Sayonara, Zetsubou-Sensei

Bure! Bure! Bure! Bure! Diga adeus ao Professor Desespero com Sayonara, Zetsubou-Sensei!

“A resignação é um suicídio cotidiano.”

Honoré de Balzac

Bem-vindos às noites de segunda-feira do Gyabbo!, onde os bizarros são normais!

Poucos assuntos são mais bizarros e evasivos do que o Existencialismo. Por que o Universo sequer se dá ao trabalho de existir? Por que não o nada? E se existe algum propósito, qual seria ele? E uma vez que descobrirmos este propósito, ele será suficiente para nós?

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Ah, os anseios humanos! Eles estão entre as ciências mais estudadas da história. Grandezas que fogem à área das medições exatas, como o amor, a felicidade e o reconhecimento alheio já foram exaustivamente debatidos por filósofos, estudiosos, religiosos e convivas de buteco. Toda a ciência e religião é fruto do maior desejo humano: saber das coisas. Encontrar um sentido para isto tudo. Uma perigosa espiral de pensamentos que já jogou muitos gênios na loucura e no desejo de findar a própria existência para também findar a pergunta.

Se existe um Deus e se Ele realmente nos fez a sua imagem e semelhança, tenho quase certeza que a primeira frase Dele não foi “Faça-se a Luz”, mas sim “Por que eu?”.

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Criado por Koji Kumeta, o manga Sayonara, Zetsubou-Sensei estreou na Weekly Shonen Magazine em 2005. Trata-se de uma paródia de duas coisas: Primeiro, do gênero Harém, onde um homem fica rodeado de belas garotas, todas “disponíveis” para ele fazer o que quiser – embora, geralmente, ele nunca faça nada (exceto quando o gênero se liga ao Hentai). Segundo, faz troça de diversas doenças mentais e comportamentais, sendo que no topo delas está a mais epidêmica de todas: a depressão.

O protagonista em questão é o professor Nozomu Itoshiki, mais conhecido como Zetsubou (desespero) devido a uma piadinha de grafia de nomes em japonês. Trata-se de um jovem professor colegial que possui depressão severa e, constantemente, quer se matar. Porém, as coisas tomam um rumo estranho quando ele conhece uma de suas jovens alunas, a doce Fuura, que é o otimismo em pessoa.

A garota tenta fazer de tudo para que o sensei veja o lado “rosa” da força e pare de ser pessimista. Mas isto não será fácil, até porque Fuura parece ser a única pessoa positiva de sua classe. Na sala do professor Zetsubou, todos os alunos parecem ter sérios problemas de autoestima, sobretudo os meninos.  E entre as garotas, temos um verdadeiro catálogo patológico de moléstias mentais, cada uma delas com uma síndrome psiquiátrica diferente.

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Temos Kiri que é um reclusa que anda sempre envolta num cobertor, com medo de sair do seu quarto. Matoi, que possui sérios problemas de ansiedade e ciúmes, sempre seguindo seus namorados por todo o canto. Temos Kaere, estrangeira repatriada, que sofre com problemas de dupla personalidade onde uma delas gosta do Japão e a outra odeia. Chiri que possui TOC e não suporta ver coisas desarrumadas ou malfeitas. Há também algumas alunas que aparentemente não possuem problema nenhum, como a alegre imigrante ilegal Maria que, na verdade, é constantemente alvo de homens com tendências pedófilas por se bonitinha. Enfim, a lista é longa.

Os capítulos da série sempre abordam temas cotidianos do Japão, superlativados para o pior quadro possível. Zetsubou não pode sequer passar o seu cartão do Bilhete Único na catraca que ele pensa que todos os seus cartões de banco foram clonados. O número de tracinhos que ele precisa para escrever seu nome são símbolo de mau agouro numerológico. Qualquer linha do trem dando sopa é motivo para ele ficar com os olhinhos brilhando e querer se matar.

Ao mesmo tempo, Fuura também leva o lado otimista muito profundamente. Pessoas querendo se enforcar nada mais são do que “pessoas querendo ficar mais altas”. Cada árvore, cerca ou lixeira na escola tem um apelido bonitinho. O modo como ela tenta defender suas colegas (como falar que o ciúme doentio e a mania de seguir seus namorados da Matoi nada mais são do que “amor profundo”) é hilária. Parece um livro de autoajuda ruim.

Impossível não rir destas situações, mas até onde vai a graça?

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Sayonara, Zetsubou-Sensei não é uma série fácil para ocidentais, pois uma quantidade enorme de piadinhas e referências tipicamente japonesas se perde na tradução, como a já citada grafia do nome do professor Desespero – aliás, todos os nomes das alunas possuem algum trocadilho em japonês. Sem falar em várias outras piadas internas que nem mesmo os mais esforçados tradutores conseguem entender. É um manga, acima de tudo, de comédia – e a o hilário de outro país sempre será um pouco alienígena para nós.

Já o traço de Kumeta é de grande destaque; suas linhas são finas, claras e precisas. Ele faz muito uso de contrastes e silhuetas bem delineadas para esculpir seus personagens. Trata-se de um estilo único e muito bonito e que o anime soube bem emular. Sim! A série possui um anime que estreou em 2007 e teve três temporadas, além de outros três OVAs. Estes possuem também o seu pequeno pacote de piadinhas internas, como a presença onipresente de um japa careca, de barba e óculos escuros que aparece em momentos aleatórios.

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Agora, falando um pouco mais sobre as entrelinhas da série, Sayonara, Zetsubou-Sensei faz uma crítica severa aos “wannabe” suicidas: pessoas que querem se matar pelos motivos mais insignificantes, como uma nota baixa na escola ou o fato de ter derrubado a torrada com o lado da geleia para baixo. Não que a ameaça real de uma pessoa tirar a própria vida seja insignificante, mas a verdade é que existem muitos que só desejam chamar a atenção ou tentar fazer outras pessoas se sentirem culpadas – sim, uma pessoa também pode se suicidar com a intenção de querer se vingar de alguém, isto é real.

A despeito de ser uma série divertida, a problemática do suicídio será sempre um assunto muito sério e uma constante na humanidade. Enquanto houver uma mente humana que questiona tudo, esta mente humana sempre correrá o risco de querer “desligar” tudo – seja  pondo um fim à sua existência, seja se entregando a alguma lobotomia moral: virando um radical político ou religioso a fim de encontrar algum sentido na vida.

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E assim como o Ebola, que parece ser uma doença longínqua, lá nos confins da África, esta doença chamada depressão pode atingir qualquer um de nós. De fato, a tendência é que cada vez mais todas as pessoas do mundo enfrentem algum tipo de quadro leve ou severo de depressão uma vez na vida.

O maior inimigo do suicida e do depressivo muitas vezes é ele mesmo: às vezes o Ego não se permite ser consertado, porque a atenção e a preocupação das pessoas quando se adoece também é uma espécie de “recompensa” que mantêm o doente assim – sem falar que fica mais complicado quando a depressão provém de um gatilho externo, incapacitando a pessoa de enxergar que o problema pode estar dentro dela.

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Bem, após esta pequena análise da série, aproveito para deixar um conselho (de graça!) aos queridos leitores: 2015 está apenas começando e é difícil que algo na sua vida mude enquanto você não praticar novas ações. Embora hoje em dia o normal seja se isolar dentro do seu quarto com sua internet, é bom que as pessoas saiam um pouco para conhecerem coisas diferentes e respirarem novos ares. Não deixem que o seu pequeno mundinho de nerd otaku seja o norte da sua vida. 

A arte e o entretenimento em geral foram feitos “para que a realidade não nos destrua” como diria Nietzsche. Porém, mergulhar muito a fundo neste mar pode fazer com que você se afogue. Pior, pode aumentar o seu choque na hora de ter que colocar a cabeça para fora e enxergar o mundo real.

Um dos maiores fatores do suicídio, a solidão, já é considerada uma epidemia moderna. E isto não tem nada a ver com estar rodeado de pessoas ou não. É possível se sentir sozinho numa casa cheia de gente, numa festa, ou ainda estando casado ou namorando. Robin Williams, falecido ano passado após tirar a própria vida, disse certa vez:  “Eu costumava pensar que a pior coisa na vida era acabar totalmente sozinho. Não é. A pior coisa na vida é acabar com pessoas que fazem você se sentir sozinho.” Ele, infelizmente, foi pego numa maré alta de sua dor e não conseguiu boiar. Mas para todos aqueles que estejam se sentindo sozinhos ou desesperançados, saibam sempre: a dor pode ser passageira. A morte não.

Por isto, sempre se lembre de que não importa o tamanho do tombo, podemos sempre nos levantar. Procure novos ares. Não fique trancado em casa. Conheça pessoas novas. Saia! Viva! Aproveite cada dia como se fosse o último… porque um dia realmente será.

Sayonara, amigos!

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