Shiruba! Manga brasileiro publicado no Japão! [ATUALIZADO: PRIMEIRO DE ABRIL]

Mais um autor brasileiro emplaca no arquipélago nipônico! Conheça a obra de Hideo Sasuke: Shiruba!

“Os grandes artistas não têm pátria”

Alfred de Musset

As artes, de um modo geral, são consideradas artigos de luxo. Algo facilmente descartável dentro do nosso sistema econômico que ainda possui ecos da Era Industrial do século XIX: que promove mais o apertar do parafuso do que o desenvolver de uma ideia original.

No nosso ensino primeiro aprendemos o que é “útil” para depois (se der tempo) desenvolvermos a compreensão, a sensibilidade e o amor pelo tópico estudado – nesta ordem.

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Por este motivo as artes são sempre colocadas para debaixo do tapete. É quase unânime a opinião das pessoas de que um engenheiro é mais útil à sociedade do que um músico. Se formos pensar nos termos práticos da sobrevivência humana, talvez. Um bom engenheiro ajuda as pessoas a ficarem vivas, mas um bom músico dá às pessoas um motivo para quererem estar vivas! Afinal, de que adianta viver em um prédio resistente se na sua vida não há belas canções que você possa ouvir?

Hoje ainda estamos na vanguarda de uma mudança deste paradigma. O mote de “realizar os seus sonhos” nunca foi tão comum (e, infelizmente, tão banalizado). Mas ainda temos um longo caminho a percorrer, pois com certeza seus pais devem achar que passar num concurso público é uma opção mais sensata do que tentar ser um dançarino profissional, correto?

No Brasil, as artes encontram um terreno lamacento bastante intransponível. E a arte dos Quadrinhos, em especial, patina em areia movediça cercada por jacarés e com balas de metralhadoras voando por cima da cabeça. Este é o motivo porque alguns dos nossos mais talentosos quadrinistas “fogem” para os Estados Unidos, para Inglaterra, Itália, França e até o Japão – por mais complicado que seja para um estrangeiro conseguir uma chance na área, ainda é mais fácil para eles fazer quadrinhos nestes países do que aqui.

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E no que diz respeito a nós, fãs de mangas, pelo menos um brasileiro já conseguiu emplacar uma obra e até ganhar anime: Yuu Kamiya, nom de plume de Thiago Furukawa Lucas, autor de No Game no Life. Isto mostra que não é impossível este feito – pelo menos para quem conseguir se estabilizar no país. Porém, Kamiya não está mais sozinho. Ele acaba de ganhar um conterrâneo mangaka. Felipe Meireles da Silva, mais conhecido como Hideo Sasuke, é o autor de Shiruba!, publicado desde 2013 na revista mensal da Asahi Comics, da editora Ishikawa.

Vale começar a explicação pelo nome: “shiruba” seria uma versão aproximada da pronuncia do nome “Silva” no Japão – o sobrenome mais comum no Brasil e, também, o sobrenome do autor do manga e do personagem principal da série, um yakuza brasileiro chamado Antonio Carlos Maruyama da Silva.

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Na história, Antonio Carlos recusou um convite do seu oyabun (chefe da máfia) japonês de imigrar para o arquipélago e se tornar um “yakuza de verdade”. Ele preferiu ficar no Brasil, mais especificamente na cidade de São Paulo, e criar o seu próprio clã. E decidiu dar o seu nome à ele: “Silva” ou “Shiruba” (シルバ), como fica nos caracteres katakanas, feitos para traduzir os nomes estrangeiros. Sua intenção é tornar seu grupo o mais forte do Brasil.

Porém o objetivo do nosso paulistano não será fácil. Para começar, a maioria da comunidade nipônica de Sampa considera o clã ilegítimo, sem falar que ninguém gostaria de fazer parte de um grupo chamado “Silva”. Antonio Carlos também não possui uma imagem acalentadora de líder oyabun: é um tremendo palhaço, fazendo troça do excesso de seriedade da yakuza, sem falar que ele possui um percentual de gordura corporal um tanto acima da média para que os delgados orientais da máfia o vejam como um exemplo a ser seguido.

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Mas quem se importa? Antonio Carlos é brasileiro e não desiste nunca! No começo apenas um rapaz de Heliópolis, que nem descendência nipônica tem, topa fazer parte do seu grupo:  Rogério, um rapaz negro que possui uma perna mecânica e tem o sugestivo apelido de Saci. Aos poucos ele e seu saiko-komon (ou “pau-para-toda-obra”) começam a controlar alguns pontos de comércio que pertencem a outras máfias, não só japonesas, mas também italianas, bolivianas e brasileiras. E tudo isto em clima de zueira never ends – ah, sim, a obra é um seinen de comédia, caso eu tenha esquecido de mencionar.

O roteiro é bem interessante – original para os padrões japoneses -, engraçado e a ainda possui uma arte boa, com um traçado diferente, próprio da obras menos convencionais que vemos nos seinens. E falando em arte, o personagem Antonio Carlos, como todo bom yakuza, possui uma grande tatuagem nas costas. Mais especificamente uma mula-sem-cabeça! Com certeza um “youkai” bastante atípico neste meio, não é?

Antonio

Embora Shiruba! seja ainda desconhecido (é quase impossível encontrar algum scan do manga), de um modo geral ele fica no Top 5 da Asahi Comics. Não é sempre que algo com tempero genuinamente latino pousa nas páginas das revistas japonesas. O terceiro volume por pouco não pegou a rabeira do último Rank Semanal da Oricon dos mangas mais vendidos – o que já faz do manga um dos mais bem-sucedidos da pequena editora.

Quem sabe se alguma editora brasileira se interessar, a obra não estoure – pelo menos aqui? No Game No Life já teve uma ótima estreia no país ano passado. E quem sabe isto não seja o incentivo para que outros brasileiros tentem a sorte – pelo menos no exterior.

Ganbare! É do Brasil-il-il-il!

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