Bara: Pegada Forte!

Conheça o Bara! Gênero de mangas para quem acha BL/Yaoi muito “bonitinho”!

Bem-vindos às quinta-feiras do Gyabbo!, onde a igualdade é normal!

Na última semana os Estados Unidos (e o mundo) comemoraram a decisão da Suprema Corte Americana em legalizar o casamento homoafetivo em todo o seu território – ele já era legalizado em alguns estados, mas nas regiões mais conservadoras como Texas e Alabama ainda estritamente proibido. Esta é uma das maiores conquistas que o “país da liberdade” teve para a comunidade LGBT, principalmente se nos lembrarmos que, até 1962, ser homossexual era crime no país, passível de prisão em regime fechado, trabalhos forçados, castração química e até pena de morte.

Infelizmente uma lei não é suficiente para mudar a cabeça das pessoas. Homossexuais continuarão a ser perseguidos e execrados em várias regiões dos Estados Unidos (e do mundo) por pessoas infelizes o suficiente com suas próprias vidas a ponto de se incomodar com a felicidade alheia. Bem, mas chega do papo pesado! Hora de falarmos de manga!

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A demografia que vamos tratar hoje é um dos estilos de quadrinhos japoneses menos conhecidos fora do país: o BARA.

Este estilo, cuja origem do nome veio de uma revista independente lançada em 1964 com o mesmo nome (a palavra “bara” significa “rosa”), sendo considerada a primeira publicação voltada ao público gay masculino no Japão. Naquela época, o país, reconstruído pelos Estados Unidos (que até então ainda considerava o “homossexuaLISMO” como crime e doença mental), adotou algumas de suas neuroses, entre elas a homofobia. Algo que nunca foi um grande problema por lá antes da sua forçada ocidentalização (mais detalhes NESTE POST).

Desde estão, o Japão começou pouco a pouco a escalar sua pequena grade de conquistas no nicho de publicações para o público homossexual. Assim, nos anos 70 surgiu a primeira publicação gay oficialmente distribuída em bancas, a revista Barazoku (“Tribo da Rosa”). Já nos anos 80 e 90 surgiram outras publicações como a G-Men que, agora, mais “fora do armário”, podiam carregar a bandeira gay com mais liberdade.

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Um dos atrativos destas revistas eram as fotos e ilustrações eróticas que logo se transformaram em mangas. No princípio histórias curtas e tímidas, com a maioria dos seus artistas usando pseudônimos. O enredo não era um dos grandes atrativos destes primeiros mangas, sendo a maioria apenas desculpas para se desenhar cenas sexuais – algo comum em quadrinhos pornográficos em todo o mundo.

Porém, pouco a pouco foram surgindo artistas que realmente queriam escrever histórias profundas e convincentes sobre os relacionamentos de homens homossexuais no Japão. É neste ponto que os mangas Bara e o já conhecido BL/Yaoi se diferem. E muito.

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Para começar, os mangas BL/Yaoi surgiram das mentes femininas do Japão, inicialmente como fanzines. Tratava-se de artistas mulheres heterossexuais que desenhavam as histórias, imaginando de forma lúdica como seria um relacionamento entre dois personagens masculinos. Sim, haviam homens trabalhando neste meio, mas a maioria das artistas eram mulheres. A grande maioria dos homossexuais do Japão costumam ignorar o BL/Yaoi pois não conseguem se ver retratados nestas histórias.

Nos mangas com temática homoafetiva masculina, voltadas para o público feminino, os homens são retratados como “bonitos”, magrinhos, esbeltos, com pinta de modelo, sem pelos corporais e uma aparência quase andrógena. No Bara os homens são mostrados de forma mais realista; com barba, músculos, gordura e fazendo coisas do estereótipo de macheza, como trabalhar em escritórios, fumar, beber ou executar um trabalho braçal qualquer. Os homens Bara não são nem um pouco delicados e muitas mulheres poderiam considerá-los feios pelos padrões de beleza vigentes na ilha (que priorizam os meninos “meigos”).

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Em segundo lugar, as histórias da maioria dos BL/Yaoi também não convencem o público gay. Muitas vezes são mostrados enredos de relacionamentos excessivamente sensíveis e floreados. O Bara, por sua vez, mostra situações do cotidiano de forma mais pragmática e pouco lúdicos. Isto não quer dizer, entretanto, que os mangas Baras são “insensíveis”.

Existem muitos autores Bara que realmente não possuem grande preocupação com roteiro, como Gengoroh Tagame – cujas histórias são quase sempre desculpas tristes para uma sucessão de sadomasoquismo não-consensual. Outros arriscam alguns enredos mais profundos que vão além de simples one-shots, como Jiraiya e Takeshi Matsu ou mesmo outro nome relativamente famoso no meio como Susumu Hirosegawa que, inclusive, começou sua carreia no BL/Yaoi. Neles podemos ver histórias mais longas, de relacionamentos mais profundos, com alguns pontos em comum como as inseguranças, dúvidas sobre a sexualidade do outro, estigmas sociais e solidão. A maioria não tem um “final feliz” como, no máximo são meio agridoces.

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Uma das razões pelo qual o Bara ainda não é tão conhecido no ocidente quanto seu “primo” é, além do fato da aparência dos personagens não lembrar muito os asseados mocinhos de olhos grandes que estamos acostumados (e isto conta para algumas editoras), não existir nenhum grande título original deste gênero que alcance o grande público, mesmo que pela curiosidade – como os casos de Gravitation, Doukyuusei ou Loveless. Sem falar que a maioria das histórias ainda está calcada no excesso de erotismo, o que expulsa o público mainstream. No entanto a maioria dos autores deste gênero não está tão preocupada (até o momento) em estender o seu público além dos leitores gays masculinos e algumas ocasionais mulheres que se interessam por algumas obras (tipo eu!).

No Brasil, jamais foi publicado nenhum manga deste tipo e uma editora que fosse aventurar-se em lançar alguma obra Bara no país teria que fazer um esforço extra para direcioná-la ao público certo, ainda mais pela confusão que acontece nas bancas nacionais onde todo manga é exposto em conjunto, independente do seu conteúdo. Colocar o BL/Yaoi nas prateleiras tupiniquins já não é tão simples, mesmo eles sendo mais próximos dos mangas que o leitor geral está acostumado a ler, imagine algo que vai na direção contrária. Mas certamente há espaço no nosso mercado para ser explorado, ainda mais com a causa LGBT ganhando cada vez mais força.

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Uma obra Bara teria que ter um marketing direcionado ao público gay masculino, inclusive aqueles que não costumam ler mangas ou quadrinhos em geral – afinal, é justamente para este público que estas histórias são direcionadas em revistas como G-Men -, e seus volumes provavelmente teriam que vir lacrados nas bancas visto que a maioria destas obras é de material erótico explícito.

Você acredita que um dia veremos títulos Bara no Brasil? Deixe seu comentário e venha discutir conosco.

Espero que tenham gostado de conhecer mais este estilo de manga. E viva à igualdade!

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