gari...

Antigamente era ASSIM que um ninja se vestia, não um cara fazendo cosplay de gari…

O último aquecimento que Kurumada fez antes de começar a trabalhar na sua maior obra foi Raimei no Zaji que, em tempos recentes, o autor demonstrou interesse em reescrever (LEIA AQUI). Uma série curta sobre um cara que tem poderes elétricos e é a cara do Aioria de Leão.

Bem, e após todo este longo processo de sucessos estrondosos e outros mais ou menos, estava na hora do lançamento daquela que seria (se a história fosse justa) a Magnum Opus do Mestre Kururu…

O “Mangaya”

Ninguém entendeu a genialidade?

Ninguém entendeu a genialidade?

Certa vez, em uma entrevista, perguntaram à Kurumada como era sua vida de “mangaka” (escritor/autor/desenhista de manga). O homem teria corrigido o entrevistador, dizendo que não se considerava um mangaka, mas sim um “mangaya”, um “vendedor de mangas.

Não é de todo errado. Kurumada pode ter sido um escritor mediano e desenhista medíocre a maior parte da sua vida, mas ele nunca foi idiota. Suas obras sempre tiveram um apelo comercial grande – o ecchi de Sukeban Arashi, a velha receita de bolo do autoaperfeiçoamento dos mangas de esporte de Ring ni Kakero, as lutas de espadas e o apelo dos ninjas para os garotos dos anos 80 em Fuuma no Kojiro. Porém, desta vez ele iria mostrar ao público uma obra que seria muito mais do que um simples caça-níquel. Seria a obra da sua vida: Otoko Zaka.

Um minuto para reverências…

Lançada em 1984, a série tinha como protagonista um outro Seiya Jingi Kikukawa, um delinquente de escola que nunca havia sido derrotado numa briga. Porém, ao ser transferido para uma escola mais barra-pesada que a sua, acaba se defrontando com Sho Takeshima, um super-delinquente que o derrota. Após esta humilhação o garoto decide pedir ajuda a um demônio conhecido como Kenka Oni, ou “O Homem do Penhasco”. A criatura decide treiná-lo e, assim, se inicia o arco dos Homens-Tigres, os primeiros grandes desafiantes de Jingi.

Eu queria muito entender o que aconteceu aqui...

Eu queria muito entender o que aconteceu aqui…

Bem… este foi o primeiro e último arco de Otoko Zaka, pois a obra acabou sendo encerrada depois de seis meses de publicação. Um tremendo golpe, pois Kurumada planejou a série por dez longos anos enquanto fazia seus outros trabalhos. Seu plano era de transformar Otoko Zaka em um manga eterno, tipo um Golgo 13Kochikame ou Cyborg 009 da vida. Uma série que ele iria morrer fazendo e que seria a grande obra de sua vida e pelo qual ele mereceria ter seu nome no quadro de grandes estrelas do manga.

É, não foi o que ocorreu. O cancelamento foi tão doloroso para o autor que, no último volume, ele chegou a lançar um apelo aos fãs: “Para Otoko Zaka voltar a ser publicado eu preciso da ajuda de vocês!”, isto logo após o cancelamento. Infelizmente seus fãs, mesmo amando muito seu mestre Kururu, não o ajudaram (nunca li Otoko Zaka, mas pelo pouco que eu vi devia ser mesmo uma história beeem ruizinha!). Anos mais tarde, numa recompilação da obra ele teria escrito: “Eu sei porque Otoko Zaka não continuou e porque os leitores não me ajudaram a trazê-la de volta: porque Otoko Zaka não é divertido. Mas eu não cheguei à minha resposta definitiva quanto a obra.”

"Eu só comecei a escalar agora… Esta longa estrada dos homens… MIKAN (incompleto)"

“Eu só comecei a escalar agora… Esta longa estrada dos homens… MIKAN (incompleto)”

Sim, o plano dele é retomar a obra, como inclusive já foi noticiado AQUI. Mas, será que valerá a pena? Afinal esta obra é tudo menos comercial – usava um tema muito batido (o de delinquentes juvenis), algo que é preciso ter muito cuidado para usar, principalmente numa obra que foge da realidade. E devido à inabilidade do autor em manter uma história coerente e, principalmente, um traço agradável de se ver, parece complicado que ele seja capaz de manter qualquer título sem usar seu golpe mais mortífero: o Saint Teko.

Não sabe o que é isto? Bem, vamos do começo, quotando uma explicação do nosso colega Sakuda do XIL:

“No mundo dos mangas existe o termo “tekoire”, que significa algo como “apelar”. É tomar medidas extremas para elevar a popularidade da série, mesmo que isso signifique alterar o próprio gênero da história. Dentro da Shonen Jump existe um tekoire chamado de Saint Teko. Ele consiste em simplesmente iniciar um campeonato ou uma sucessão de inimigos, uma das mais famosas apelações da revista. O nome vem da série de Kurumada, Saint Seiya, que iniciou a fórmula e se manteve praticamente só com ela.”

O final traumático de Otoko Zaka foi muito zoado homenageado por outras obras de mangas que também tiveram um cancelamento precoce.

O final traumático de Otoko Zaka foi muito zoado homenageado por outras obras.

É sério...

É sério…

... muitas zoações homenagens.

… muitas zoações homenagens.

Ah, e por falar nisto, tá na hora de falar da obra mais famosa do mestre Kurumada e, certamente, aquela que ele teve realmente o maior tino comercial (o “mangaya” gritou forte!). Falo de Saint Seiya. Ou, como é mais conhecido do público fora do Japão: Cavaleiros do Zodíaco.

A obra, lançada na virada de 1985/1986, creio que dispensa apresentações. Mas vamos aos resumão: garotos usando armaduras divinas para lutar na guerras dos deuses em defesa de Athena. Como foi explicado anteriormente, esta série se sustentou praticamente só com o artifício do “Saint Teko”. Começou com a Guerra Galática, depois com a luta contra os Cavaleiros Negros, depois com alguns Cavaleiros de Prata em sequência, emendou para as Doze Casas, depois Poseidon e depois Hades. Sério… a série não parou quase nem por um segundo para deixar os meninos enlatados respirarem!

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Golpe de mestre: quem não simpatizaria com um corajoso guerreiro do seu signo? contanto que você não fosse de Peixes ou Câncer…

Porém, por mais que o “Saint Teko” tenha sido efetivo ele não durou para sempre. Cavaleiros do Zodíaco foi cancelado (sim, CANCELADO, não encerrado!) na Shonen Jump em 1991. E, se formos analisarmos bem… passou da hora!

O que realmente manteve a série viva nas páginas da Jump foram dois fatores: primeiro, o anime que saiu ainda em 1986 e que foi magistralmente feito – sobretudo com a direção de arte de Shingo Araki. De fato, a obra animada ajudou a disfarçar algumas falhas do plot original, melhorou e MUITO várias lutas do manga, e deu aos cavaleiros alguns poucos momentos “descontraídos”, sobretudo na fase pré-Doze Casas, o que ajudou a diferenciar melhor suas personalidades e humanizá-los um pouco.

O segundo fator foi o seu enorme potencial para produtos comerciais. Sim, eu estou falando dos benditos bonequinhos! Recentemente a Toei produziu uma nova série, resgatando os cavaleiros de ouro originais, com o pretexto ideal para produzir uma nova linha de bonecos com armaduras de ouro divinas. E deu muito certo! A primeira leva dos bonecos esgotou em questão de horas! Sim, podem apontar diversos problemas no roteiro de Soul of Gold, mas não chega nem perto dos problemas que a série original tinha – e que acabaram sendo frutos dos furos do manga original.

Vamos tratar de melhorar as personalidades destes dois porque os bonecos deles não podem encalhar!

Vamos tratar de melhorar as personalidades destes dois porque os bonecos deles não podem encalhar!

Cavaleiros do Zodíaco é e sempre será a obra de anime mais influente na história do Brasil. Nem Pokemon, nem Dragon Ball, nem Naruto, nem qualquer outra obra de indiscutível maior qualidade vai tirar este mérito dos santos enlatados. E é por esta ligação emocional tão forte que muitos fãs ainda apoiam a série e seus inúmeros spin-offs, como Episódio G, Lost Canvas (que é sim, melhor em termos de roteiro e arte, que a série clássica. Convivam com isto), Saintia Sho e até o problemático Next Dimension.

Como já foi citado anteriormente, para desgosto do Kurumada, é Saint Seiya que leva a fama de ser a sua Magnum Opus. Sinto muito, mestre Kururu.

O Remediado

Não, não... eu me recuso!

Não, não… eu me recuso!

O que veio depois de Saint Seiya? Só traumas e mais traumas…

Em 1992 o autor lançou a série curta Aoi tori no Shinwa, onde colocou o Seiya e o Shun para jogar baseball para descontrair. No mesmo ano ele iniciou sua nova série: Silent Knight Sho. E sobre esta série… sério, Kurumada não é dos mais originais mangakas do mundo. Longe disto. Mas se alguma obra dele merece ser um plágio de Cavaleiros do Zodíaco é esta bomba.

Desta vez o “mangaya” falhou e, mesmo tendo vários elementos comerciais (como armaduras bacanudas), desta vez o autor não conseguiu convencer ninguém. O desempenho desta obra foi tão ridículo que se transformou no maior fracasso do autor na Shonen Jump (durando menos que Otoko Zaka). Aliás, este foi o fim da carreira do autor na própria Shonen Jump!

Estava na hora de ele seguir para uma outra revista: a Shonen Ace da editora Kadokawa. E lá, amparado por novos editores que, certamente, o auxiliaram muito, ele conseguiu atingir um novo relativo sucesso com sua nova obra, B’t X.

Deja vu? Deja vi!

Deja vu? Deja vi!

Os anos 90 não foram gentis para Kurumada. De autor de mangas mais rico do Japão ele passou a “remediado”, com boa parte da sua renda vindo do sucesso tardio que Cavaleiros do Zodíaco fazia nos países da América Latina. Em 1994, com o lançamento de B’tX, uma obra de ficção científica com garotos controlando robôs antropomorfizados, ele conseguiu encontrar um pouco de alívio.

Aproveitando seu momento mais low profile, ele decidiu fazer algumas experimentações: Akane-Iro no kaze, de 1995, é um seinen que se passa na época dos samurais (e que tem algumas das mulheres com os peitos mais mal desenhados que eu já vi!). Shin Samurai Showdown foi uma série curta que ele fez para a franquia de jogos eletrônicos Samurai Spirits. Evil Crusher Maya foi outra série curta, lançada em 1996.

Série atípica de Kurumada, sem "golpes mirabolantes"... ou quase.

Série atípica de Kurumada, sem “golpes mirabolantes”… ou quase.

Quando B’t X se encerrou, no ano 2000, pode-se dizer que também se encerrou a criatividade de Kurumada. Ele fechou a cozinha. Ligou as trompas. Bloqueou no WhatsApp. Levantou bandeira branca. Saiu do Facebook. Nunca mais ele lançaria uma série nova.

…mas isto não quer dizer que ele não revisitaria suas séries antigas!

O Nostálgico

De volta ao ringue

De volta ao ringue

O início do século XXI recebeu a volta de um pequeno ícone dos quadrinhos mundiais: Ring ni Kakero 2. O autor retornava à sua obra que o consagrou como um dos grandes nomes do manga. Com enredo simples, ela mostrava a continuação da história anterior, desta vez com os filhos dos velhos protagonistas. Embora o título não tenha caído muito nas graças dos novos fãs, os antigos adoradores da série de “boxe impossível” receberam este presente de braços abertos.

Talvez, dentro do Japão, a obra de maior êxito do Kurumada ainda seja Ring ni Kakero. Mas fora dele, com certeza, é Cavaleiros dos Zodíaco. Então era claro que iríamos ver uma continuação da saga dos santos enlatados pouco depois. Em 2006, logo após uma retomada histórica da franquia pela Toei, o autor aproveita o embalo para iniciar a saga Next Dimension.

Shiryu mostrando que ficar dependendo de armaduras-babás é para perdedores, tio o Seiya.

Shiryu mostrando que ficar dependendo de armaduras-babás é para perdedores como o Seiya!

Quando foi anunciada, a retomada da saga clássica deixou todos os fãs em polvorosa, principalmente com a promessa de páginas com colorização digital animal! Realmente, quando acompanhamos toda a parte artística da qual os assistentes do Kurumada são responsáveis (que são as armaduras, os efeitos dos golpes, as cores e a arte-final), de fato está tudo impecável. Mas é duro, muito duro perceber que o pai dos cavaleiros, em 40 anos de carreira, não evoluiu quase nada… nem em arte e nem em roteiro.

Para não sermos injustos, temos que admitir que uma coisa que, em termos de arte, o Kurumada faz bem: composição de cenas de impacto. Sensei Kururu sabe como fazer você olhar durante um bom tempo para suas artes, além de manjar bem de quadrinização e condução do olhar do leitor pelos quadros de uma página. Isto não podemos tirar dele. Já em termos de roteiro… bem, ele sabe fazer aquilo que ele faz melhor: “Saint Teko”. Quando uma sequência de batalhas uma atrás da outra se inicia em sua obra, ficamos pelo menos curiosos para ver se vai ser a mesma ladainha de sempre (e sempre é, infelizmente).

Punho quebrado, cabeça achatada, perspectiva horrível... mas que agente fica olhando para a imagem o tempo todo, isto ficamos!

Punho quebrado, cabeça achatada, perspectiva horrível… mas que agente fica olhando para a imagem o tempo todo, isto ficamos!

Next Dimension já vai completar dez anos de existência e tem apenas nove volumes compilados. O passo lerdo do autor com a série se deve aos seus problemas de saúde e também do seu comprometimento com outras obras a serem retomadas: Raimei no Zaji já ganhou capítulo extra. Otoko Zaka (ele insiste!) parece que será o próximo.

E, neste meio tempo, ele já está encerrando a série curta Época do Índigo, sua autobiografia.

O Futuro

Kurumada não parece ter muito ânimo para criar qualquer série nova. Não que, se ele tivesse, uma hipotética nova série dele seria muito diferente de tudo o que ele já produziu…

Os fãs, atualmente, desejam apenas uma coisa: que ele consiga encerrar o que ele começou. Next Dimension deveria ser sua maior prioridade, embora pareça que ele realmente não quer ir ao túmulo sem antes revisitar a sua obra-que-não-foi.

Masami pode estar longe de ser um mangaka digno de estar ao lado de grandes estrelas como Shotaro Ishinomori, Takehiko Inoue ou Akira Toryama, mas ele, indubitavelmente, fez parte da história dos mangas e marcou a Shonen Jump com suas duas séries de maior êxito. E, com a mais absoluta certeza, mudou a vida de todos os otakus nascidos em solo brasileiro.

Goste você de Cavaleiros do Zodíaco ou não, reconheça você todos os defeitos e problemas de Cavaleiros do Zodíaco ou não, se hoje temos uma base otaku forte no Brasil (diabos… se hoje o próprio Genkidama existe!) foi porque, na metade dos anos 80, um sujeito esquisito tomou muito vinho e achou que seria legal desenhar asas num centauro… só porque ele queria, porque queria, que o cavaleiro do seu signo tivesse asas!

Valeu, mestre Kururu!

Santos enlatados não foram a única criação de Masami Kurumada! […]