O que está acontecendo com Hinomaru Zumou?

Análise de caso: Por que Hinomaru Zumou, um dos mangas mais populares da SHONEN JUMP, vende tão pouco?

“Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.”

Confúcio

Bem-vindos às noites de segunda-feira do Gyabbo!, onde os bizarros são normais!

Em 2012 estreou na JUMP um novato como nunca antes visto: uma grande bola amarela, tal qual Pacman, comendo os bumbuns de todas as séries de renome no famoso TOC da revista – o rank das séries mais populares, escolhidas por votação. Superou Toriko, superou Bakuman, superou Bleach (este foi fácil…), superou Naruto e – pasmem! – ficou na frente de One Piece várias vezes! Este novato chamava-se Ansatsu Kyoushitsu ou Assassination Classroom.

Agora, com a iminência do seu anime e live-action, não será mais tão novato assim. Tal qual um funcionário público, em breve vai encerrar o seu estágio probatório de três anos e será, definitivamente, alçado a novo pilar da revista. E suas vendas, que sempre foram absurdas, agora vão estourar ainda mais. Seu primeiro volume vendeu 300 mil exemplares na primeira semana! Pelo visto a exosfera é o limite.

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Em 2014 estreou na JUMP outro novato casca-grossa. Um dos poucos que conseguiu o feito de, logo no seu primeiro capítulo, conquistar o primeiríssimo lugar na TOC, assustando muita gente! Afinal o gênero não era usual: um manga de esportes (que leva tempo para fazer sucesso) focado numa luta tradicional japonesa muito fora de moda, conhecida como Sumô! Sim, o novato é Hinomaru Zumou e ele chegou impondo respeito!

Desde que estreou, a série sempre ganhou posições altas, quase nunca saindo do TOP 5. Seu primeiro volume certamente venderia no mínimo seis dígitos, correto? Infelizmente, não! O primeiro volume vendeu, em sua primeira semana, o absurdamente ridículo número de 19 mil cópias… nhé! Como pode um título tão bem posicionado na JUMP estar vendendo tão pouco?!

É isto que vamos tentar analisar nesta matéria. Por que esta bizarrice está acontecendo? Por que uma série que deveria estar vendendo bem, uma vez que seu rank na revista é sempre alto, apresenta esta discrepância tão grande entre popularidade e vendas?

Vou apresentar algumas suposições minhas – eu não moro no Japão, então tudo o que posso fazer é criar conjecturas sobre o que está acontecendo. Sintam-se à vontade para comentar.

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Hipótese 1: Cartas Marcadas.

Estaria a série fazendo um “falso” sucesso? Estaria o editorial da JUMP manipulando os resultados da TOC, fazendo a gente acreditar que os leitores gostam da série, mas na verdade não gostam? Aparentemente não. Por dois motivos. Primeiro: a JUMP nunca foi disto. Mesmo séries que eles tentam proteger possuem ranks transparentes. Podemos citar como exemplo recente a série Illegal Rare. Como era o novo título de um autor famoso (no caso Hiroshi Shiibashi de Nurarihyon no Mago) eles estavam sempre tentando evitar que a série fosse cancelada, mas sua posição rasteira na TOC era sempre exibida.

Segundo: a série tem sim, muitos fãs. O que rola em fóruns como o 2ch (um dos fóruns japas com os fãs mais chatos e exigentes) é que a série foi muito bem aceita. Em outros fóruns de países como a China e Coréia, Zumou também parece se destacar. Então a série tem sim muita popularidade. Ou seja, esta suposição está descartada.

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Hipótese 2: Timming ruim do Rank da Oricon.

Como é que eu sei que Hinomaru Zumou vendeu 19 mil na primeira semana? Por causa de uma coisinha chamada Ranking da Oricon. É uma tabela de produtos culturais mais vendidos no Japão divulgada toda a semana. Não só de mangas, mas também de livros, filmes, séries, álbuns de música, light novels, entre outros. Aparecem lá apenas o TOP 50 de obras mais vendidas. Nosso Zumouzinho apareceu numa posição bem baixa, vendendo apenas 19 mil exemplares e pegando a posição #40.

No lançamento do segundo volume da série, o Oricon pegou o período dos dias três até nove de novembro de 2014. O segundo volume de Zumou vendeu um pouco melhor: 29 mil exemplares, pegando a posição #32.

Uma possível explicação para isto seria que o manga teria sido lançado numa data ruim, dia 1 de novembro. Então as vendas dos dias 1 e 2 não foram computadas e por isso a posição ficou baixa. Mas temos como parâmetro as vendas de outro novato que também foi lançado no mesmo dia: Boku no Hero Academia. Seu primeiro volume vendeu, na primeira semana, 72 mil exemplares – pegando a excelente posição de sétimo no Oricon.

Sem falar que comentam que o Oricon, quando faz o ranqueamento, também inclui entre parênteses as vendas totais do volume. Por exemplo: nesta mesma semana o volume 14 de Tokyo Ghoul vendeu 34 mil exemplares… MAS entre parênteses incluía suas vendas totais:  567 mil. Se Zumou #2 foi lançado antes do dia 3 de novembro então deveria haver um parênteses com as vendas totais. Mas não. Creio que estes números já são os valores totais das vendas da primeira semana. Outra suposição descartada.

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Hipótese 3: Falta de Publicidade.

Já dizia o poeta (sim, poeta!) que “Publicidade é a alma do negócio”. Nada, absolutamente nada, vende apenas por pura e simples qualidade. É preciso fazer um corre, é preciso fazer um investimento. É preciso, como diria mais uma vez o poeta, “Gastar dinheiro para se fazer dinheiro”. E muitos estavam culpando as vendas baixíssimas do primeiro volume à falta de publicidade da JUMP em cima do título.

Isto pode até ser válido no volume 1, mas no volume 2 a série ganhou uma publicidade mais ferrenha. Recebeu diversas páginas coloridas, uma capa e um banner seu até chegou a aparecer durante uma partida de sumô de verdade! Claro que a JUMP pisou na bola, escolhendo justo uma das capas mais horrorosas para a divulgação, mas pelo menos mostrou que o manga existe. E funcionou: a série vendeu na primeira semana 50% a mais do que no seu primeiro volume. Mas ainda é pouco.

De qualquer forma, é outra suposição descartada.

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Hipótese 4: Long Seller.

Existem aqueles quadrinhos que nós amamos de paixão e contamos os dias para eles chegarem nas bancas ou livrarias. Fazemos encomendas e assinaturas. Queremos ler o mais depressa possível! E existem aqueles que nós gostamos, mas não temos tanta pressa em comprar. Ou ainda aqueles que gostamos, mas não compramos tudo, pegamos só uma revistinha aqui e acolá para ler algo na sala do dentista. Os famosos títulos de “leitura casual”.

Talvez Hinomaru Zumou seja do segundo tipo (até porque mangas episódicos não dão muito certo como leitura casual). Seja aquele título que a turma gosta, mas uma vez que já degustou o capítulo na JUMP não tem muita pressa para comprar o volume compilado – ou talvez nem compre! Mas, ainda assim, é um título que vende bem com o tempo, caracterizando como um Long-Seller.

Mas para ter certeza que é esta hipótese, nós precisaríamos saber das vendas totais dos volumes 1 e 2 de Zumou. Infelizmente eu não tenho esta informação. Se ele tivesse saído novamente num outro rank do Oricon aí teríamos um total, mas pelo visto o manga não apareceu mais. Uma pena. Se algum brotaku (mistura de “br” com “otaku”) que estiver lendo isto souber de uma maneira de ver as vendas totais do volume até agora, dá um toque!

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Hipótese 5: Vergonha de Comprar.

De todas as suposições, esta é a que eu considero a mais plausível.

No Japão os níveis de vergonha alheia são mais altos e assustadores que qualquer lugar no mundo. Embora exista gente que não tem acanhamento de ser visto abraçando travesseiros com a foto do seu personagem, existem aqueles que não gostam nem de serem vistos em público comprando uma revista sobre dublagem, por exemplo – isto é coisa de otaku, no pior sentido da palavra.

Sejamos francos: o sumô, apesar de ser um esporte nacional respeitado, é extremamente fora de moda. Os olhos jovens e amendoados da nova geração oriental acham-no vergonhoso, e os olhos de todas as gerações ocidentais o acham ridículo e até nojento! Lembro que na primeira vez que tivemos na minha casa um pacote completo de canais à cabo eu comecei a zapear pelas emissoras estrangeiras. A família estava toda reunida, vibrando ao conhecer emissoras italianas, árabes, portuguesas… então, subitamente, caiu na emissora japonesa e estava passando uma luta de sumô. Toda a família, em uníssono, gritou para mim: “Argh! Muda este canal!”.

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Fico imaginando se na japa o pessoal fica com um pouco de vergonha de comprar Zumou. Se preferem comprar depois, ou às escondidas. Sim, os japoneses ligam demais para que os outros pensam deles. Isto é visto claramente no próprio manga: os lutadores de sumo são ridicularizados e os poucos que começam a demonstrar um pouco de interesse pelo esporte são meio que hostilizados pelos ex-amigos. Sem falar que o suposto público-alvo da série, os amantes de sumô, não devem ser pessoas que curtem muito ler mangas shonen (na sua maioria pessoas mais velhas).

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Hipótese 6: Ânimo esfriado por timming de capítulo fraco

Opa! Esta última hipótese é mais complicada. Vamos a ela:

Isto já aconteceu comigo. Eu costumo acompanhar meus mangas favoritos pela net e depois compro os volumes compilados traduzidos quando chegam ao Brasil. Um dos mangás que estou comprando atualmente é Vinland Saga, de Makoto Yukimura – na minha opinião uma das melhores publicações atuais no país. Porém, quando o manga foi lançado aqui a série estava passando (e ainda passa) por uma fase beeeeem chatinha lá no Japão. E como eu acompanho os capítulos in real-time, isto acabou me fazendo “atrasar” a compra do primeiro volume – mas comprei! Alias tenho até o volume 5 compradinhos.

Isto pode estar acontecendo com Zumou. A turma comemora e vibra diante do manga, vota nele, mas no momento em que o volume é lançado é bem na época em que saiu um capítulo mais fraco na JUMP e por isto o ânimo esfria e eles levam uns dias a mais para comprar. Aliás, no momento, Zumou está passando por uma fase boa, mas não excelente como estava no começo.

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Em resumo: O que está acontecendo com Hinoramu Zumou? Eu acho que é um misto das hipóteses 5 e 6. A gurizada está com um pouco de vergonha de comprar o manga e também não está bem certa se a obra é realmente boa (pelo tema que ela aborda, precisa ser sensacional para fazer alguém comprar).

Vamos e venhamos, mangas de esporte, naturalmente, vendem menos que battle shonens – mas quando estouram, aí estouram para valer! É difícil encontrar um mangá “mediano” nesta leva: se o autor é desconhecido, ou eles são grandes sucessos ou grandes fracassos. Zumou ainda está no meio termo, mas não creio que seja motivo de pânico (ainda), pois Kuroko no Basket também foi um título que custou a se firmar.

Eu espero que as vendas de Zumou melhorem e cheguem, enfim, nos seis dígitos que ela merece. A obra é bem feita, bem desenvolvida e é divertida. Não é a coisa mais extraordinária do mundo, mas vale a pena a olhada!

E se você ainda não leu a resenha que fiz da série, não perca tempo e confira AQUI!

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