Vidas Imperfeitas

Uma amostra perfeita de como as nossas vidas podem ser imperfeitas…

A obra nos apresenta a complicada vida de Juno, uma adolescente que enfrenta diversos problemas dentro e fora de casa. Seus pais estão em pé de separação devido a uma traição, e, seu pai em especial, a tratam como se fosse uma marginal sem causa. O irmão da garota tem uma banda, mas se vê frente a responsabilidade de assumir os negócios do pai e isso acaba afetando ela também. Com tantos problemas, Juno possui uma personalidade um pouco rebelde, fingindo-se de forte frente às pessoas quando na verdade é uma frágil garota machucada por dentro.

Ninguém parece ver o interior de Juno e esta acaba rodeada no seu círculo de amigas quando Daniel surge em sua vida. O primeiro garoto que a venceu no braço de ferro começa a se aproximar dela e isso causa um forte sentimento nunca sentido antes. Daniel consegue ver a garota sensível que Juno também é e daí surge um grande amor, mas a vida continua imperfeita como sempre foi e como sempre será.

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Vidas Imperfeitas surgiu no ano de 2008 pelas mãos de Mariana Cagnin que criou a obra como um fanzine impresso para eventos de anime. Trabalhando com o mercado nacional de quadrinhos, era difícil prever até onde essa obra poderia chegar, mas a perseverança da autora a fez ganhar muita visibilidade nos eventos e mais ainda quando começou a publicar as suas páginas na internet através do site DeviantArt e posteriormente em seu próprio blog. Após as editoras brasileiras começarem a apoiar mais o quadrinho nacional, pegando todos os fanzineiros de surpresa, a Editora HQM procurou a autora para publicar a sua obra completa em três volumes, totalizando seis capítulos.

Não tem como falar de um quadrinho nacional sem falar do preconceito que as pessoas tem quanto a esse tipo de obra. O intuito do Gyabbo! nessa postagem é tentar quebrar um pouco do preconceito que os leitores tradicionais tem em dar crédito aos quadrinistas nacionais. Tem muita coisa de qualidade rolando por aí e vale muito a pena dar uma chance para eles mostrarem a que vieram! Este que vos fala mesmo, sou quadrinista também e sei como é duro entrar nesse mar repleto de peixes estrangeiros, mas nós temos que lutar pelo nosso espaço, e a Mary lutou com todas as forças até conseguir a publicação.

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Falando um pouco da arte, o traço da autora é bastante característico, um pouco mais realista do que estamos acostumados até mesmo para obras do gênero josei, onde poderíamos encaixar Vidas Imperfeitas. Contendo algumas cenas cômicas que descontraem o drama no geral, com um traço um pouco mais infantilizado, Vidas possui um equilíbrio de arte bastante gostoso de ler. Abusando das hachuras e pecando apenas nos cenários que às vezes podem parecer um pouco simples demais com leves erros de perspectiva, no geral o traço agrada e muito. Foi a primeira obra de Mary e a arte vai evoluindo aos poucos. A Editora HQM fez a publicação dos seis capítulos que a história possui, mas após o final dela, a autora fez alguns spin-offs chamados “side stories” com alguns personagens que não tiveram tanta atenção para si e também um epílogo contando o que acontece após 12 anos do final.

Mesclando momentos que nos deixam com vontade de socar alguns personagens e outros que nos fazem querer pegar Juno no colo para consolá-la após tantos acontecimentos decepcionantes, o plot de Vidas Imperfeitas foi bem construído para o baixo número de capítulos. Você fica com aquela sensação de que poderia acontecer mais coisas, mas o fato é que são poucas ou nenhuma as pontas soltas. Devido a isso, alguns personagens que poderiam ser melhor trabalhados acabam ficando pelo caminho como Jay, o irmão da protagonista. Ele é um dos personagens mais engraçados e interessantes e o seu drama, apesar de resolvido, não teve tanta relevância ao longo dos capítulos.

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O relacionamento de Juno com o pai, Henrique, é outro ponto que chama bastante atenção. Quantas pessoas não se identificam com essa relação de pai ausente, que está sempre se preocupando demais com o trabalho e apesar de amar seus filhos, acaba ganhando a ira deles por conta disso? Crescendo sem uma referência masculina constante na sua vida, Juno acabou se fechando, tornando-se forte para suprir essa falta.

Vidas Imperfeitas é sem dúvida um mangá obrigatório para todo fã de quadrinhos por diversos motivos. Por ser brasileiro, por ser interessante, por ser belo em sua imperfeição, por ser independente e romântico. A Editora HQM acreditou nessa autora de talento e nós brasileiros também devemos acreditar. Não só nela, mas em outros autores brasileiros que estão batalhando todo dia para chegar até uma editora e colocar nossa bandeira no mastro. Ah, e a edição física está linda! Merece todos os elogios que descrevi aqui e um pouco mais. Que tal conhecer um pouco mais do que é feito no seu próprio país? Nós somos imperfeitos, mas quem não é? Afinal nossos mangas e nossas vidas são perfeitas dentro de sua imperfeição.

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