Conto: Boa Noite

História de terror suave para o Halloween: Boa Noite.

O quão forte pode ser a ligação entre dois irmãos?

BOA NOITE

– Gu? Não consigo dormir.

A frase foi dita num sussurro, mas no silêncio total do quarto soava alta e clara.

Gustavo estava deitado na cama de cima do beliche, olhando para o teto. A voz veio da cama de baixo, onde seu irmão mais novo, Guilherme, dormia. O rapaz se remexeu entre os lençóis e esticou o pescoço para olhar para baixo.

Não havia ninguém na outra cama do beliche.

Aquilo não surpreendeu Gustavo, afinal seu irmão mais novo havia morrido há três meses.

Aquela não era a primeira vez que ele tinha a impressão de ter escutado a voz da criança morta. Desde a missa de sétimo dia de Guilherme, o rapaz tinha sempre a impressão de que seu irmãozinho estava com ele no quarto. E ele sempre repetia aquela mesma frase. A última que ele disse enquanto ainda estava vivo, agonizando numa cama de hospital.

“Gu? Não consigo dormir.”

Foi uma estupidez completa.

Os dois irmãos tinham decidido cabular aula naquela sexta-feira. Gustavo, com seus dezesseis anos, tinha a insensatez e irresponsabilidades inerentes à sua idade. Vivia levando bronca na escola. Guilherme, adorável pré-adolescente de onze anos, o seguia sempre em suas aventuras. E naquele dia os dois haviam decidido cabular aula para passar a manhã toda no antigo parque da cidade de São Cipriano.

O local estava condenado. Os brinquedos estavam velhos e enferrujados. A gangorra rangia, o balanço tremia, o trepa-trepa era um perigo para quem quer que fosse subir nele. Mas o risco era parte da diversão. Os dois sempre iam para aquelas bandas, sentindo que eram aventureiros da vida real.

Os dois irmãos viviam com o pai viúvo, um homem ocupado com o trabalho e que não tinha tempo livre para os meninos. Eles tinham que se virar como podiam.

Vez ou outra eles viam um mendigo ou um drogado no parque. Às vezes um policial. Eram ameaçados e ordenados a não entrar mais lá, mas… oh… a fruta proibida era justamente a mais gostosa. A corrida, a adrenalina, a sensação de pular velozmente o muro do parque ou passar por entre as grades tortas valia a pena. Ficavam ambos sem fôlego, rindo e prometendo que iam se aventurar lá de novo. Era o seu cantinho secreto.

E, naquele dia, Guilherme acabou se cortando no trepa-trepa.

– Aaaaai! – gemeu o menino, segurando o corte feio que fez no braço. – Tá sangrando! Tá sangrando!

– Calma! – Gustavo correu para ajudá-lo. – Aqui, tem uma torneira aqui, vamos lavar!

– Tá muito fundo?! – Guilherme não ousava olhar para o próprio ferimento. – Ai! Ai!

– Um pouco. – o adolescente tentou acalmar o irmão. – Pronto, aqui! Pega minha camiseta de educação física… ela tá velha mesmo… amarra, isso! Parou de sangrar!

– Ai… o pai vai bater na gente! – o menino estava com uma expressão de choro.

– Não vai não! Ele não precisa saber disto! Se você usar a sua camisa de manga comprida ele nem vai notar que você se machucou!

O plano parecia razoável. Afinal, se o pai dos meninos descobrisse que Guilherme havia se machucado, ele iria tomar satisfações com a escola e descobriria que os dois cabularam aula. Sim, era melhor esconder os fatos e deixar aquele machucado para os dois irmãos tratarem.

Pena que nenhum dos dois sabia como tratar o tétano.

Alguns dias depois, quando Guilherme começou a apresentar estranhos espasmos musculares, a infecção bacteriana já havia chegado na sua fase aguda. O menino foi hospitalizado, mas havia pouco o que os médicos podiam fazer por ele naquela altura.

Gustavo dormiu no quarto de hospital com o irmão na noite em que ele morreu. A criança tremia, tinha febre e dificuldades para respirar. A última coisa que ele disse, com sua voz fraca e quebrada…

– Gu? Não consigo dormir.

E agora era Gustavo quem não conseguia mais dormir. Há dias.

Ele pensou em falar com o pai sobre as coisas que andava escutando no meio da noite, mas tinha muito medo da reação. O homem, apesar de taciturno e guardando sua dor para si mesmo, parecia claramente culpar o filho mais velho pelo ocorrido. Além disso ele era um ateu convicto que, provavelmente, iria mandar Gustavo para um psiquiatra ou coisa parecida.

O rapaz pensou em falar com outros familiares, mas achou que não iria adiantar. Boa parte da sua família era evangélica fervorosa e iria interpretar aquelas vozes como chamado do demônio ou algo semelhante.

Gustavo ainda podia tentar ir num centro espírita e falar sobre o assunto, mas não se sentia confortável. Não queria explicar para desconhecidos como ele, em sua estupidez, causou a morte do irmão.

– Gu, você viu aquela coisa debaixo da árvore?

O adolescente quase deu um pulo na cama. O beliche tremeu e ele olhou para baixo novamente. É claro… Guilherme não estava lá, mas desta vez… a frase foi diferente.

– Debaixo da árvore?! – o rapaz parecia aflito, olhando para o vazio na cama de baixo. – Que árvore?!

Não houve resposta.

– Que árvore, Gui?!

Somente o silêncio preenchia o quarto.

Sentindo que ia começar a chorar, Gustavo levou as mãos ao rosto. Ele se sentia tão culpado… tão culpado! O que ele poderia fazer para apaziguar aquela dor?

“Será que ele… está se referindo à árvore do parque? Mas qual delas?”

O rapaz deu um longo suspiro para se acalmar. saiu da cama e decidiu ir até a sala, assistir alguma coisa na tevê até pegar no sono. Antes de sair do quarto ele olhou para a janela entreaberta, da onde vinham as luzes da cidade. Teve a impressão de que viu uma cabeça humana espiando por ela.

Não, aquilo era impossível. Ele morava no sétimo andar.

…………………………….

A manhã de domingo estava gélida. Gustavo acordou às dez da manhã com o som do pai mexendo na cozinha. O homem abriu a geladeira e começou a comer a pizza fria que havia pedido na noite anterior.

– Oi, pai.

– Hm…

Os dois nunca foram muito próximos e, depois da morte de Guilherme, estavam ainda mais distantes. O rapaz foi silenciosamente até a geladeira pegar o seu pedaço de pizza. O esquentou no micro-ondas e abriu uma lata de refrigerante. Os dois comeram em silêncio, até que o homem se levantou e foi até a sala. Quando notou que havia um cobertor no sofá, começou a berrar:

– De novo esta bagunça aqui no meu sofá?! – ele jogou a coberta no chão. – Seu moleque idiota! Aprenda a dormir na sua cama!

Aqueles rompantes de raiva eram o modo com que o pai de Gustavo lidava com sua dor. O rapaz já estava acostumado.

O pai nunca fora amoroso, de qualquer forma. Nunca tinha tempo para os meninos. Sua mãe, por outro lado, era diferente. Muito amorosa e participativa. Ela sempre levava as duas crianças para passear aos domingos. Talvez este fosse o motivo porque Gustavo e o irmão menor gostavam tanto de entrar naquele parque abandonado, como se, de certa forma, fosse uma maneira de se lembrar dos tempos felizes.

Com resignação, ele foi até a sala e pegou o cobertor do chão, de cabeça baixa. Voltou para o quarto e arrumou a cama do beliche. Apenas a de cima, pois a cama de baixo não era desfeita há mais de três meses.

O adolescente tirou o pijama e foi tomar um banho. O chuveiro custou a esquentar a água gelada do cano. Enquanto deixava cair a água na cabeça, tomou uma decisão: ele iria voltar ao parque naquele dia. Iria descobrir o que estava debaixo da árvore.

Quem sabe isto ajudaria o seu irmão mais novo a finalmente dormir.

…………………………

imsgem

Eram seis da tarde. O sol já estava se pondo e a luz azulada do final do dia permeava o domingo frio. Gustavo estava parado diante dos portões trancados do parque.

“Qualquer um pode passar por entre estas grades tortas…” ele pensou.

Talvez a morte do seu irmão não fosse culpa sua, mas da prefeitura que não lacrou direito aquele local abandonado. O muro também era baixo, permitindo que qualquer garoto saudável conseguisse pular com pouco dificuldade.

“Se mamãe estivesse viva, ela teria tomado conta melhor de nós? Teria nos levado pessoalmente para a escola e visto a gente cruzar os portões, impedindo a gente de cabular aula?”

Gustavo lembrava da mãe com tristeza. A mulher havia sido atropelada há três anos e o motorista não havia prestado socorro. Segundos os médicos, quando ela chegou aos hospital, já havia perdido muito sangue. Teria sido este homem desconhecido o verdadeiro responsável pela morte de Guilherme?

“Por que nós gostávamos tanto deste lugar?” o menino mordeu o lábio enquanto seus pensamentos voavam em sua cabeça. “Olhando bem ele é feio, decrépito… os outros meninos me zoavam por eu sempre voltar aqui com meu irmão, dizendo que aproveitavam melhor o seu tempo jogando videogame em casa. Por que eu sempre quis vir aqui? Por que o Gui sempre queria vir aqui comigo?”

Foi a pessoa que construiu este parque a responsável pela tragédia? A pessoa que decidiu fechá-lo? O pai dos meninos que insistiu para que eles se mudassem para São Cipriano?

Que borboleta bateu as asas e causou este desastre?

Gustavo se agachou e passou fácil pelos portões, como sempre fazia. Olhou para os lados para ver se havia alguém. O local estava deserto. Jogadas num canto do muro havia seringas descartadas e cachimbos de crack, confirmando a presença das pessoas que costumavam frequentar o local junto com ele e seu irmão.

O mato estava na altura dos joelhos. No centro do parque, numa grande roda pavimentada com areia e cascalho, estavam os brinquedos. Todos sujos, enferrujados, condenados. A brisa gélida fazia o banco do balanço ranger ao vento. A torneira, a mesma que os irmãos abriram para lavar o ferimento de Guilherme, gotejava a cada três segundos.

E por toda a parte haviam árvores. Magras, negras e retorcidas. A maioria não tinha folhas, pois estavam no inverno.  Algumas já estavam mortas, talvez até infestadas de cupins – mais um perigo iminente de vida para quem se aventurava naquele lugar maldito.

“Qual destas árvores, Gui?” Gustavo pensava, passando o olho por entre elas.

O rapaz começou a andar no meio do mato, sempre olhando para o chão. Deveria ter alguma coisa por entre as raízes de alguma destas árvores? O que o seu irmão mais novo havia visto?

Ele checou uma delas, nada. Checou outra. Nada. Checou mais uma. Nada.

“Eu estou enlouquecendo?” pensava Gustavo. “Não tem nada debaixo de árvore nenhuma! E, mesmo se tivesse, como Guilherme ia enxergar alguma coisa com todo este mato alto?”

– Ali.

A voz foi sussurrada pelo vento e desapareceu. Por um instante o rapaz achou que fosse uma voz feminina. Ele olhou para trás, mas não havia ninguém.

Apenas uma árvore negra e morta, erguendo-se indolente em direção ao céu nublado.

Gustavo correu até ela e começou a investigá-la. Não parecia haver nada de muito diferente por entre as suas raízes. Passou a sola do tênis algumas vezes no meio da terra. E então notou algo.

Havia uma coisa enterrada ali.

Com suas mãos, ele começou a cavar a terra. Não levou muito tempo até encontrar alguma coisa quadrada no meio das raízes. Cavou mais e descobriu uma caixa de metal. Seu coração pulou na garganta e Gustavo se apressou em desenterrá-la por completo. O objeto tinha cerca de trinta centímetros.

Por um instante, ele teve a impressão de já ter visto aquela caixa antes. Há muito tempo.

Gustavo a abriu.

Dentro da caixa, havia uma faca. Enferrujada e manchada por alguma coisa escura.

– O que… o que você está fazendo aqui?!

O rapaz olhou para trás, assustado. Havia um homem atrás dele, com os olhos arregalados e rosto lívido.

– Pai?

O homem estava tremendo dos pés à cabeça. Vestia um par de chinelos e uma bermuda, indicando que ele havia saído de casa às pressas. Ele estava mudo e respirava pesado.

– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?!? – ele repetiu, gritando.

“Ele me seguiu?!” pensou o jovem, alarmado. “Não… ele não me seguiu, ele acabou de chegar. Mas… por quê? Como?!”

Por um momento, Gustavo teve a impressão de ter visto, atrás de seu pai, duas silhuetas sem nitidez.

– Pai… – a voz do menino ficava mais dolorida a cada segundo, enquanto ele segurava no cabo da faca. – A mamãe… ela não morreu atropelada, não é?

Toda a ação demorou o tempo de um gotejar da torneira do parque.

Num instante, o homem se atirou sobre o filho. Seu punho acertou o rosto do garoto e o fez cair. Suas mãos envolveram o pescoço dele. Gustavo ergueu a faca em sua mão e acertou seu pai na barriga. A lâmina penetrou até o cabo.

Soltando um grito, o homem não ousou largar o pescoço do rapaz, mesmo com seu ventre aberto. Suas mãos ainda tinham uma força descomunal e ele sacudia a cabeça do garoto contra o chão. Iria morrer, mas estava disposto a levar seu próprio filho junto.

– Gu! Não durma! – alguém sussurrou em seu ouvido.

O rapaz girou o punho e puxou a faca para o lado, abrindo ainda mais o ferimento.

Gustavo olhou para cima e viu seu pai vomitar sangue e morrer de olhos abertos em cima dele. O jovem não conseguia se mexer, o cadáver do pai parecia incrivelmente pesado sobre seu corpo, cujos braços e pernas tremiam tanto que pareciam estar se movendo por conta própria.

Quando o garoto conseguiu retomar os movimentos do corpo, olhou para cima e percebeu que já havia escurecido. Ao longe, o único som audível era o quase imperceptível gotejar da torneira.

……………………………………………

Os tios de Gustavo insistiram para que ele frequentasse a igreja. Depois do horrendo episódio envolvendo seu pai (que agora já completavam dois anos), eles acreditavam que só Deus poderia aliviar a dor do coração do rapaz.

Mas o coração de Gustavo não estava pesado. Estava leve. Desde o dia em que assistiu ao enterro do pai assassino, seu coração estava leve como uma pluma. Mesmo assim, o jovem acabou adquirindo o costume de rezar todas as noites. Era bom. fazia com que se sentisse melhor.

O quarto que seus tios arrumaram para ele era simples, mas espaçoso. A cama em que ele dormia era de casal.

Depois que terminava de rezar, Gustavo sempre deitava do lado esquerdo da cama, puxando as velhas cobertas até a metade do corpo. Sorria e olhava para o lado.

– Boa noite, Gui!

E, no total silêncio e escuridão do quarto, a coberta do seu lado direito era puxada até a altura do travesseiro por uma força invisível.

História de terror suave para o Halloween: Boa Noite. O […]